Busca por marcadores para o câncer de pâncreas
Elessandra Asevedo Especial para Super Saudável
RNAs não codificadores de proteínas podem colaborar para a agressividade do tumor
Raro antes dos 30 anos, o câncer de pâncreas é mais comum a partir dos 60 anos e tem incidência significativa no sexo masculino, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA). De difícil detecção, o diagnóstico tardio e o comportamento agressivo do tumor resultam em alta taxa de mortalidade. Mesmo não tendo incidência tão alta como outros tumores, o câncer de pâncreas é letal e as opções de tratamento são muito limitadas, fomentando o interesse de pesquisas para aumentar a compreensão sobre as bases moleculares da enfermidade.
Sem sintomas ou com sintomas difusos, como icterícia e dor, o câncer de pâncreas geralmente é diagnosticado por acaso quando é realizado algum exame de imagem na região abdominal e, muitas vezes, está em fase metastática e incurável. A melhor chance de cura do adenocarcinoma ductal do pâncreas, que representa 80% dos casos, é o diagnóstico precoce, no entanto, não há biomarcadores para fazer a triagem de forma eficiente. Sem o conhecimento de uma molécula que possa ser procurada no sangue, na urina ou na saliva para indicar a presença do tumor, fica ainda mais difícil a detecção precoce.
Em busca desses marcadores, uma equipe multidisciplinar composta por bioquímicos, biólogos moleculares e celulares, bioinformatas e médicos do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), desenvolveram o estudo ‘Annotation and functional characterization of long noncoding RNAs deregulated in pancreatic adenocarcinoma’, publicada na revista Cellular Oncology. O trabalho visa estudar alterações na expressão dos genes que ocorrem nas células tumorais para entender como o câncer surge e quais os mecanismos alterados nessas células. Compreendendo mais a neoplasia, é possível contribuir com soluções para melhorar o diagnóstico e o tratamento.
A expressão gênica é estudada através do sequenciamento de alta capacidade do RNA das amostras. De acordo com o pesquisador Eduardo M. Reis, professor doutor do Departamento de Bioquímica do IQ-USP, o lado inovador do estudo é não focar apenas nos RNAs que codificam para proteína – mensageiros –, mas também analisar os RNAs não codificadores longos (lncRNAs), classe menos conhecida, mas, que tem função regulatória na célula. “Analisamos fragmentos do tumor e do tecido do pâncreas não afetado pela doença e comparamos a atividade dos genes em ambos, medindo a abundância das moléculas de RNA. Foram encontradas assinaturas que estavam com a expressão muito aumentada no tumor em relação ao tecido não tumoral”, detalha.
Os pesquisadores avançaram identificando diversos RNAs não codificadores com expressão mais alta no tumor e buscam caracterizar a função desses RNAs em diferentes modelos tumorais como células, linhagens celulares e em tumores de pacientes crescidos em camundongos. Os cientistas observaram que, quando faz intervenção para manipular ou silenciar o nível de expressão desses RNAs não codificadores, há um efeito antitumoral com as células tumorais crescendo menos, proliferando menos e/ou migrando menos. Quando essa célula tumoral silenciada é colocada no camundongo ocorre menos tumor do que uma célula contendo todos os RNAs não codificadores.
“Estamos vendo que esses RNAs não codificadores têm função, são oncogênicos e contribuem para a malignidade. O desdobramento do trabalho é tentar explorar as possibilidades translacionais desse achado e sua aplicação na clínica. Já que esses RNAs não codificadores estão bem expressos nos tumores, poderiam ser usados para detectar precocemente a recidiva da doença em pacientes em tratamento, por exemplo, utilizando um teste que permita detectar a doença no sangue, na urina ou em fluido biológico”, pontua o professor. Outra frente leva em consideração o efeito antitumoral dos RNAs não codificadores quando são silenciados, para tentar desenvolver sistemas de entrega de pequenas moléculas que silenciam a expressão desses RNAs em modelos celulares e em animais, e verificar se essa estratégia também pode ser uma opção terapêutica. O estudo está disponível no https://link.springer.com/article/10.1007/s13402-022-00678-5.
Biotecnologia para aumentar acesso a testes de hepatite B
Técnica pode ajudar na fabricação nacional de kits para diagnóstico
Caracterizada pela inflamação do fígado e causada por vírus, a hepatite B é um problema de saúde pública em todo o mundo e, de acordo com o Ministério da Saúde, representa a segunda maior causa de óbitos entre as hepatites virais – entre 2000 e 2019 foram registradas 16.722 mortes relacionadas a esse agravo no Brasil. A doença pode evoluir para uma hepatite crônica, trazendo complicações como cirrose hepática e carcinoma hepatocelular. Como a maioria dos casos não apresenta sintomas, a hepatite é diagnosticada décadas após a infecção, com sinais relacionados a outras doenças do fígado como cansaço, tontura, enjoo, vômito, febre, dor abdominal, pele e olhos amarelados. Com o intuito de melhorar a prevenção, o diagnóstico e até mesmo o tratamento, um estudo brasileiro visa desenvolver testes moleculares de simples manipulação e baixo custo.
A hepatite B é considerada uma doença imunoprevenível tanto por meio de vacina – que é altamente eficaz e disponibilizada gratuitamente pelo governo brasileiro no calendário de vacinação infantil – quanto por outras formas de prevenção, como a adoção do uso de preservativo nas relações sexuais e o não compartilhamento de objetos de uso pessoal. No entanto, de acordo com o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais do Ministério da Saúde, os casos continuam sendo notificados e, de 1999 a 2020, 254.389 casos de hepatite B foram registrados no Brasil. Desses, a maioria está concentrada na região Sudeste, seguida das regiões Sul, Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Para ampliar o acesso aos testes de detecção e diminuir os custos é necessário aumentar o monitoramento e o tratamento precoce. E é esse o objetivo do estudo ‘Teste imunológico para detecção de antígenos de superfície do vírus da hepatite B: uma estratégia promissora para desenvolvimento de insumo para diagnóstico’, desenvolvido pelo estudante de Medicina Bruno Carrijo Ramos como parte do Programa de Iniciação Científica no Centro Universitário de Brasília (CEUB). O projeto foi desenvolvido em colaboração com o Laboratório de Virologia da Universidade de Brasília (UnB), sob supervisão do professor doutor Bergmann Ribeiro e orientação da professora doutora Anabele de Azevedo Lima.
O estudo propõe analisar a expressão do antígeno de superfície do vírus da hepatite B, chamado de HBsAg, em um sistema eucarioto, verificando a possível viabilidade de desenvolver um produto biotecnológico para diagnóstico. O antígeno de superfície HBsAg é um marcador sorológico indicador de infecção pelo vírus da hepatite B e componente principal de vacinas contra a doença. Quando fusionado à poliedrina – que faz replicação viral –, o HBsAg pode ser produzido em larga escala, sendo uma estratégia promissora para a saúde pública. Atualmente, não há empresas ou indústrias brasileiras que produzam o HBsAg em grandes quantidades, por isso, os insumos utilizados para a produção de kits diagnósticos e vacinas são importados.
Segundo o estudante Bruno Carrijo Ramos, para o desenvolvimento desse teste imunológico foi preciso aumentar a expressão do HBsAg utilizando o baculovírus, que replica rapidamente e infecta apenas células de insetos sem gerar danos aos seres humanos. Os pesquisadores criaram uma estratégia de DNA recombinante, fusionando o antígeno HBsAg junto à proteína específica do baculovírus e alcançando, assim, a quantidade correta para o diagnóstico. “A estratégia foi avaliada por meio do teste com 25 amostras de sangue de pacientes com hepatite B, cedidas pelo Laboratório Central do Distrito Federal (LACEN-DF), que tinham a presença do antígeno HBsAg previamente testada e identificada de acordo com a doença pré-estabelecida. Além disso, tínhamos amostras infectadas com hepatite C, A e citomegalovírus (CMV) para verificar uma possível reação cruzada”, pontua.
O autor do estudo explica que ainda há a necessidade de uma melhor padronização da técnica e das amostras, pois a característica de reações cruzadas ficou inconclusiva, mas o trabalho revela a possibilidade do uso dessa técnica futuramente para ajudar no desenvolvimento de kits de diagnóstico para a detecção da hepatite B e um possível passo para a produção de vacina totalmente nacional e mais acessível, melhorando o cenário da doença no Brasil.