Muito mais que uma simples dor de cabeça

Multifatorial e crônica, a enxaqueca acomete aproximadamente 15% da população no mundo

Uma das formas mais comuns de cefaleia, a migrânea (enxaqueca) é caracterizada por dor pulsátil de intensidade moderada a forte, que ocorre em um lado da cabeça, geralmente acompanhada de sensibilidade à luz e aos sons, náuseas e vômitos, com crises que podem durar até 72 horas. Multifatorial e crônico, o problema pode estar associado a gatilhos como estresse, alimentação, mudança de clima, automedicação e sono irregular. Considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a sexta doença mais incapacitante no mundo, atinge em torno de 15% da população do planeta. Só no Brasil, dados da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe) apontam que aproximadamente 31 milhões de pessoas, a maioria com idade entre 25 e 45 anos, convivem com a enfermidade. Mais prevalente entre as mulheres, a enxaqueca também afeta entre 3% e 10% de crianças e adolescentes. Com diagnóstico exclusivamente clínico, a ausência de tratamento adequado pode resultar em inúmeros prejuízos pessoais e profissionais.

A enxaqueca é um transtorno neurológico específico em que há redução da liberação de neurotransmissores, a exemplo da serotonina, que ajudam a regular a sensação de dor no sistema nervoso central. Nesse processo, há o estímulo do nervo trigêmeo, que libera neuropeptídeos e causa um processo inflamatório nas meninges, que é responsável pelas crises de dor. “Apesar de não ter causas bem definidas, sabe-se que tem importante fator genético, sendo herdada de um dos pais em até 70% dos casos. O risco de os filhos de pacientes com enxaqueca terem o problema é cerca de três vezes maior do que naqueles com pais sem a doença”, afirma o professor doutor Fabiano Moulin de Moraes, preceptor médico da Residência de Neurologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp). Entre as principais manifestações, a doença pode se apresentar sem aura (enxaqueca comum), quando não há sintomas neurológicos antecedentes à dor; ou com aura, quando o paciente apresenta, antes ou durante a crise, alterações de visão como pontos brancos, flashes de luz, faíscas ou riscos luminosos em ziguezague.

A literatura científica indica que existem mais de 200 tipos de cefaleia, divididas em primárias – aquelas que surgem sem que haja alguma doença concomitante – e secundárias, quando provocadas por outras condições tais como aneurismas, infecções do sistema nervoso e acidente vascular cerebral, entre outros. “Na grande maioria dos casos, a dor de cabeça que ocorre de forma recorrente tem origem primária, como a cefaleia do tipo tensão, que é a mais comum na população e se caracteriza por dores menos incapacitantes”, acentua a professora doutora Fabíola Dach, docente do Departamento de Neurologia e responsável pelos Ambulatórios de Cefaleia (adulto e infantil), Dor Neuropática, Neurologia Geral e da Enfermaria de Neurologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HC-FMRP-USP). A enxaqueca é a mais conhecida e estudada por ser o tipo de cefaleia que mais leva os indivíduos a procurarem ajuda médica, tendo em vista as dores mais intensas, a presença de sintomas como náuseas e vômitos, e o grau importante de incapacidade. 

A doença pode ser crônica, com crises em 15 ou mais dias do mês, ou episódica, quando a dor surge em até 14 dias do mês logo após ou junto com a aura (nos pacientes que apresentam a manifestação). “Inicialmente unilateral e localizada nas regiões ocular e frontotemporal, a dor geralmente se agrava ao longo de uma a duas horas, podendo se tornar difusa por toda a cabeça. Uma crise de migrânea pode durar entre 4 e 72 horas, a depender do uso de medicação”, descreve a neurologista. Nesta fase, outros sintomas secundários podem se manifestar, entre os quais fotofobia, fonofobia, osmofobia, náuseas, vômitos e tontura. Como a dor costuma ser agravada por movimentos bruscos, barulho, claridade ou interação com outras pessoas, muitos pacientes preferem ficar isolados em um quarto escuro e silencioso.

 

GATILHOS

Geralmente, as crises começam em função de algum gatilho que pode variar de acordo com o indivíduo. Ansiedade, estresse, sedentarismo, jejum prolongado, consumo de determinados alimentos, tabagismo, abuso de álcool, exposição a luzes e sons intensos, uso excessivo de equipamentos eletrônicos, mudança brusca de temperatura, sedentarismo e sono irregular são algumas das possibilidades que podem ocasionar crises de enxaqueca. Nas mulheres, o principal desencadeante são os fatores hormonais, devido à oscilação dos níveis de estrogênio e progesterona que ocorrem nos ciclos menstruais, pelo uso de pílulas hormonais e até mesmo na gravidez. Segundo o médico Fabiano Moulin de Moraes, o problema tende a ser mais comum em mulheres que apresentam irregularidades hormonais, endometriose e ovários policísticos.

 

Diagnóstico é exclusivamente clínico

 

Como não existem exames específicos para identificar a doença, o diagnóstico é exclusivamente clínico por meio de anamnese detalhada. O neurologista Fabiano Moulin de Moraes orienta que, para um diagnóstico seguro, é importante descartar a possibilidade de os incômodos estarem associados a outras doenças. “Entre os critérios descritos pela Sociedade Internacional de Cefaleia para a enxaqueca crônica sem aura, o paciente precisa apresentar pelo menos cinco episódios de crise, com duração entre 4 e 72 horas e com características típicas da migrânea, como dor unilateral, de intensidade média ou forte e pulsante, agravada pelo corpo em movimento. Na ocorrência de pelo menos dois dos sintomas, devemos verificar se há, ainda, associação com náuseas e/ou vômitos”, ensina. Já na enxaqueca com aura, considera-se pelo menos duas crises como as descritas e um ou mais sintomas de aura (flashes brilhantes, pontos brancos cintilantes, luzes piscantes, riscos luminosos em ziguezague ou alterações brancas na visão).

A neurologista Fabíola Dach lembra que a enxaqueca influencia a qualidade de vida, principalmente nos períodos de crise – quando a dor é incapacitante, afetando negativamente a produtividade. “Com a crise, o indivíduo não consegue se concentrar, se incomoda com luminosidade e barulho, sente irritação e indisposição e é obrigado a se isolar na tentativa de controlar os sintomas. Se na vida pessoal já é difícil, na profissional é ainda pior, uma vez que a justificativa para se ausentar do trabalho nem sempre é bem aceita pelos empregadores”, ressalta. Por isso, identificar os possíveis fatores desencadeantes e adotar ações preventivas é fundamental para obter um melhor controle do surgimento da dor. Entre as sugestões estão distribuir a carga de trabalho reduzindo o acúmulo de funções, controlar o estresse, evitar a fadiga excessiva, ter um padrão de sono regular (inclusive aos fins de semana), não pular refeições e identificar alimentos que despertem dor, manter-se hidratado, praticar atividade física regular, restringir o tempo de tela em celulares e computadores (ou trabalhar com luminosidade reduzida) e evitar a automedicação.

 

Protocolo para o tratamento deve ser individualizado

 

A indicação do tratamento para enxaqueca, assim como para outros tipos de cefaleia, depende das queixas e do quadro clínico de cada paciente. Após avaliação dos sintomas associados, da presença ou não de outras enfermidades, dos gatilhos, da frequência e intensidade das crises, o neurologista poderá montar um protocolo de atendimento individual incluindo um estilo de vida mais saudável que atue na prevenção de fatores desencadeantes e reduza a ocorrência e os impactos dos episódios melhorando, portanto, a qualidade de vida. Entre as possibilidades estão os tratamentos preventivos, com medicamento de uso continuado, e o uso de fármacos para os períodos de dor que podem ou não ser combinados com terapias alternativas ou comportamentais, a exemplo de técnicas de relaxamento e meditação.

Para a médica neurologista Célia Roesler, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe) e da International Headache Society (IHS), quando um paciente relata episódios frequentes de dores de cabeça que demandam uso de analgésicos mais de duas vezes na semana já está na hora de iniciar uma terapia profilática. “O tratamento é realizado com um ou mais medicamentos de uso diário, de acordo com o perfil do paciente, com opções que incluem fármacos da classe dos antidepressivos, de hipertensão ou dos utilizados para epilepsia. Se o paciente tiver uma dessas enfermidades, o medicamento é benéfico para ambas as condições; caso não as tenha são receitadas doses menores”, detalha. Essas classes de medicamentos agem reequilibrando a função de neurotransmissores e de substâncias químicas no cérebro, e reduzindo a vulnerabilidade às crises.

Para auxiliar os pacientes, a neurologista Célia Roesler informa que, assim que o tratamento tem início, é recomendada a criação de um diário da dor, no qual devem ser anotados quando as crises ocorrem, duração, intensidade, fatores e/ou situações que as antecederam, entre outros. É importante que o paciente compartilhe suas evidências, relate sobre possíveis efeitos colaterais dos medicamentos e se a resposta ao tratamento tem sido positiva. Casos de pacientes refratários ao tratamento precisam ser revistos, seja para alteração de medicamentos e/ou doses ou para indicação de terapia cognitiva comportamental, técnicas de relaxamento ou acupuntura, que têm se mostrado alternativas muito eficientes.

Além da abordagem preventiva, outras medicações podem ser receitadas para o alívio das crises na fase aguda ou em casos episódicos, cuja eficácia depende do uso oportuno com a dose correta. A neurologista Fabíola Dach alerta que a automedicação com analgésicos é um gatilho importante para intensificar crises de enxaqueca. “Tais drogas podem até aliviar a intensidade e duração das crises momentaneamente, mas o uso prolongado deverá piorar e agravar a doença, tornando-a mais frequente e resistente às medicações. Um quadro de enxaqueca episódica, por exemplo, pode se transformar em um quadro crônico por causa do tratamento inadequado”, enfatiza. Esses pacientes costumam ser muito difíceis de serem tratados porque, para iniciar um protocolo individualizado, precisam primeiro limpar o organismo, o que só é possível se houver uma parceria de confiança entre médico e paciente. 

 

Alternativas

Outras classes de medicamentos com resultados promissores têm sido indicadas para o tratamento de enxaqueca crônica refratária, a exemplo da toxina botulínica e dos anticorpos monoclonais. A neurologista Célia Roesler relata que as toxinas botulínicas, proteínas derivadas da bactéria Clostridium botulinum formuladas para uso terapêutico, têm como ação bloquear a liberação de neurotransmissores responsáveis pela dor de cabeça, agindo sobre o mecanismo de dor nos neurônios da cadeia de sensibilidade. “A aplicação da toxina botulínica para tratamento da enxaqueca crônica deve ser realizada exclusivamente por um médico habilitado, com conhecimento sobre a composição da medicação e os locais a serem injetados, com média 30 pontos mapeados na região da testa, têmporas e nuca”, indica. O início da ação da substância é gradual, levando cerca de 10 dias para a ação total dos princípios ativos, e a duração aproximada no organismo é de quatro meses, dependendo da resposta.

Recentemente aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o uso de anticorpos monoclonais para tratamento específico das enxaquecas pode ser uma boa opção, pois têm como função bloquear o efeito do CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina que dispara as crises) no organismo, impedindo ou minimizando as crises. O neurologista Fabiano Moulin de Moraes explica que a facilidade de aplicação – através de injeções subcutâneas administradas exclusivamente por médico especialista em intervalos de um mês – torna esses medicamentos melhores em termos de aceitação, apesar de não serem de primeira linha. Além disso, apresentam menos efeitos colaterais do que os demais tratamentos disponíveis. “Por serem efetivos contra a enxaqueca crônica, os anticorpos monoclonais se apresentam como uma alternativa para o tratamento preventivo. Apesar dos benefícios associados, tais terapias alternativas não estão disponíveis nas redes de saúde pública e complementar devido aos altos custos envolvidos”, sinaliza.

 

Mindfulness mostra benefícios no controle da dor

 

A combinação do uso de medicamentos com terapias comportamentais também é benéfica para prevenir ou reduzir os sintomas associados à enxaqueca. Exercícios de atenção plena como meditação, mindfulness ou yoga se destacam como importantes aliados, pois podem ensinar novas maneiras de o indivíduo responder ao estresse – um dos principais estímulos do problema – e reavaliar e modificar a forma como lida com a doença. Por meio de técnicas de relaxamento e respiração é possível ativar e regular o sistema nervoso autônomo, reduzindo a incapacidade causada pela dor de cabeça e tornando-a mais tolerável, apesar da sintomatologia. Para validar os benefícios associados da atenção plena, um estudo pioneiro desenvolvido na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) forneceu a primeira evidência terapêutica de que o mindfulness associado à Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) pode reduzir os sintomas de pacientes com enxaqueca crônica. 

O artigo ‘Effects of synergism of mindfulness practice associated with transcranial direct-current stimulation in chronic migraine: pilot, randomized, controlled, double-blind clinical trial’, publicado recentemente na revista científica Frontiers in Human Neuroscience, teve a participação de pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Neurociência Cognitiva e Comportamento (PPGNEC) e do Departamento de Psicologia do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da Instituição. O estudo analisou mulheres com idade entre 18 e 65 anos, diagnosticadas clinicamente como portadoras de migrânea/enxaqueca crônica. As participantes foram separadas em dois grupos, através de um gerador de números aleatórios do programa de randomização on-line. Um grupo recebeu a neuroestimulação ativa por meio de eletrodos em pontos específicos da cabeça, enquanto o grupo controle recebeu apenas uma corrente simulada do tipo sham (o aparelho apenas emitia ruído, mas não funcionava na prática). “Paralelamente, todas as voluntárias praticaram mindfulness diariamente durante o período da pesquisa e ambos os grupos fizeram três sessões de eletroestimulação por semana, com duração de 20 minutos, no decorrer de um mês”, relata a enfermeira intensivista Elidianne Araújo, mestre e doutoranda em Neurociência Cognitivo Comportamental, pesquisadora do Laboratório de Estudos em Envelhecimento e Neurociências (LABEN) da UFPB e uma das autoras do estudo. 

Ao longo das quatro semanas, as participantes foram estimuladas a ouvir os áudios de meditação mindfulness em casa, além de responderem dois questionários avaliativos – antes do início do ciclo de sessões e após uma semana do encerramento. “Pelo levantamento dos dados, constatamos que o grupo de mindfulness e ETCC ativa apresentou melhorias em relação à incapacidade e sobre o impacto da cefaleia na realização de atividades da vida diária, bem como um aumento do nível de atenção plena. Já o grupo da ETCC simulada foi beneficiado, porém, com efeitos menores”, descreve. Para a pesquisadora, tais resultados evidenciaram que a ETCC aliada à meditação mindfulness, com seus consequentes benefícios analgésicos na sintomatologia clínica e na ampliação do nível de atenção plena das pacientes, gera melhorias na qualidade de vida, provando ser uma alternativa eficaz para o controle e a redução dos incômodos gerados pela dor.

 

Risco para crianças e adolescentes

 

A dor de cabeça é um sintoma muito frequente nos consultórios e prontos-socorros infantis. Estudos científicos mostram que aproximadamente 60% das crianças já apresentaram algum episódio de cefaleia pelo menos uma vez na vida e, dentre as causas, a migrânea sem aura é uma das mais comuns. Considerada uma das cinco doenças crônicas mais presentes na infância, estima-se que entre 3% e 10% dos pacientes pediátricos tenham enxaqueca e a prevalência aumenta com o passar da idade. Sem o tratamento adequado, crianças e adolescentes podem apresentar crises incapacitantes que resultam em prejuízo no desempenho escolar e esportivo, assim como nas relações familiares e sociais. Por esse motivo, é fundamental um olhar mais atento dos pais sobre o comportamento dos filhos e a frequência das crises, fatores determinantes para um tratamento mais efetivo. 

A enxaqueca infantil também é caracterizada por crises de dores de cabeça que ocorrem com frequência. Entretanto, os critérios de diagnóstico para crianças são mais amplos, pois as características não seguem o padrão clássico que inclui tempo de duração da crise, dor unilateral pulsátil, com fotofobia, fonofobia, vômito ou náusea. “O mais comum é que a criança se queixe de dor bifrontal, mas identificar os sintomas, especialmente naquelas em idade pré-escolar, é desafiador, pois não conseguem nomear a intensidade e o padrão da dor ou identificar se há sintomas associados”, comenta a médica neuropediatra Ana Carolina Coan, professora doutora de Neurologia Infantil do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp).  Como não há um exame que ateste a presença de enxaqueca, o diagnóstico é feito por exclusão mediante anamnese aprofundada e escuta dos relatos trazidos pelos pais de, pelo menos, cinco episódios de crise.

Em geral, a primeira crise de enxaqueca ocorre em torno dos cinco anos de idade e tende a aumentar na adolescência, período em que passa a ser mais comum nas meninas, principalmente pelo aspecto hormonal. “O fator genético é uma particularidade importante, pois, se os pais têm diagnóstico da doença, a prevalência será maior nos filhos. Além disso, embora não seja uma regra, os episódios podem estar relacionados à intersecção de outras doenças como, por exemplo, a epilepsia, que normalmente vem acompanhada de crises de enxaqueca; de alguns transtornos de humor, depressão e, em casos mais raros, com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)”, enumera. Entre os gatilhos que podem dar início ou intensificar uma crise incluem-se, ainda, períodos de estresse, ausência de padrão do sono, alimentação e, principalmente, o abuso de telas de celulares e computadores.

A principal medida para tratar a enxaqueca infantil é evitar os gatilhos e promover mudanças de hábitos de vida, entretanto, se essas ações forem insuficientes, medicamentos podem ser indicados para alívio da dor. “O tratamento pode ser profilático, com uso de medicação preventiva contra a dor e estratégias para identificar e evitar os potenciais gatilhos das crises, ou com o uso de fármacos nas crises episódicas. Em ambos os casos, a prescrição deve ser feita exclusivamente pelo médico, evitando a automedicação que, na medida errada, pode piorar os sintomas”, alerta a neuropediatra. Outra opção são os tratamentos não medicamentosos como a terapia cognitivo-comportamental, que costuma ser muito eficiente. O cuidado é prioridade, pois, quando uma criança com diagnóstico de enxaqueca não recebe o tratamento adequado, o prognóstico é ruim com potencial prejuízo social, escolar e emocional, podendo aumentar o risco de depressão, ansiedade e enxaqueca crônica até a fase adulta. 

 

Muita atenção com a alimentação

 

Um dos mais poderosos aliados contra a enxaqueca pode ser o mesmo hábito que a provoca: a alimentação, apontada como um dos principais gatilhos para crises. Enquanto alguns alimentos se mostram potencialmente prejudiciais para ativar sintomas, outros têm o poder de aliviá-los, regulando a intensidade e a frequência com que as dores se manifestam. Uma vez que a tolerância e a resposta ao que desencadeia a doença é individual, a principal estratégia nutricional é estabelecer uma dieta preventiva e específica para cada paciente, de acordo com suas preferências, que combata as deficiências nutricionais e atue para melhor resposta ao tratamento e à sintomatologia. 

Segundo a professora doutora Cláudia Cople, docente de Nutrição Clínica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), indivíduos com maior sensibilidade podem sofrer uma crise após o consumo de certos alimentos que, provavelmente, sejam inofensivos para a maioria da população, assim como podem ter melhor resposta com ingredientes teoricamente conhecidos como desencadeadores de crises. “O papel do nutricionista precisa ser integrativo e estar focado em entender como funciona a genética de cada indivíduo, como responde aos gatilhos, como o metabolismo e a função intestinal estão funcionando, qual a capacidade de absorção e quais alimentos podem ou não ser benéficos para a sua saúde e, a partir daí, definir o protocolo nutricional mais adequado para a prevenção de crises”, ensina. 

Ainda que não seja uma regra, alguns alimentos têm maior potencial para desencadear as crises de enxaqueca ou intensificar os sintomas, tais como chocolate, queijos, nozes, carnes processadas e alimentos gordurosos. Alimentos ricos em tiramina – substância que participa da produção de neurotransmissores que atuam no controle da pressão arterial –, a exemplo de carnes curadas, defumadas e embutidos em geral, conservas, queijos amarelos, bebidas alcoólicas e frutas cítricas, devem ser evitados (não necessariamente eliminados), pois o consumo elevado pode causar o aumento da pressão arterial, provocando a dilatação dos vasos sanguíneos e a eclosão das dores de cabeça. Além disso, recomenda-se a exclusão de aditivos alimentares como o glutamato monossódico, presente em temperos, alimentos industrializados e embutidos, assim como o aspartame encontrado nas bebidas light e diet, que podem levar a um aumento da atividade da acetilcolina, inibindo a absorção de glicose por parte das células cerebrais. “Mesmo estando na lista de gatilhos, a cafeína, descrita pela hiperestimulação do sistema nervoso central, parece ter ação protetiva em alguns casos, portanto, pode estar presente na alimentação em doses menores ou ser substituída pela versão descafeinada”, orienta. 

 

Dieta benéfica

Apesar dessas restrições, inúmeros alimentos são benéficos e atuam no sistema de proteção do organismo, e um cardápio balanceado e que atenda as preferências individuais será sempre um aliado no combate às crises. A professora Cláudia Cople afirma que o ideal é montar refeições fracionadas que contemplem alimentos antioxidantes e anti-inflamatórios, como alho, cebola, frutas vermelhas, azeite de oliva, oleaginosas e sementes, abacate e gengibre; produtos ricos em ômega-3, como semente de linhaça, atum, sardinha ou salmão; fontes de triptofano que proporcionam sensação de bem-estar, a exemplo de banana e maracujá; alimentos ricos em selênio que diminuem o estresse, como castanhas, amêndoas e amendoim; e alimentos fontes de vitamina B2 (riboflavina), que auxiliam a produção de energia nas células atuando na eficiência energética mitocondrial, entre os quais vegetais de folhas verdes (couve, brócolis, espinafre e repolho), ovos, carne, fígado, peixe, cogumelos, ervilha e soja. “Alguns estudos apontam que a deficiência de magnésio pode aumentar o desenvolvimento da enxaqueca no período menstrual, portanto, indica-se a inclusão de amêndoa, avelã, castanha-do-brasil, amendoim, alcachofra, tomate e espinafre no cardápio das mulheres”, sugere a nutricionista.

Pacientes com enxaqueca também podem apresentar osmofobia (aversão a odores) e uma boa opção para combater esse sintoma é acrescentar ervas frescas na alimentação, seja na refeição ou como infusão. Ao agregar condimentos naturais como manjericão, alecrim, orégano ou hortelã-pimenta, além de elevar o sabor do prato, o poder antioxidante aumenta e, consequentemente, melhora a sintomatologia associada ao problema. Outras recomendações protetivas incluem acrescentar alimentos ricos em fibras, gorduras insaturadas e monoinsaturadas, assim como carboidratos em porções adequadas. Além disso, indivíduos com diagnóstico de enxaqueca devem evitar o jejum prolongado e adotar um estilo de vida saudável que inclua boa hidratação, refeições regulares durante o dia e a prática regular de atividade física para controlar peso, pressão arterial e estresse.

 

Atividade física moderada previne crises

 

A intensidade dos exercícios pode ter impacto diferente em cada indivíduo e, em geral, pessoas com enxaqueca são relutantes a praticar atividades de alto impacto que, normalmente, podem provocar ou intensificar as crises de dor por demandarem grande esforço e desgaste muscular. Entretanto, a pesquisa Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil), conduzida por especialistas de seis instituições de ensino e pesquisa do País desde 2008 – com participação de mais de 15 mil voluntários –, aponta que a prática de atividade física leve e moderada, realizada regularmente, pode ter efeito preventivo e benéfico para quem convive com crises de dor de cabeça. A partir de dados coletados do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ), elaborado pela OMS e preenchido pelos participantes do estudo Elsa-Brasil que reportaram dores de cabeça na primeira onda do estudo (2008 e 2010), os pesquisadores quantificaram a atividade física no tempo de lazer, nos exercícios programados (com maior impacto na saúde) e no deslocamento para o trabalho. 

“Níveis mais elevados de atividade física no lazer, coletados pelo questionário de atividade física, foram associados à menor ocorrência tanto nos casos de cefaleia do tipo tensional quanto de enxaqueca, além de uma menor frequência de crises de outras dores de cabeça. Em contrapartida, o estudo observou que a atividade física realizada no deslocamento para o trabalho está ligada à maior frequência de cefaleias. A hipótese é que a poluição atmosférica, típica dos grandes centros urbanos, possa estar associada às crises de dor”, explica a professora doutora Alessandra Goulart, médica clínica-geral e epidemiologista do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP), e uma das autoras do estudo publicado na revista científica Cephalalgia. O levantamento verificou, ainda, a relação entre as cefaleias e o tempo de atividade física recomendado pela OMS para diminuição de risco cardiovascular – de 150 minutos semanais em intensidade moderada ou 75 minutos de forma mais vigorosa –, e constatou que, em casos de inatividade, há maior ocorrência de enxaqueca. Já entre pessoas que se movimentam menos tempo que o critério adotado pela OMS há maior prevalência tanto de dor de cabeça tensional quanto de enxaqueca.

No lazer, a inatividade esteve associada à maior frequência de ambas as formas de dor de cabeça, enquanto a atividade física intensa, porém abaixo do tempo recomendado, está relacionada à maior ocorrência de enxaqueca em mulheres. “Neste caso, o mais provável é que haja influência de fatores hormonais, como tensão pré-menstrual ou período menstrual”, argumenta a professora. Para prevenir as crises ou diminuir a ocorrência e intensidade das cefaleias, a recomendação é que os exercícios de lazer e as atividades como esportes amadores, exercícios funcionais, caminhadas, corridas ao ar livre ou passeio de bicicleta sejam realizados com intensidade moderada, pelo menos 150 minutos por semana.