Ciência investiga consciência pós-morte

Pesquisadores do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (NUPES) da Faculdade de Medicina (Famed) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) lançaram, em julho, o livro Science of Life After Death pela editora alemã-britânica Springer Nature, uma das maiores do mundo no ramo científico. Principal autor do livro, o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, professor doutor titular de Psiquiatria, diretor do NUPES-UFJF e coordenador da seção de espiritualidade da Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL), afirma que o conteúdo é baseado em uma ampla investigação científica sobre a possibilidade da sobrevivência da consciência humana após a morte, com relatos de casos analisados por inúmeros cientistas – inclusive agnósticos. Escrito em colaboração com a psiquiatra Marianna Costa e o filósofo Humberto Schubert Coelho, ambos pesquisadores do NUPES-UFJF, o livro traz uma revisão abrangente da história das religiões e da filosofia, derrubando preconceitos culturais e psicológicos que são, frequentemente, os maiores obstáculos para a aceitação da sobrevivência pós-morte como um fato da natureza.

 

Por que o senhor resolveu escrever sobre esse tema?

Faz 30 anos que entrei na Faculdade de Medicina como aluno e 16 que sou professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. As três ideias que existiam no ambiente acadêmico eram que a religiosidade estaria desaparecendo da humanidade; que religiosidade e espiritualidade eram incompatíveis com a racionalidade e a ciência; e que religiosidade e espiritualidade eram vestígios do primitivismo do passado e causa, ou sintoma, de doenças mentais, neuroses e outros transtornos. Tudo isso se desfez com os estudos das últimas décadas, e o Brasil colabora de modo significativo com isso. Hoje, sabemos que a espiritualidade continua extremamente importante. Para ter ideia, 84% da humanidade possui uma filiação religiosa e, dos 16% que não possuem, a maioria tem alguma espiritualidade, uma relação com Deus, com os espíritos, com os ancestrais. Espiritualidade e religiosidade são importantes até mesmo para as pessoas lidarem com problemas e dificuldades pois, de modo geral – embora nem sempre –, estão relacionadas com melhores níveis de saúde física e mental. Isso já está bem estabelecido. Já sabemos também que o eterno conflito entre ciência e religião é um mito histórico.

 

Qual é o objetivo do livro?

Trazer um panorama do que a ciência tem a dizer sobre a consciência após a morte. É um livro introdutório que traz centenas de referências bibliográficas para quem quiser se aprofundar. O livro foi publicado pela Springer Nature, principal editora científica do mundo hoje, e é a primeira vez que temos notícia de que uma editora científica deste porte publica um livro especificamente com evidências de sobrevivência da consciência, o que é bastante relevante.

 

Qual é a definição de espiritualidade?

Definimos a espiritualidade como a relação com o transcendente, com a dimensão da vida e do universo que está além desse mundo material que vivemos. E, dentro desse transcendente, a imensa maioria das tradições religiosas espirituais acredita que existe alguma forma de vida após a morte, que não acabamos com o corpo físico. Essa é basicamente a ideia das tradições espirituais. Comecei a me interessar pela ideia de certa continuidade após a morte desde que era residente de Psiquiatria, há 20 anos, e me surpreendi com as evidências que encontrei. Já reconhecemos a espiritualidade, mas uma das questões ainda é se a crença nuclear da espiritualidade, que é a ideia da sobrevivência, de algo transcendente, se é apenas uma criação cultural ou existem evidências e relatos científicos sobre isso. E esse foi o objetivo do livro, porque a imensa maioria das pessoas, no ambiente acadêmico e fora dele, não sabe que há mais de 150 anos de pesquisas por algumas das melhores mentes científicas e filosóficas do mundo sobre o tema sobrevivência da consciência após a morte.

 

Como classificar a consciência após a morte?

Do ponto de vista científico, todos temos uma consciência, no sentido do ‘eu’. O que pensamos, sentimos, nossas vontades, o que planejamos, tudo isso chamamos de mente e consciência. A pergunta básica, do ponto de vista científico, é se há evidência de que esse ‘eu’ possa existir quando o cérebro não está mais funcionando. Outra questão é o que caracteriza cada indivíduo, cuja resposta é o que chamamos de continuidade do caráter e da memória. Cada um de nós tem um caráter, um modo de lidar com a vida e com o mundo e uma memória, e toda vez que encontramos um amigo, por exemplo, esperamos encontrar aquelas memórias, aquela personalidade e aquele caráter que conhecemos, assim como as habilidades e o modo de lidar com a memória. Essa é a ideia básica. Outra questão é a relação da mente com o cérebro. Existem duas grandes visões nesse sentido. Uma bastante predominante nas últimas décadas é a ideia de que o cérebro produz a mente, ou seja, as atividades químicas e elétricas do cérebro geram a consciência. Essa visão é chamada de fisicalista e a ideia é que, se morrer o cérebro, a consciência desaparece. Mas existe outra perspectiva não fisicalista de que o cérebro é um instrumento para a manifestação da consciência, e que a consciência não é produto do cérebro, mas sim que o cérebro permite que se manifeste. Essas são as duas grandes dúvidas e o que procuramos avançar no livro com evidências sobre o tema.

 

Quais argumentos contrariam a ideia do fisicalismo?

O fisicalismo acredita que tudo que existe no universo são forças ou partículas físicas, e os adeptos acham que a ciência provou o fisicalismo ou que a ciência depende do fisicalismo – equívoco chamado de cientificismo materialista. No entanto, é fundamental lembrar que não existe comprovação científica sobre tudo no universo, a ciência não consegue abordar tudo e temos de ter certa humildade intelectual para entender que não sabemos tudo. Também é falso afirmar que a ciência tenha nascido ou necessite da ideia do fisicalismo, até porque os fundadores da ciência moderna – Galileu, Képler, Isaac Newton, Francis Bacon – não eram fisicalistas. Portanto, o fisicalismo nada mais é que uma visão de mundo e não um requisito para fazer ciência. Inúmeros cientistas de altíssimo padrão na atualidade não são fisicalistas, como Francis Collins, que liderou o Projeto Genoma Humano e, por 12 anos, presidiu o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH). Ele é cristão evangélico e trabalha com o diálogo ciência e religião o tempo todo. A ideia de que propor uma visão, algum aspecto não físico do universo seria necessariamente sobrenaturalismo e superstição também é falsa. Muitos autores defendem – e estou nesta linha – que a consciência pode ser outro componente irredutível do universo, um componente básico. Chamamos isso de naturalismo expandido, ou seja, defendemos o naturalismo para além da matéria – o que inclui a consciência que, neste caso, poderia existir independentemente do corpo. Outro aspecto é que muitas pessoas pensam que a ciência teria provado que o cérebro gera a mente e produz a consciência, o que também é falso.

 

Como se busca provar essas teorias?

As pessoas costumam apresentar três evidências que seriam provas de que o cérebro gera a mente. Existem estudos de neuroimagem mostrando uma relação de áreas de ativação do cérebro e vivências mentais. Por exemplo, quando estou pensando para falar com alguém estou ativando uma área do meu cérebro; quando me lembro do amor que tenho pelos meus filhos ativo outra área do cérebro. Segundo argumento: se um indivíduo tiver lesões no cérebro lesará a consciência, por exemplo, uma pessoa com Alzheimer perde a memória e a personalidade pode alterar, e isso seria uma prova de que é o cérebro que gera a mente. Por fim, ao estimular certas áreas do cérebro ou usar determinadas medicações posso ter alterações mentais. De acordo com esses argumentos, a lesão e a estimulação são vistas como provas de que o cérebro está gerando a consciência. Porém, na realidade isso também pode ser explicado se o cérebro for apenas o instrumento da consciência. Todas as evidências só mostram que o cérebro é importante para a consciência se manifestar em determinada situação, mas não que ele gere a consciência. Portanto, outra barreira a ser vencida é mostrar que a ideia de que o cérebro gera consciência não é um fato científico consumado.

 

Muitos afirmam que acreditar em uma dimensão transcendente é coisa de gente supersticiosa e sem instrução…

Exatamente, e esse é outro ponto importante a desmistificar. Há estudos na França, na Rússia e no Brasil sugerindo que, quanto menor a instrução, menos o indivíduo acreditará na vida após a morte. Em Juiz de Fora, fizemos um estudo com 600 participantes e encontramos uma relação nesse sentindo: quanto maior o nível de escolaridade, maior a crença em vida após a morte. Assim, a parte inicial do livro teve como meta limpar preconceitos e opiniões pré-formadas, para que os leitores possam avaliar as evidências em si e não baseados em opiniões pré-concebidas e distorcidas.

As pessoas que creem e os cientistas que estudam a vida após a morte são sempre religiosos ou espiritualistas?

Não necessariamente. Há pessoas de várias tradições e vertentes trabalhando nessa área. No nosso grupo de pesquisa temos católicos, evangélicos, umbandistas, judeus, espíritas e até agnósticos, e no mundo é a mesma coisa. Há cientistas que estudam esse fenômeno e não acreditam que exista a sobrevivência da consciência; e há pesquisadores que acreditam. Desses que aceitam a sobrevivência como a melhor hipótese explicativa do conjunto de fenômenos envolvidos há cientistas de todos os tipos, e a maior parte, segundo meu conhecimento, nem está vinculada a uma religião específica.

 

Quais foram os primeiros sinais de que haveria consciência pós-morte?

A ideia da sobrevivência após a morte sempre foi abordada na filosofia. Pitágoras, Sócrates e Platão na Grécia antiga, 2.500 anos atrás, discutiam racionalmente sobre o tema e isso continuou ao longo da história da civilização ocidental na filosofia e nas religiões, mas não era considerado científico. A virada inicia na metade do século 19, quando intelectuais e cientistas começaram a estudar fenômenos espirituais – aparição de pessoas falecidas, transes mediúnicos, comunicações telepáticas. Nessa época, a ciência estava avançando e investigando a evolução das espécies com Darwin, e a Sociologia e a Psicologia científicas estavam surgindo. Na Inglaterra, os estudos começaram com William Crookes, que foi um importante físico-químico, e depois foi criada a Society Psychical Research (SPR), na qual vários pesquisadores e professores da Universidade de Cambridge se reuniam para usar o instrumental da ciência e da racionalidade para estudar esses fenômenos. A SPR reuniu dezenas dos principais cientistas e filósofos do mundo à época, incluindo vários ganhadores de prêmio Nobel, como Pierre e Marie Curie, Charles Richet e Henri Bergson. Na França, Allan Kardec foi um dos que liderou essa proposta de investigação racional com base científica. Portanto, foi um movimento mundial que começou na tentativa de usar o ferramental da ciência para estudar outros aspectos que vão além da física e da química.

 

O que comprova que não se está falando apenas de religião, mas de ciência?

Por se basear na análise racional rigorosa de evidências científicas observáveis. Há dois tipos de evidência: uma de que a consciência pode estar ativa quando o cérebro não está funcionando, e isso tem muito a ver com as experiências de quase morte (EQM), e outra é essa continuidade da memória e do caráter depois da morte. Nessa última linha, vamos ter três tipos principais de fenômeno: as aparições, que são indivíduos que veem pessoas que já faleceram; os fenômenos mediúnicos, que são pessoas que alegam se comunicar com indivíduos falecidos; e os chamados fenômenos sugestivos de reencarnação.

 

Como se explica cientificamente a experiência de quase morte?

O caso clássico mais relevante de EQM é a parada cardíaca, quando o coração para de funcionar e de jogar sangue para o cérebro – que consome muita glicose e oxigênio e precisa de suprimento contínuo. Em uma parada cardíaca, o cérebro fica sem atividade elétrica (isoelétrico) em menos de um minuto. Pela visão fisicalista, neste caso não poderia haver consciência ou lembranças. No entanto, muitas pessoas referem que estavam acordadas e lúcidas (até mais do que o habitual) no momento da parada cardíaca, e esse é o primeiro ponto que chama muito a atenção. Há relatos de indivíduos conscientes, percebendo o que estava acontecendo e com uma sensação de compreensão transcendente da vida, inclusive com contato com seres espirituais. Os céticos podem afirmar que é fantasia por medo da morte ou que, devido à hipóxia no cérebro, a pessoa começa a fantasiar. Mas os estudos mostram que esses fenômenos não dependem da crença do indivíduo ou do medo da morte. Há casos bem documentados em que o paciente é capaz de rememorar com detalhes situações que realmente aconteceram durante a parada cardíaca. Um deles foi publicado na The Lancet, principal revista médica do mundo, pelo cardiologista Pim van Lommel – que estudou centenas de paradas cardíacas e investigou a experiência de quase morte. Um homem na Holanda chegou no hospital clinicamente morto: estava cianótico, não respondia a nenhum estímulo e a pupila estava fixa, sinal que nem o tronco cerebral, que é a parte mais profunda do cérebro, funcionava. Começaram a reanimar o paciente, quase desistiram e, depois de meia hora, o ritmo cardíaco voltou, mas ele continuava inconsciente. Foi para a UTI e, uma semana depois, acordou e falou para uma enfermeira que ela sabia onde estava a dentadura dele, pois, quando foram entubá-lo, ela havia retirado a dentadura e colocado em uma gaveta em um carrinho cheio de potes – o carrinho de ressuscitação. Isso realmente aconteceu, e o homem garante que viu tudo porque estava ‘flutuando’ acima da maca e, inclusive, gritou desesperadamente para não pararem o processo de reanimação. Isso é um exemplo, mas tem dezenas de casos documentados de que o indivíduo é capaz de ter consciência quando o cérebro não está funcionando. E esse é um nível de evidência alto, tanto é que pessoas que passam pela parada cardíaca e EQM tendem a acreditar muito mais em vida após a morte depois dessa situação.

 

Isso também acontece no coma?

Pode acontecer, sem dúvida nenhuma. Tem um caso famoso de Eben Alexander, professor de Neurocirurgia da Universidade Harvard, que teve uma meningite gravíssima, ficou em coma e teve experiência de quase morte. Ele escreveu o livro Uma Prova do Céu contando a história, que virou best-seller. A diferença é que, na parada cardíaca, temos certeza de que o cérebro está parado; no coma, não temos como garantir 100%. Mas esse é um tipo de evidência que questiona muito a visão fisicalista da consciência.

 

Também há estudos com aparições?

Sim. Temos relatos no livro e há vários estudos sobre o tema. Tem um caso nos Estados Unidos muito interessante: o pai tinha três filhos e fez um testamento deserdando um deles. Quando morreu em um acidente, foi feita a distribuição como estava no testamento. Depois de um tempo, o filho deserdado começou a ter visões do pai e, em uma delas, o pai disse que ele deveria olhar no bolso de um certo casaco, porque ali havia algo importante. Quando encontraram o casaco havia um bolso costurado com um bilhete pedindo para olharem na bíblia do pai, em determinado capítulo, versículo e livro. A família pegou a bíblia e exatamente onde o pai indicou na visão havia outro testamento em que a herança era distribuída igualmente entre os filhos. O documento foi levado à justiça e o tribunal aceitou como verídico o novo testamento, cuja caligrafia foi reconhecida por uma série de pessoas. Esse é um exemplo de aparição que traz uma informação que ninguém sabia e é compatível com a memória e o caráter daquele pai.

 

Chico Xavier é um dos casos mais emblemáticos de mediunidade?

É um caso que tem sido estudado. Há um mestrado e um doutorado em literatura na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) investigando obras psicografadas do Chico Xavier. O primeiro livro que ele publicou, Parnaso de Além-Túmulo, aos 22 anos – lembrando que tinha estudado até a quarta série primária e trabalhava o dia inteiro –, tem dezenas de poemas atribuídos a dezenas de poetas brasileiros, alguns famosos como Castro Alves e Casemiro de Abreu, e outros não. Um estudo investigou o estilo literário, a característica do poeta em vida e do poema que, supostamente, ‘veio’ através do Chico Xavier. A similaridade é muito significativa. Esse é um exemplo de manutenção do caráter, porque cada poeta psicografado manteve seu caráter e estilo. No doutorado, Alexandre Rocha comparou a escrita de Humberto de Campos em vida e alegadamente ditada para o Chico Xavier e há uma semelhança muito grande de conteúdo de conhecimento e interesse de análise. Outra questão interessante é que as obras psicografadas fazem referências indiretas veladas (intertextualidade) aos textos do poeta vivo, alguns deles que não eram de domínio público – o chamado Diário Secreto que estava no cofre da Academia Brasileira de Letras e só veio a público anos depois da obra psicografada. Os poemas manifestam uma série de características de personalidade, memória e estilo que seria esperado para cada um

dos poetas.

 

Cartas psicografadas também são estudadas cientificamente?

Sim. Orientamos dois pós-doutorados em parceria com a Universidade de São Paulo e publicamos em revistas científicas internacionais algumas cartas que Chico Xavier psicografou alegadamente de pessoas falecidas. O que procuramos investigar nessas cartas é se as informações eram verificáveis e verdadeiras, e qual o meio pelo qual o médium poderia ter tido acesso às informações. Encontramos muitas informações verificáveis e quase sempre verídicas. Há também estudos controlados nos Estados Unidos e na Inglaterra em que médiuns produzem comunicações sobre uma pessoa falecida, mas quem está falando com eles não é alguém que conheça o falecido, de forma que não possa ficar dando informações indiretas – o que chamamos de leitura fria. Depois, os familiares escolhem, entre várias, a comunicação que acreditam ser do parente falecido. Os estudos publicados recentemente mostram que o familiar tem a probabilidade bem acima do acaso de escolher a comunicação correta, o que é mais uma evidência consistente.

 

Casos sugestivos de reencarnação também são relatados no livro?

Sim. Há mais de 2 mil casos estudados nesse sentido no mundo. O principal centro de pesquisas na área é no Departamento de Psiquiatria da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. Os estudos envolvem basicamente crianças que, assim que começam a falar, passam a relatar que teriam vivido outra vida, morado em outra casa, em outra cidade, com outra família. Um exemplo é uma menina no Sri Lanka que, ao ver o Templo de Kelaniya na TV, disse que havia morado perto dali e que fazia incenso das marcas Ambika e Geta Picha até morrer atropelada. A investigação encontrou uma família que faz incenso daquelas marcas morando perto daquele templo. Quando a menina chegou na casa e viu a caixa do incenso, comentou que haviam mudado a capa e que não era aquele o envelope que usavam – e era verdade. A menina descreveu como fazer incenso e, de fato, um dos familiares tinha morrido atropelado por um caminhão. A criança tinha manchas brancas de nascença na região abaixo da costela, e o laudo de necrópsia mostrou que o indivíduo morreu por costelas perfurando o pulmão e o fígado, justamente na região onde a criança tinha as marcas. Há centenas de casos assim, em que memórias, estilo de personalidade, gosto por certos alimentos e até fobias são muito semelhantes às das alegadas personalidades anteriores. E existem dezenas de casos bem documentados de marcas de nascença compatíveis com a lesão traumática que gerou o falecimento.

 

Esse conhecimento pode ajudar a sociedade a repensar comportamentos?

Acho que sim, embora o livro não toque nesse aspecto. Alguns estudos apontam que indivíduos que creem na vida após a morte têm menos sintomas psiquiátricos como depressão e ansiedade, maior rejeição à ideia do suicídio, maior satisfação com a vida e menos desespero no final da vida. Há um estudo muito interessante mostrando que essas pessoas também têm menos crença na visão cínica de mundo, ou seja, de que o mundo não tem sentido, de que o homem é apenas o lobo do homem, e isso está ligado, segundo as pesquisas, com menos transtornos psiquiátricos. Como tudo em ciência, não existem provas definitivas. Entretanto, as evidências são muito robustas apontando que somos também seres transcendentes e o que é fundamental em nós vai além da matéria e sobrevive a ela.