Ferramenta para a busca do sentido da vida

Ferramenta para a busca do sentido da vida

Logoterapia ajuda o indivíduo
a encontrar bons motivos para viver

Elessandra Asevedo

Especial para Super Saudável

A era moderna alimenta uma sociedade na qual o ‘ter’ é, muitas vezes, mais importante do que o ‘ser’. Entretanto, durante a vida, diferentes situações podem gerar dúvidas e questionamentos sobre quem realmente se é e os motivos pelos quais se vive, trazendo à tona o desejo de significar algo. Essa busca pelo sentido da existência é a força motivadora do ser humano e, quando um indivíduo acredita que a vida não tem sentido ou que não há mais nada a ser feito, pode até mesmo adoecer. Dentro desta perspectiva surgiu a logoterapia, uma proposta para o atendimento psicoterápico centrado no dilema humano do sentido da vida que ajuda os pacientes a superarem crises existenciais.

A logoterapia foi criada pelo psiquiatra e neurologista austríaco Viktor Emil Frankl, que passou por quatro campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e observou de perto a tríade trágica formada pela dor, culpa e morte, observando reflexões sobre a busca de sentido para a vida mesmo diante das piores adversidades. “Na visão de Frankl, a questão principal não é o que esperamos da vida, mas o que a vida espera de nós”, afirma o especialista em Ciência da Felicidade, Gustavo Arns de Oliveira, docente de Pós-graduação em Psicologia Positiva da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

A abordagem é baseada em três conceitos filosóficos e psicológicos. A Liberdade de Vontade preconiza que o ser humano basicamente é livre para decidir e capaz de se posicionar em relação às condições internas (biológicas e psicológicas) e externas (sociais). A Vontade de Sentido entende que os seres humanos são livres para buscar objetivos e propósitos e, quando alguém não consegue realizar sua vontade, experimenta uma sensação abismal de falta de sentido e vazio. No conceito Sentido na Vida, os indivíduos são auxiliados a alcançar a abertura e flexibilidade que permitem moldar as vidas cotidianas de maneira significativa. A logoterapia também é conhecida como a terceira Escola de Psicoterapia de Viena – a primeira, de Sigmund Freud, define o homem como orientado pelo instinto de busca de prazer (eros), e a segunda, de Alfred Adler, defende que o ser humano é dirigido pelo poder.

“Frankl acreditava que cada pessoa é uma integração única de aspectos somáticos, psíquicos e espirituais, pois o corpo e a psique podem formar uma unidade, mas não representam a totalidade sem o espiritual, tratado como fundamento essencial para a existência”, afirma o psicólogo Sam Cyrous, presidente da Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial (ABLAE). A logoterapia visa o atendimento psicoterápico que tem como premissa básica a visão do homem como ‘um ser em busca de sentido, como um ser responsável pela realização desse sentido’. Isso significa que a motivação da humanidade deve ser encontrar sentido na vida, em vez de buscar principalmente pelo prazer ou poder como enfatizavam outros teóricos.

O psicólogo Sam Cyrous explica que as pessoas têm diferentes metas de vida, mas todos os planos necessariamente passam pelo caminho de dor, culpa e morte. Diante desta tríade trágica, o indivíduo pode negar, parar ou continuar. “Com a logoterapia, vemos que todos os instantes da vida têm valor e sentido, mesmo os piores, e essa é uma enorme mudança de paradigma. Após ter sofrido, é preciso que o indivíduo pense não só na causa do sofrimento, mas também em possíveis aprendizados, sem se cobrar tanto. É ter sabedoria e se desenvolver como ser humano após entender, aceitar e talvez até abraçar a tríade trágica”, esclarece. O psicólogo Gustavo Arns de Oliveira acrescenta que, para Viktor Emil Frankl, se a vida tem sentido e o sofrimento faz parte da vida, então o sofrimento também deve ter sentido, mesmo que a compreensão humana seja limitada.

A ferramenta pode ser aplicada para tratar as diferentes questões existenciais de indivíduos de todas as idades e com diferentes diagnósticos. “As pessoas vivem certo vazio existencial, como se fosse uma doença da nossa época. Não importa o sucesso, o poder ou as condições, o vazio interno existe e o sentido da vida deve ser buscado por esses indivíduos. A logoterapia pode ser o caminho”, pontua o psicólogo Gustavo Arns de Oliveira.

Caminhos

Para o doutor em Psicologia Pablo Lincoln Sherlock de Aquino, logoterapeuta da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a logoterapia é uma abordagem psicológica como outras da área – como a terapia de aceitação e compromisso e a terapia cognitivo-comportamental. No entanto, o processo terapêutico aborda diferentes caminhos que levam à descoberta do sentido da vida. O primeiro é a realização de um valor criativo e útil à sociedade, que tem ligação com a atividade laboral. A segunda via é a realização de valor vivencial, que significa procurar se lançar ao mundo e ter experiências, amar pessoas, descobrir lugares e conhecer coisas novas. “O terceiro e principal caminho é aquele com valor atitudinal, que tem relação com a maneira como seguimos frente às adversidades e situações que induzem a uma percepção errônea de desesperança, de algo que não pode ser mudado. Essa ação de mudança de nós mesmos é uma ação atitudinal de superação e triunfo heroico”, complementa.

Terapêutica pode auxiliar pacientes de todas as idades

Estudos mostram que o sentido da vida desempenha um papel importante na sobrevivência. A meta-análise ‘Meaning in life and physical health: systematic review and meta-analysis’, por exemplo, aponta que o sentido da vida tem relação com boa saúde e comportamentos saudáveis, longevidade, maior qualidade de vida e menores taxas de transtornos mentais, incluindo depressão e transtorno de estresse pós-traumático. O artigo de revisão ‘Life is pretty meaningful’ reforça que a experiência humana de sentido na vida é amplamente vista como uma pedra angular do bem-estar e uma motivação humana central. Além disso, autorrelatos de sentido da vida estão relacionados a uma série de resultados funcionais importantes.

Embora existam muitas circunstâncias que levam as pessoas a pensarem no sentido da vida, é na dor e no sofrimento que ocorre um maior questionamento. “É quando sentimos dor, culpa ou estamos sofrendo pela morte que queremos saber a razão de viver”, acentua o psicólogo Sam Cyrous, ao ressaltar que a certeza da morte leva o ser humano a refletir sobre a passagem do tempo e as realizações que deseja concretizar. A logoterapia também possibilita ao paciente encontrar sentido na vida adotando uma postura de enfrentamento da situação para alívio dos sentimentos e a aceitação da morte como inerente ao ser humano. Os benefícios da abordagem dentro de uma instituição de saúde se estendem aos profissionais da área, que podem ter melhorias por intermédio da reflexão existencial sobre o sentido da vida nas atividades laborais.

“Os aspectos motivacionais no ambiente de trabalho agravam quando as características da própria atividade são compostas por elementos emocionais densos, como é o caso da atividade do profissional de saúde no hospital”, pontua o psicólogo Pablo Lincoln Sherlock de Aquino. Apesar das vantagens, a abordagem motivacional da logoterapia para a compreensão do comportamento humano nas atividades profissionais é pouco explorada e difundida no Brasil. O psicólogo Sam Cyrous lembra, entretanto, que o papel da logoterapia no século XXI deverá ser o de criar mecanismos que auxiliem um exame sério da leitura da natureza humana e dos arcabouços culturais que condicionam todas as dimensões da sociedade. Para o especialista, a abordagem pode ser propulsora de mudanças e de um modelo de ação e reflexão e, ao mesmo tempo, ser capaz de respeitar os sentidos que cada pessoa consiga descobrir a cada momento e as situações da vida individual.