Da sabedoria popular ao uso farmacológico
Melão de São Caetano é utilizado há centenas de anos pela medicina popular e estudos científicos recentes mostram o potencial para ajudar no tratamento de doenças
Elessandra Asevedo
Especial para Super Saudável
Conhecida popularmente como melão de São Caetano, a planta Momordica charantia tem sido usada desde os tempos antigos como remédio para inúmeros problemas de saúde, substituindo até hoje o uso de medicamentos alopáticos. Os benefícios atribuídos às preparações à base dessa espécie vegetal chamaram a atenção de diferentes pesquisadores, que passaram a certificar a sabedoria popular ao comprovar que os componentes bioativos encontrados nos frutos e nas folhas podem colaborar com o tratamento de diferentes doenças, como diabetes e câncer, e também no cuidado com feridas. Tradicionalmente, o melão de São Caetano é usado como medicamento em países em desenvolvimento como Brasil, China, Colômbia, Cuba, Gana, Haiti, Índia, México, Malásia, Nova Zelândia, Nicarágua, Panamá e Peru, sendo utilizado na maioria deles com foco no controle do diabetes, de gases, cólicas, vermes e parasitas. Na Índia, várias propriedades medicinais são reivindicadas, entre as quais estão o poder antidiabético, anti-helmíntico, contraceptivo, antimalárico, laxante e, inclusive, abortivo.
Bem consolidada há centenas de anos na medicina popular no Oriente, a Momordica charantia despertou o interesse da comunidade científica e tem sido tema de estudos no Ocidente na última década. Há inúmeros artigos demonstrando a capacidade da planta para diferentes funções. Por exemplo, o melão de São Caetano pode ser utilizado como imunomodulador porque reforça o sistema imunológico; hipertensivo devido à capacidade de diminuir a pressão arterial; além de possuir propriedades antioxidantes e antibióticas, fazer bem para o estômago, ser afrodisíaco e laxativo. “As propriedades medicinais estão mais localizadas na folha da planta, mas o fruto é rico em vitaminas A, B1, B2 e C, e farto em alguns minerais, sendo uma boa fonte de ferro”, reforça o engenheiro agrônomo Marcelo Rigotti, pesquisador do Instituto Federal do Mato Grosso do Sul (IFMS), campus Ponta Porã.
Por melhorar o índice glicêmico, a planta tem se destacado nas pesquisas em relação ao diabetes. No estudo ‘Possible molecular mechanisms of glucose-lowering activities of Momordica charantia (karela) in diabetes’, pesquisadores do Departamento de Nutrição da Mashhad University of Medical Sciences, do Irã, fizeram uma revisão dos efeitos da planta na glicemia e nas vias moleculares envolvidas. Os resultados comprovaram os efeitos hipoglicêmicos, como aumento da secreção pancreática de insulina, diminuição da resistência à insulina e aumento da utilização de glicose pelas células periféricas e do músculo esquelético. No estudo ‘Bitter Melon (Momordica charantia): a Nutraceutical Approach for Cancer Prevention and Therapy’, realizado pelo Saint Louis University School of Medicine, dos Estados Unidos, os cientistas constataram que o melão de São Caetano pode servir como um promissor agente preventivo e terapêutico contra o câncer, porque o extrato bruto contém muitos componentes bioativos, incluindo ácidos fenólicos, flavonoides, lectinas, esteróis e proteínas que apresentam potencial atividade anticancerígena sem efeitos colaterais significativos.
Realizado em parceria com pesquisadores da China e da Coreia do Sul, o estudo ‘The role of Momordica charantia in resisting obesity’ mostrou que a planta tem efeitos antiobesidade por causa dos componentes bioativos que inibem a síntese de gordura, promovem a utilização de glicose e estimulam a redução de lipídeos. No artigo ‘Pharmacological actions and potential uses of Momordica charantia: a review’, pesquisadores da All India Institute of Medical Science, da Índia, afirmaram que estudos experimentais recentes mostraram o potencial contra a bactéria Helicobacter pylori e, embora existam poucos relatos disponíveis sobre o uso clínico em pacientes com diabetes e câncer, os resultados são promissores.
Eficiente na cicatrização e como antifúngico
O melão de São Caetano é utilizado de forma tópica para o tratamento de feridas e pode ter prescrição de uso interno e externo para a eliminação de parasitas. Na medicina popular turca, os frutos maduros são usados localmente para cicatrização rápida de feridas e ingeridos para o tratamento de úlceras pépticas. Um estudo sobre a planta e os efeitos nas úlceras venosas utilizando fêmeas adultas de rato Wistar, realizado na Universidade Sagrado Coração (Unisagrado), em Bauru, interior de São Paulo, mostrou que o grupo tratado com a pomada extraída do fruto apresentou uma redução do diâmetro da lesão estatisticamente significativa após sete dias, quando comparado a outro grupo que não utilizou a pomada.
Posteriormente, a eficácia do melão de São Caetano em úlceras venosas foi testada no Ambulatório para Tratamento de Úlceras da Unisagrado, com pacientes que aplicaram uma pomada feita a partir do fruto. O tratamento padrão envolve o uso da bota de Unna – um curativo que mantém a ferida úmida – e enfaixamento inelástico, mas, para o experimento, os pacientes receberam também uma camada da pomada extraída do fruto da Momordica charantia. Segundo a enfermeira Marcia Aparecida Nuevo Gatti, professora doutora que orientou o trabalho do aluno Bruno Fernando da Silva, os resultados foram muito eficientes, com menor tempo de cicatrização e diminuição da dor, tudo com baixo custo. “Novos estudos precisam ser realizados para que a população tenha acesso a esse medicamento, e é importantíssimo ressaltar que não basta pegar o fruto e colocar na ferida. A pomada utilizada passou por um longo processo de desenvolvimento e foi testada dentro de um ambiente controlado, por isso é segura”, alerta.
Em outro experimento desenvolvido pelo grupo da Unisagrado – Avaliação da atividade antifúngica dos extratos etanólicos do melão de São Caetano (Momordica charantia l.) frente a diferentes espécies de Candida, de autoria de Sthefani Tombini e Marina S. Fassina – o extrato da folha da planta indicou ação fungistática frente a todas as espécies de Candida, mostrando padrões diferentes nas concentrações (312,5μg/ml para C. albicans e 625μg/ml para C. krusei, C. tropicalis e C. glabrata). O mesmo extrato demonstrou capacidade fungicida nas espécies C. albicans e C. tropicalis, nas concentrações 625μg/ml e 1250μg/ml, respectivamente, sugerindo uma ótima alternativa terapêutica.
Ampliação do uso de fitoterápicos
O melão de São Caetano chegou ao Brasil por meio dos escravos que se estabeleceram em Minas Gerais, principalmente na cidade de Mariana, e foi por causa da existência de uma capelinha cujo padroeiro era São Caetano que a planta foi nomeada. Hoje, no Brasil, o fruto verde é utilizado refogado na alimentação, principalmente pelos descendentes asiáticos – que têm o costume passado por gerações. Algumas pessoas também chupam as sementes do fruto maduro, porque são doces. O uso medicinal vem crescendo entre os brasileiros devido à industrialização do produto e comercialização por meio de cápsulas. As folhas têm ganhado destaque para preparação de chás, por causa das propriedades que contribuem para a diminuição da taxa de açúcar no sangue e controle do colesterol.
A medicina alternativa, por meio da utilização das ervas medicinais, permanece como uma das formas mais comuns de terapia disponível às populações de todo o mundo. No Brasil, o melão de São Caetano faz parte da lista composta por 71 plantas da relação de Plantas Medicinais de Interesse ao Sistema Único de Saúde (Renisus), divulgada pelo Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos do Ministério da Saúde. Dentre algumas espécies constam a Cynara scolymus (alcachofra), Schinus terebentthifolius (aroeira da praia) e Uncaria tomentosa (unha-de-gato), usadas pela sabedoria popular e confirmadas cientificamente para distúrbios de digestão, inflamação vaginal e dores articulares, respectivamente.
A finalidade da Renisus é orientar estudos e pesquisas que possam subsidiar a elaboração da relação de fitoterápicos disponíveis para uso da população com segurança e eficácia para o tratamento de determinada doença. Atualmente, são oferecidos fitoterápicos derivados de espinheira santa para combater gastrites e úlceras, e de guaco para tosses e gripes. “O SUS tem dado atenção e investido na fitoterapia, porque é uma forma eficiente de melhorar o tratamento e diminuir os custos com o uso de alguns medicamentos”, pontua a professora Marcia Aparecida Nuevo Gatti.
O pesquisador Marcelo Rigotti acrescenta que, em comunidades mais afastadas ou pequenas cidades que não têm um sistema de saúde disponível, as plantas medicinais podem colaborar para tratar alguns distúrbios de forma mais simples e segura. “Falta à população olhar para a natureza como uma farmácia. E nem precisamos entrar na floresta para isso, porque dentro de casa todos têm canela, alho e cebola, por exemplo, que são muito mais que temperos. O melhor seria fazer uma difusão do conhecimento sobre as propriedades medicinais das hortaliças e frutas para toda a população, mas esse é um processo de educação que deve começar na escola para que seja disseminado para melhoria da saúde”, reforça.
Riscos
Apesar dos bons resultados dos estudos, a Momordica charantia tem contraindicações importantes, especialmente porque pode causar estimulação uterina com risco de induzir aborto. A planta também tem propriedade antifertilidade, reforçando a necessidade de as gestantes não usarem plantas medicinais sem orientação médica para não oferecer risco de danos ao feto. O consumo do chá das folhas em grandes quantidades também é contraindicado, pois pode causar desmaio pela rápida redução da taxa de açúcar no sangue.