Vinho tinto protege coração e modula microbiota

Vinho tinto protege coração e modula microbiota

Experimento envolveu 42 homens com doença
cardiovascular e demonstrou ação benéfica no intestino

Adenilde Bringel

A microbiota intestinal vem sendo considerada um componente essencial da homeostase do organismo e há um reconhecimento científico crescente sobre o papel desse complexo universo na fisiopatologia de diferentes enfermidades, inclusive as doenças cardiovasculares. Entre os mecanismos negativamente relacionados à microbiota e à saúde do coração está a geração de alguns metabólitos intestinais produzidos principalmente por bactérias do tipo gram-negativas, como o N-óxido de trimetilamina (TMAO), um metabólito dependente da microbiota e de compostos da dieta, principalmente colina e carnitina, formado a partir da ingestão de proteínas de origem animal que são metabolizadas primeiramente no intestino e, na sequência, no fígado. A substância, quando presente no plasma sanguíneo em concentrações elevadas, está associada à carga aterosclerótica e aumenta o risco de infarto do miocárdio e morte cardiovascular. Estudos sugerem que um potencial influenciador da microbiota intestinal e do TMAO plasmático seja o vinho tinto, cujo consumo moderado está correlacionado com uma menor incidência de eventos cardiovasculares, câncer e mortalidade em geral, principalmente por causa dos componentes fenólicos (flavonoides) como flavan-3-ols, flavonóis e antocianinas.

Para investigar os efeitos do consumo de vinho tinto de curto prazo na microbiota intestinal e no TMAO plasmático de homens com doença arterial coronariana estável e documentada por cateterismo cardíaco – em comparação com abstenção de álcool nos mesmos indivíduos –, cientistas de diferentes instituições no Brasil e no exterior desenvolveram um estudo randomizado, cruzado e controlado (cross over) com 42 pacientes com média de 60 anos de idade. Os pacientes foram divididos aleatoriamente em dois grupos. O primeiro começou recebendo vinho tinto (250ml/dia) por três semanas, seguido de um período de washout (pausa no consumo para que os traços da substância sejam totalmente eliminados do organismo) de 15 dias e de um segundo período de abstenção completa de qualquer bebida alcoólica. O segundo grupo fez exatamente o contrário: abstenção total durante três semanas, 15 dias de washout e três semanas ingerindo 250ml de vinho tinto por dia. O estudo também procurou elucidar os efeitos do vinho tinto no metaboloma plasmático em um subconjunto de 20 pacientes.

Os participantes foram recrutados no Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e muitos já eram cadastrados em estudos anteriores do grupo do InCor. “Apenas homens foram selecionados para que pudéssemos homogeneizar a amostra, uma vez que tanto o metabolismo do álcool quanto o metabolismo do TMAO podem diferir por gênero”, explica o professor Protásio Lemos da Luz, cardiologista do InCor que estuda os efeitos do vinho para a saúde cardiovascular há mais de 20 anos e coordena o estudo – que foi tese de doutoramento em Cardiologia da médica Elisa Haas. Também para evitar fatores de confusão e diminuir a interferência nos resultados foi dada especial atenção à dieta dos participantes, que foram orientados a evitar outros alimentos ricos em polifenóis, quaisquer bebidas alcoólicas que não fosse o vinho tinto fornecido no estudo, prebióticos, probióticos e produtos fermentados, cerveja, uvas ou suco de uva, frutas vermelhas ou sucos de frutas vermelhas, iogurte, kombucha, kefir ou vegetais fermentados, quaisquer produtos com fibras adicionadas ou prebióticos sintéticos, como inulina, frutooligossacarídeos ou laticínios com fibras. Além disso, foi solicitado que mantivessem um padrão de dieta semelhante ao longo do estudo. A avaliação dietética foi registrada e guiada por nutricionistas.

Segundo o professor Protásio Lemos da Luz, o TMAO é uma substância de interesse, mas o principal objetivo do grupo era entender sobre a microbiota intestinal e a metabolômica plasmática. “O que realmente interessa é saber o que acontece no plasma, porque os sinalizadores de células estão no plasma e são eles que entram em contato com os tecidos. Juntando o que já sabíamos sobre o vinho e o que recentemente se descobriu sobre a microbiota intestinal, queríamos entender se seria possível influenciar essa flora de maneira benéfica usando vinho tinto”, relata. Depois do consumo de vinho tinto, os pesquisadores observaram uma remodelação significativa da microbiota intestinal dos participantes, e a bebida facilitou a expressão das bactérias Parasutterella, Ruminococcaceae, Bacteroides, Roseburia e Prevotella. A Parasutterella, um conhecido consumidor de L-cisteína que, por sua vez, melhora os níveis de glicose no sangue em experimentos com roedores, foi o gênero mais proeminente para diferenciar a composição da microbiota intestinal durante o consumo de vinho tinto.

“O conhecimento sobre a microbiota intestinal aumentou muito nos últimos anos, tanto que já temos experiência para dizer que a Parasutterella pode ser benéfica, porque esse tipo de bactéria está alterado em quem tem obesidade e maior risco cardiovascular. Essa bactéria também aumenta a digestão de fibras, transformando-as em ácidos graxos de cadeia curta com menos de oito carbonos, produzidos exclusivamente pelas bactérias intestinais e essenciais para o metabolismo humano. Além de produzir energia com menor consumo de oxigênio pelo organismo, a Parasutterella é importante para o metabolismo de sais biliares, ácidos biliares e aminoácidos, e tem poder anti-inflamatório”, detalha o pesquisador Mario Saad, professor titular de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde foi realizada a análise da microbiota dos participantes. O grupo da Unicamp se dedica a estudar obesidade, diabetes e risco cardiovascular e, nos últimos 10 anos, a microbiota tem sido uma das ferramentas usadas.

Antes do início do estudo e a cada intervenção, a microbiota intestinal foi analisada no laboratório da Unicamp pelo pesquisador Andrey Santos. A análise foi feita por sequenciamento de alto rendimento 16S rRNA, tecnologia que permite a identificação genética de espécies de bactérias pelo gene 16S. Também foram analisados os metabólitos presentes no plasma (metaboloma plasmático) como resultado da metabolização de compostos químicos e alimentos. “Com a análise metabolômica constatamos que houve melhora de metabólitos circulantes responsáveis por aumentar o efeito de agentes antioxidantes benéficos para proteger o organismo contra radicais livres e contra todas as situações de fenômenos inflamatórios subclínicos”, acentua o professor Mario Saad.

Alterações no sistema redox

A análise metabolômica plasmática após o consumo de vinho tinto revelou, ainda, modificações importantes no sistema Redox – que produz oxidação e estresse oxidativo e cuja perturbação está associada a hipertensão, diabetes, aterosclerose e insuficiência coronariana –, em relação aos elementos que produzem energia no organismo e também no metabolismo de glicose e diversos cofatores. “Há uma coincidência entre o que se encontrou na microbiota intestinal e na metabolômica plasmática, e essas alterações são potencialmente benéficas. Digo potencialmente, porque não fizemos qualquer estudo clínico de longo prazo que mostrasse que o indivíduo teve menos infarto, por exemplo”, acrescenta o professor Protásio Lemos da Luz. Apesar de ter sido um estudo pequeno em termos de tempo, foi importante para que os pesquisadores pudessem analisar mecanismos relacionados à microbiota, ao TMAO e ao vinho tinto. E, embora as alterações observadas na microbiota intestinal e na metabolômica plasmática dos participantes não tenham refletido no TMAO, essa substância tem muita variabilidade individual e em diferentes períodos, o que deve ter interferido no resultado. “A nossa conclusão corresponde a uma ampla pergunta inicial, que era se poderíamos influenciar a microbiota intestinal através de um elemento da dieta, o vinho tinto, sem causar maiores problemas. E a resposta é sim”, assegura o professor do InCor.

Estudo teve vinho Merlot customizado

O professor Protásio Lemos da Luz destaca que o experimento realizado pelo InCor-FMUSP foi muito bem controlado, uma vez que os participantes receberam uma garrafa de 250ml de vinho tinto, com 12,75% de álcool, produzida especialmente para o estudo. O vinho utilizado foi um Merlot da safra 2014, engarrafado em agosto de 2016 e customizado pelo Instituto Brasileiro do Vinho. A variedade Merlot foi escolhida por ser uma das uvas que melhor se adapta ao solo e clima do Rio Grande do Sul, onde as amostras foram customizadas. “A dosagem de 250ml tem sido usada em vários estudos que investigam os efeitos do vinho tinto na microbiota intestinal”, acentua. Para os homens, o consumo moderado de álcool pode ser definido como a ingestão de 1 a 3 doses padrão por dia – o equivalente a 10g a 30g de bebida alcoólica ou 250ml de vinho.

Os participantes receberam 21 frascos rotulados e orientação por escrito para ingerir uma garrafa de 250ml/dia, cinco dias por semana, por três semanas. Após o período de intervenção, devolveram os 21 frascos vazios e preencheram um diário de consumo. O estudo ‘A red wine intervention does not modify plasma trimethylamine N-oxide but is associated with broad shifts in the plasma metabolome and gut microbiota composition’, publicado em 2022 no American Journal Clinical Nutrition (2022;116:1515-1529), foi desenvolvido por pesquisadores do InCor-HC-FMUSP, da FCM-Unicamp, Universidade de Brasília (UnB), Verona University, na Itália; Austrian Institute of Technology GmbH, na Áustria; e Harvard Medical School, nos Estados Unidos.

Em busca de tratamento para a aterosclerose

Doenças cardíacas e acidente vascular cerebral (AVC) são a principal causa de morte no mundo, responsáveis por 18,6 milhões de vidas perdidas a cada ano – o que significa aproximadamente 37% das mortes globais. No Brasil, cerca de 300 mil indivíduos sofrem infarto agudo do miocárdio todo ano, com óbito em 30% dos casos. Estimativas do Ministério da Saúde indicam que, até 2040, haverá aumento de cerca de 250% desses eventos no País. E uma das causas dos números alarmantes é a aterosclerose, cujo primeiro estágio é a disfunção endotelial. Essa doença inflamatória crônica de origem multifatorial é causada pelo acúmulo de gordura (lipídeos) e consequente inflamação da parede dos vasos, com formação de placas calcificadas.

Os principais fatores desencadeantes da disfunção endotelial são LDL-colesterol elevado, radicais livres formados pelo tabagismo, diabetes mellitus, hipertensão arterial, alterações genéticas, homocisteína elevada e infecções por Chlamydia pneumoniae e herpes vírus. Estudos sugerem que o TMAO seja um indutor de aterosclerose ou até mesmo um marcador da doença. Por isso, outro ponto de interesse do grupo de pesquisadores do InCor-HC-FMUSP é encontrar outra forma de tratar a aterosclerose que, atualmente, é controlada basicamente com estatinas ou mudanças no estilo de vida.

O professor Protásio Lemos da Luz lembra que indivíduos que sofreram infarto do miocárdio e têm níveis aumentados de TMAO geralmente são acometidos de mais eventos cardiovasculares do que aqueles com níveis mais baixos de TMAO. “Em contrapartida, nos estudos com animais de experimentação que utilizam antibiótico de largo espectro que bloqueiam ou quase eliminam a microbiota intestinal, o TMAO praticamente não se forma e os animais desenvolvem muito menos aterosclerose, mesmo com uma dieta hipocalórica, o que significa que a microbiota intestinal é absolutamente necessária para a formação dessa substância chamada TMAO”, analisa. O pesquisador acredita que a microbiota poderá ser, a partir das novas evidências, mais um adjuvante e mais um fator protetor para evitar as doenças cardiovasculares.

“Foi isso que emergiu nos últimos tempos. Enquanto a disbiose intestinal pode representar um novo fator de risco para o coração, a microbiota intestinal saudável modula a produção de determinados elementos, como as citoquinas e o TMAO, que influenciam no desenvolvimento da doença coronariana. O intestino é um modulador de alterações que são produzidas no plasma e que, por sua vez, influenciam as células”, destaca. O professor acrescenta que a microbiota intestinal sofre influência da dieta e, por isso, é diferente em populações de áreas mais desérticas – onde a alimentação é mais baseada em fibras –, com relação àquelas que seguem a chamada western diet, típica do ocidente.

O professor Mario Saad, da Unicamp, lembra que uma boa parte dos problemas de saúde da civilização ocidental, a exemplo de obesidade, diabetes, câncer, doença cardiovascular e aterosclerose, tem em comum um processo inflamatório subclínico, sem as manifestações típicas de inflamação como vermelhidão, febre e dor. O mesmo ocorre na obesidade, pois as grandes complicações são decorrentes desse processo inflamatório subclínico. Para o docente, ao perder bactérias intestinais que produzem ácidos graxos de cadeia curta, o indivíduo perde a capacidade anti-inflamatória. “É sempre bom reforçar que a dieta rica em fibras e em alimentos fermentados melhora a microbiota e reduz o processo inflamatório. O vinho tinto, neste experimento, mostrou que também pode aumentar as bactérias que podem melhorar a inflamação. No entanto, é importante ressaltar que, no estudo, não estabelecemos uma relação causa/efeito de menor inflamação por causa da microbiota. É bom deixarmos isso claro, porque senão criamos ilusões e a ciência não pode fazer isso com a população; precisa ter credibilidade”, reforça.

Beba com moderação

O professor Protásio Lemos da Luz desenvolve estudos sobre vinho tinto e doença cardiovascular desde o início dos anos 2000 e, até agora, os resultados têm sido favoráveis. Os estudos que associam o consumo moderado de vinho tinto à redução da mortalidade e das hospitalizações por doença arterial coronária indicam que a ingestão moderada de vinho (250ml) eleva aproximadamente 12% nos níveis de HDL-colesterol, condição semelhante à encontrada com a prática de exercícios. Em contrapartida, o álcool em excesso pode levar a dependência química, distúrbios de comportamento, síndrome fetal alcoólica, acidente vascular cerebral hemorrágico, arritmia, miocardiopatia e morte súbita. O consumo superior a 30 gramas por dia de qualquer outra bebida alcoólica aumenta o risco de desenvolver hipertensão arterial, que é uma das enfermidades cardiovasculares mais frequentes na população e um dos fatores de risco para aterosclerose.

Os estudos desenvolvidos pelo grupo do InCor avaliam o efeito protetor do vinho na aterosclerose. Nos pacientes com níveis elevados de colesterol no sangue, tanto o vinho tinto quanto o suco de uva têm efeito de vasodilatação arterial e ação antiplaquetária e antioxidante devido à presença dos polifenóis na casca da fruta. “Meus estudos sobre vinho são antigos e nunca sugeriram que a bebida fizesse mal, inclusive para o sistema digestivo, desde que ingerida em doses adequadas. O vinho tem uma concentração de álcool que varia de 10% a 16% e a quantidade usada no estudo atual foi de pouco mais de uma taça por dia”, detalha. Estudos também mostram que os indivíduos que não bebem nada têm uma mortalidade maior do que aqueles que bebem uma quantidade moderada de álcool por dia, seja em forma de vinho ou de outra bebida.

Microbiota intestinal ajuda no amadurecimento do sistema imune humano

A microbiota intestinal é formada a partir do nascimento e, até os três anos de idade, a criança já terá sua própria população microbiana, como uma impressão digital. Essa microflora será determinada de acordo com a forma de parto, amamentação, alimentos que consumir e ambiente em que viver – muito mais do que pela genética. Os estudos científicos asseguram que os primeiros 1.000 dias de vida da criança são fundamentais para que forme uma microbiota adequada e possa ser um adulto com uma microbiota bem estabelecida e bem integrada com o sistema imunológico, com menor chance para o desenvolvimento de doenças crônicas.

Isso ocorre porque a microbiota ajuda o sistema imune a amadurecer e, na vida adulta, a mucosa do intestino abriga a maior coleção de células imunes do corpo. “A microbiota intestinal traz conhecimentos milenares e, provavelmente, tudo o que as nossas avós e bisavós falaram estava certo. Por exemplo, que parto normal é melhor do que cesárea; que é importante amamentar o bebê o máximo possível; que é para evitar o uso excessivo de antibióticos. Se quisermos ter uma população saudável, temos de fazer continuamente essa pregação”, sinaliza o professor Mario Saad. Além disso, é importante melhorar o estilo de vida e a qualidade do sono, praticar exercícios, ingerir menos calorias e ter uma dieta menos industrializada e mais natural, porque a evolução mostra que a boa microbiota acompanha uma vida saudável. O artigo pode ser acessado em https://academic.oup.com/ajcn/article/116/6/1515/6751899.