Canabidiol apresenta atividades promissoras
Substância tem sido associada a múltiplas e potenciais propriedades biológicas terapêuticas e neuroprotetora
Há algumas décadas, as propriedades biológicas da Cannabis sativa começaram a ser investigadas como coadjuvante no tratamento de doenças, no entanto, as pesquisas tinham como matéria-prima apenas o extrato da planta obtido diretamente do vegetal e que continha centenas de substâncias que poderiam até ser nocivas, como o tetrahidrocanabinol (THC), que possui propriedades alucinógenas prejudiciais à saúde humana. Com o avanço da tecnologia nos últimos anos, as investigações ficaram mais detalhadas e com material mais apurado, o que favoreceu a aceleração nas pesquisas relacionadas às diferentes atividades biológicas da substância. Principal componente não psicoativo e um dos mais abundantes da Cannabis sativa, o canabidiol tem sido associado a múltiplas e potenciais atividades biológicas terapêuticas, especialmente ansiolítica, antipsicótica, antiinflamatória, analgésica, antioxidante e neuroprotetora. Além dos benefícios já comprovados nas doenças psiquiátricas e nos distúrbios mentais, hoje os cientistas também observam a eficácia do canabidiol ultrapuro com ação antibacteriana e como auxiliar contra o déficit de memória associado à menopausa.
As preparações com base na planta têm sido investigadas pela atividade antibacteriana desde a década de 1950, mas poucos estudos descreveram a eficácia do canabidiol ultrapuro. Com foco nesta lacuna, equipe formada por pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP), Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (FCFUNESP), em Araraquara, e do Hospital Universitário Ramón y Cajal do Instituto Ramón y Cajal de Investigación Sanitaria (IRYCIS) de Madri, na Espanha, desenvolveram o estudo ‘Potential cannabidiol (CBD) repurposing as antibacterial and promising therapy of CBD plus polymyxin B (PB) against PB-resistant gram-negative bacilli’, que investigou a atividade antibacteriana do canabidiol ultrapuro e a atividade antibacteriana da combinação da substância com o antibiótico polimixina B contra bactérias gram-negativas, incluindo bacilos gramnegativos resistentes à medicação que é utilizada nos hospitais para o tratamento de infecções graves.
O canabidiol sozinho mostrou ação contra bactérias gram-positivas como Staphylococcus, Enterococcus e Streptococcus, que podem causar de faringite a endocardite, afetar o aparelho digestório e urinário e provocar escarlatina, febre reumática, pneumonia e meningite, entre outras doenças. Os achados também demonstraram que a combinação do canabidiol ultrapuro com o antibiótico polimixina B teve atividade antibacteriana contra superbactérias como a Klebsiella pneumoniae, extremamente resistente a antibióticos e que pode causar infecções graves em indivíduos hospitalizados, como pneumonia, infecções no sangue e meningite. “De modo surpreendente, os resultados foram promissores contra bactérias que também eram resistentes à polimixina B, ou seja, para aquelas em que o antibiótico sozinho não tem atividade”, enfatiza o biomédico Leonardo Neves de Andrade, professor doutor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e coordenador do estudo, que é uma dissertação de mestrado da farmacêutica Nathália Abichabki.
O trabalho de reposicionamento desse fármaco visa expandir sua funcionalidade e baratear o processo para produzir o canabidiol puro e em grande quantidade, ou até mesmo sintetizar totalmente em laboratório. “Para chegar ao componente utilizado nos estudos, que é extremamente puro, é necessário dispor de alta tecnologia. O uso da Cannabis sativa in natura e de forma ilegal não é indicado e não tem propriedades funcionais, ao contrário, há substâncias que são prejudiciais à saúde”, orienta o professor Leonardo Neves de Andrade. O alerta é reforçado por todos os pesquisadores que utilizam o canabidiol nos estudos, porque a falta de conhecimento e a confusão entre o nome da planta e do componente podem gerar preconceito em relação às investigações científicas ou levar as pessoas a utilizarem algo ilícito que pode comprometer ainda mais a saúde.
Neuroproteção contra a perda de memória na menopausa
Caracterizada pelo fim definitivo da menstruação, a menopausa pode desencadear diversos sintomas que afetam a qualidade de vida e a saúde da mulher porque os ovários param de produzir hormônios, como o estrogênio, que têm papel protetor. Essa mudança hormonal contribui para a perda de memória e aumenta o risco de desenvolvimento de danos neurais. O estudo ‘Cannabidiol reverses memory impairments and activates components of the AKT/GSK3β pathway in an experimental model of estrogen depletion’, desenvolvido no Departamento de Fisiologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mostrou que o canabidiol pode auxiliar na reversão do prejuízo de memória associado à menopausa.
Segundo a professora doutora Nadja Schröder, pesquisadora responsável pelo estudo, esse componente isolado da Cannabis sativa vem sendo testado há cerca de 10 anos por um grupo de pesquisadores brasileiros por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Translacional em Medicina (INCT-TM) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Testamos o canabidiol em um modelo experimental de disfunção cognitiva associada ao acúmulo de ferro, que é uma característica de doenças neurodegenerativas. Como resposta, percebemos a melhora na memória dos animais. Então, resolvemos investir nessa linha para identificar o mecanismo de ação da substância”, detalha.
De 2014 até 2018 foram realizados diferentes estudos que comprovaram a eficácia do canabidiol como neuroprotetor, protegendo contra a morte dos neurônios até mesmo nos modelos com sobrecarga de ferro. Nos anos seguintes, os cientistas começaram a testar em ratas que passaram por ovariectomia e estavam em menopausa cirúrgica devido à retirada dos ovários. As respostas foram consideradas excelentes, pois o canabidiol recuperou a memória dessas ratas – quando comparado com a memória das que passaram pela ovariectomia e que não receberam o canabidiol. Para a pesquisadora, os resultados são animadores porque não existe tratamento para melhorar a memória em doenças degenerativas e na menopausa, o que vai atender às necessidades de parte das mulheres nesse período que, atualmente, contam apenas com a reposição hormonal para melhorar esses efeitos – método ainda considerado controverso porque existem indícios de que pode aumentar o risco de câncer de mama ou ginecológico.
A prevalência do Alzheimer, doença degenerativa que tem como característica a perda da memória, também é maior em mulheres. “Somente antes da menopausa as chances de desenvolvimento da doença em homens e mulheres são iguais, indicando que os hormônios ovarianos, principalmente estrogênios, são neuroprotetores. Mas a menopausa torna a mulher mais suscetível à doença de Alzheimer”, acentua a professora Nadja Schröder. Ainda são necessárias mais pesquisas com a substância para avançar nos estudos na área para que, futuramente, o canabidiol possa ser uma alternativa para doenças neurodegenerativas. Os pesquisadores da UFRGS também procuram entender os efeitos da substância em outros testes relacionados à memória. Uma tese de doutorado, com orientação do grupo, vai investigar a interação do canabidiol com o estrogênio no organismo feminino.