A força que vem dos raios do sol
Essencial para o bom funcionamento do organismo, vitamina D também pode auxiliar o sistema imunológico.
A vitamina D (colecalciferol) é considerada um pré-hormônio esteroide inativo que, após duas hidroxilações, uma no fígado e uma nos rins, torna-se ativo. Suas principais funções são a regulação da homeostase do cálcio e do fósforo e a formação e reabsorção óssea através da interação com as glândulas paratireoides – cuja função é controlar os níveis de cálcio no sangue por meio da produção do hormônio paratireoidiano ou paratormônio –, com o fígado, os rins e intestinos. Além da importância para o metabolismo ósseo, estudos sugerem associações com a modulação do risco de doenças cardiovasculares, autoimunes, síndrome metabólica, obesidade e desenvolvimento muscular. A vitamina D está envolvida, ainda, na homeostase de vários outros processos celulares, tais como a modulação da autoimunidade, a síntese de interleucinas inflamatórias e o controle da pressão arterial.
Ao desempenhar papel fundamental em diversos processos fisiológicos, dentre os quais está o aumento da resposta inata e a regulação do ciclo celular e da apoptose, essa vitamina tem sido alvo de inúmeras investigações demonstrando sua função na interação reguladora do sistema imunológico inato e adaptativo através da presença do receptor VDR em quase todas as células, a exemplo de neutrófilos, macrófagos, células dendríticas e linfócitos ativados T e B, podendo atuar em uma ampla variedade de tecidos corporais. Com inúmeros genes-alvos potenciais, especialistas acreditam que muitas ações biológicas relacionadas à vitamina D ainda não foram sequer descobertas.
A ação no sistema imunológico se traduz em aumento da imunidade inata associada a uma regulação complexa da imunidade adquirida, uma vez que a resposta imune é dependente de replicação celular e da síntese de compostos proteicos ativos – sendo afetada pelo estado nutricional do indivíduo –, o que determina a habilidade metabólica celular e a eficiência com que reage aos estímulos, iniciando e multiplicando o sistema de proteção e autorreparação orgânico. Ao estabelecer esse papel no sistema imunitário, algumas linhas de pesquisa sugerem que a vitamina D pode ter uma função importante na regulação do sistema imunológico e, provavelmente, na prevenção e no controle de câncer de mama, próstata e colorretal, assim como nas doenças autoimunes, a exemplo de artrite reumatoide e esclerose múltipla, e nas doenças metabólicas, como o diabetes mellitus tipo 1 e a hipertensão. “Estudos antigos já associavam a falta de vitamina D aos surtos sazonais de gripe que ocorrem durante os meses de inverno, em que o clima é mais temperado, indicando que quanto menores os níveis séricos mais suscetível o indivíduo estará a infecções virais, especialmente do aparelho respiratório”, afirma a médica endocrinologista Marise Lazaretti Castro, docente e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Endocrinologia e Metabolismo da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp).
A exposição à radiação ultravioleta B (UVB) é a principal fonte desse nutriente para a formação endógena nos tecidos cutâneos. Já a dieta é considerada uma fonte alternativa e menos eficaz, responsável por apenas 10% a 20% das necessidades corporais, mas que assume um papel de maior importância quando associada à suplementação, por exemplo, em idosos, pessoas institucionalizadas e habitantes de climas mais temperados. O organismo sintetiza vitamina D por meio de dois precursores: o colecalciferol (D3), através da exposição ao sol, e o ergocalciferol (D2), a partir da irradiação por raios UV da levedura ergosterol em fungos e cogumelos expostos à luz – forma utilizada em suplementos de alta dose. “Ambos são inativos no organismo, portanto, precisam ser metabolizados pelo fígado e pelos rins em uma forma chamada vitamina D ativa ou calcitriol (1,25(OH)2D3) que promove, em conjunto com o paratormônio – hormônio responsável por regular os níveis de alguns nutrientes circulantes no sangue –, a absorção de cálcio e fósforo a partir do intestino delgado, sendo incorporados aos ossos no processo de mineralização. Dessa forma, o calcitriol é necessário para a formação, o crescimento e a reparação dos ossos”, explica a professora doutora Eline de Almeida Soriano, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e médica nutróloga do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA-UFAL).
De 80% a 90% da fonte de vitamina D é produzida pelo corpo através da sintetização dos raios UVB. “Para gerar a quantidade ideal, nosso corpo precisa de pelo menos 15 a 20 minutos de exposição ao sol, no mínimo três vezes por semana. Entretanto, alguns fatores podem diminuir a absorção natural, a exemplo do peso (especificamente para indivíduos com sobrepeso ou obesos), pois, como a vitamina D3 é lipossolúvel, o corpo precisa de mais tempo para garantir que o processo de produção se complete”, descreve a nutróloga Eline de Almeida Soriano. Outros fatores são os elementos climáticos e geográficos, como locais com menor incidência de luz solar ao longo do ano, poluição atmosférica, hábitos culturais que proíbem exposição do corpo, uso de filtro solar e pigmentação da pele, uma vez que a melanina atua como uma barreira mecânica para os raios UV.
A biodisponibilidade e o consumo alimentar de vitamina D são extremamente baixos, respondendo por cerca de 5% a 20% da necessidade mínima diária para a população adulta (em torno de 100 UI dia). Segundo a nutróloga, os alimentos que oferecem aporte de vitamina D são bife de fígado, óleo de fígado de bacalhau, gema de ovo, atum, sardinha, salmão, cogumelos, queijo e leite – neste caso, desde que sejam enriquecidos com essa vitamina como ocorre em vários países, entre os quais a Finlândia.
Auxiliar
Manter os níveis séricos adequados de vitamina D é fundamental para a manutenção da saúde, e a sua deficiência está associada, principalmente, a anormalidades no balanço de cálcio, fósforo e metabolismo ósseo. A endocrinologista Marise Lazaretti Castro ressalta que, para quantificar os índices, deve ser dosada a concentração de 25(OH)D, que representa sua forma circulante em maior quantidade. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) indica, como valores de referência desejáveis, índices maiores do que 30 ng/ml para população geral saudável; e entre 30 e 60 ng/ml para grupos de risco como idosos, gestantes e doentes crônicos. “Índice menor do que 10 ng/ml é considerado muito baixo e acima de 100 ng/ml é considerado tóxico”, acentua. Entretanto, mais estudos são necessários para determinar os riscos e benefícios da reposição dessa vitamina, quando e em quais indivíduos, valores de referência para considerar a deficiência/insuficiência, ações clínicas a serem tomadas e o real impacto dessa associação na prática clínica.
Suplementação na medida certa
Segundo os consensos norte-americano e brasileiro, não se indica suplementação de vitamina D de forma generalizada. A indicação deve ser apenas para indivíduos de maior risco, com insuficiência ou deficiência comprovada. O Posicionamento Atual sobre Vitamina D na Prática Clínica da ABRAN indica idosos, principalmente institucionalizados (leia mais na página 7); pacientes com osteomalácia, raquitismo, osteoporose ou hiperparatireoidismo secundário; pessoas de pele escura; obesos; doentes renais, hepáticos e autoimunes; atletas de alto desempenho; gestantes e lactantes; mulheres com endometriose, ovário policístico ou no período pós-menopausa; pessoas que fazem uso de vestimentas que expõem pouco a pele; pacientes bariátricos e aqueles que fazem uso contínuo de corticoides, antifúngicos e anticonvulsivantes como os mais predispostos a apresentarem deficiência de vitamina D (hipovitaminose D).
A suplementação deve ser feita com orientação médica. “As recomendações de necessidades diárias variam de acordo com a população. Em recém-nascidos e menores de 1 ano é de 400 a 1.000 UI; crianças e adolescentes de 1 a 18 anos, de 600 a 1.000 UI; homens/mulheres de 19-70 anos, de 1.500 a 2.000 UI; idosos acima de 70 anos, gestantes e lactantes entre 1.500 e 2.000 UI”, ensina a médica nutróloga Eline de Almeida Soriano. As dosagens determinadas no tratamento podem ser alteradas de acordo com o diagnóstico estabelecido e a severidade da deficiência. Obesos, pré-bariátricos e pacientes em uso de anticonvulsivantes orais e com síndromes de má absorção, por exemplo, podem necessitar de doses duas a três vezes maiores – chamadas de ‘dose-ataque’ –, em período determinado pelo médico. Paralelamente, a complementação pela dieta em conjunto com a exposição solar deve ser estimulada pelo profissional de saúde.
Especialistas são unânimes ao enfatizar que, se a deficiência de vitamina D está associada a uma série de problemas no organismo, as superdosagens também podem ocasionar sérios riscos. A médica Marise Lazaretti Castro lembra que os suplementos são considerados seguros e a toxicidade é incomum, mas, quando a dosagem é acima de 100 ng/ml, pode levar à hipervitaminose (elevada concentração de vitamina D). “Doses acima do necessário aumentam o risco de toxicidade e, principalmente, de hipercalcemia. O problema, causado pela intoxicação por vitamina D, pode levar a insuficiência renal aguda, paralisação dos rins, coma e morte. A apresentação da toxicidade varia de assintomática a manifestações como hipercalciúria (perda de cálcio pela urina), polidipsia (sede excessiva), anorexia, letargia, náuseas, vômitos, dores articulares, desorientação, perda de peso e dor abdominal”, alerta. A superdosagem ou intoxicação por vitamina D era pouco frequente no Brasil até seu crescente uso na última década, em especial com o advento da Covid-19 – em que a suplementação foi apontada como fator preventivo. Para a médica, a ingestão de suplementos é importante para a manutenção da saúde, desde que sejam recomendados por um especialista e na dosagem adequada.
Riscos associados ao envelhecimento
Por afetar a saúde esquelética durante todas as fases da vida, em decorrência de suas funções fisiológicas relacionadas à manutenção da homeostase do cálcio e da estrutura óssea, a deficiência da vitamina D na vida adulta – especificamente nos idosos – é responsável por reduzir a mineralização e/ou a densidade mineral óssea. Como consequência, pode causar de fraqueza muscular e desequilíbrio postural e dinâmico até quadros mais severos de osteomalácia, osteopenia e osteoporose. Além disso, aumenta consideravelmente o risco de quedas e fraturas comumente observado nesse grupo, com prevalência superior a 40% nos indivíduos acima de 80 anos, reduzindo a capacidade funcional e sendo causa importante de mortalidade. Com papel fundamental na via metabólica do cálcio, a suplementação com vitamina D é importante aliada na prevenção e manutenção da saúde óssea, especialmente nessa população.
O déficit de vitamina D entre idosos é maior nos institucionalizados por uma série de fatores. “Há uma diminuição da produção cutânea de vitamina D após exposição à radiação UVB devido a alterações atróficas da pele próprias do envelhecimento, e evidências de que a capacidade de síntese cutânea de vitamina D reduz ao redor de duas vezes entre idosos em comparação com adultos. Outro fator é a baixa exposição solar e, ainda, utilização de vestuário que cobre mais a pele. Doenças que provocam má absorção de alimentos e dieta menos variada nutricionalmente, com baixa ingestão de produtos fonte de vitamina D e cálcio, apesar de menor impacto, também exercem influência para a deficiência”, avalia a médica Regina Maria Innocencio Ruscalleda, docente do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (FCM-Unicamp).
Entre as doenças mais associadas à hipovitaminose D entre os idosos estão osteopenia, osteoporose e, com menor frequência, osteomalácia. A professora explica que quando os níveis de 25(OH)D são inferiores a 10 ng/ml e se mantêm abaixo do recomendado por longos períodos, podem ocorrer três condições que comprometem a capacidade funcional, especificamente de locomoção: osteopenia, caracterizada pela diminuição gradual da massa óssea; osteoporose, prevalente em especial em uma percentagem de mulheres na peri e pós-menopausa, em que a reabsorção óssea é exacerbada e há predomínio de perda óssea trabecular na coluna vertebral – por ser multifatorial, pode ocorrer também entre idosos –; e osteomalácia, caracterizada por ossos frágeis e quebradiços e fraqueza muscular. “Nos três casos, a fragilidade dos ossos aumenta o risco de fraturas”, alerta.
Clinicamente, a deficiência de 25(OH)D associa-se a dor muscular difusa, fraqueza muscular e redução da rapidez dos movimentos decorrentes de sarcopenia, e há evidências de que níveis séricos de 25(OH)D igual ou acima de 30 ng/ml se associam a menores riscos de fratura. Por se tratar de grupo de risco, a suplementação protege a saúde óssea e muscular dos idosos e também o sistema imunológico, a energia para o cotidiano e a performance cognitiva. Dosagem e periodicidade da suplementação são definidas por um profissional de saúde, que deve levar em consideração fatores como peso corporal, estado de saúde, dieta, local de residência e hábitos de vida.
Pesquisas sugerem influência da vitamina D com a saúde cardiovascular
Ao longo dos últimos anos, inúmeras pesquisas têm associado níveis séricos inadequados de vitamina D com outras enfermidades, a exemplo das doenças cardiovasculares, com uma influência direta sobre o prognóstico. Ainda que faltem dados consistentes para indicar a reposição da vitamina D no contexto dessas enfermidades, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) publicaram o artigo de revisão ‘Deficiência da vitamina D e doenças cardiovasculares’, que apresenta um panorama a respeito da deficiência vitamínica buscando prevenir doenças e melhorar o prognóstico das já estabelecidas. Entre as enfermidades analisadas, a relação da deficiência de vitamina D com a hipertensão arterial tem sua base no sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). “A renina é sintetizada pelas células justaglomerulares renais e estimula a produção de angiotensina II e aldosterona, que aumentam a pressão arterial diretamente por vasoconstrição e indiretamente por retenção hidrossalina. Ao que tudo indica, a vitamina D atua inibindo a expressão gênica da renina, diminuindo sua síntese e, com isso, impedindo a hiperestimulação desse sistema”, descreve o médico cardiologista Antonio José Lagoeiro Jorge, professor do curso de Pós-graduação em Ciências Cardiovasculares da Faculdade de Medicina da UFF e um dos autores da pesquisa.
No diabetes mellitus, a vitamina D pode aumentar a sensibilidade à insulina através da regulação do metabolismo de ácidos graxos nos músculos esqueléticos e no tecido adiposo. Além disso, pode atuar por vias indiretas na secreção e na sensibilidade da insulina por meio da regulação da concentração e do fluxo de cálcio nas membranas das células beta e nos tecidos periféricos. “Estudos observacionais evidenciaram que a incidência e a prevalência de diabetes tipo 1 são mais elevadas nos países temperados. Outros avaliaram o papel protetor da suplementação na infância precoce contra o desenvolvimento de diabetes tipo 1, atribuindo menor incidência nas crianças que fizeram suplementação da vitamina D”, relata o pesquisador. Na insuficiência cardíaca, apesar de evidências demonstrando associação com a vitamina D, o mecanismo exato pelo qual a deficiência leva a piores desfechos clínicos ainda não está claramente estabelecido. No entanto, um mecanismo potencial poderia ser através da síndrome cardiorrenal.
Evidências apontam, ainda, que a deficiência de vitamina D está associada a outros componentes da síndrome metabólica, como obesidade, e do tabagismo que, aliados ao sedentarismo e à alimentação inadequada, levam à maior deficiência dessa vitamina quando comparados a indivíduos saudáveis. “Os níveis séricos adequados de vitamina D são importantes para o funcionamento do organismo. Entretanto, isso não significa que a suplementação prevenirá ou reduzirá os riscos de desenvolver doenças cardiovasculares, assim como a morbimortalidade a elas associadas”, alerta o pesquisador. Por mais que a função benéfica dessa vitamina já seja conhecida pela comunidade científica, ainda existem muitas lacunas a serem preenchidas acerca de sua utilização, demandando novos estudos para, assim, ter uma correlação direta entre a suplementação vitamínica e o desfecho cardiovascular.
Síndrome metabólica pós-menopausa
A síndrome metabólica inclui obesidade abdominal, dislipidemia, aterosclerose, hipertensão arterial e alterações na glicemia. Impulsionada principalmente por alimentação pouco equilibrada, estresse e sedentarismo, acomete cerca de 30% das mulheres no mundo com mais de 50 anos e no período pós-menopausa, com risco três vezes maior de morbimortalidade por doença cardiovascular. Evidências da literatura, como o estudo ‘Associação entre a deficiência de vitamina D e os marcadores da síndrome metabólica em mulheres na pós-menopausa’, realizado na Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (FMB-UNESP), sugerem que a deficiência de vitamina D seja fator de risco no desenvolvimento do problema.
Comum após a menopausa, a hipovitaminose D ocorre pelo próprio processo de envelhecimento, levando a uma menor capacidade de síntese através da pele – seja devido a diminuição da função renal, menor absorção pelo trato gastrointestinal, menor exposição solar, uso de medicamentos ou metabolização da vitamina e de fatores que diminuem sua produção pela pele, como o uso frequente de filtro solar. “Além disso, a queda hormonal da menopausa acelera a perda de massa óssea, levando as mulheres a sofrerem grande morbidade relacionada a osteoporose e fraturas, que podem ser diminuídas por intervenções como a suplementação da vitamina em casos de deficiência”, descreve a ginecologista e obstetra Eneida Boteon Schmitt, docente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMB-UNESP e autora do estudo. Com a menopausa, aumenta também a incidência de doença cardiovascular em decorrência dos riscos associados à síndrome metabólica, uma vez que nesta fase as mulheres tendem a ter aumento no índice de massa corpórea, circunferência abdominal e gordura visceral.
A pesquisa investigou a associação entre síndrome metabólica e seus fatores de risco para entender o impacto da hipovitaminose D nas mulheres pós-menopausadas. Para isso, foram analisadas 466 mulheres saudáveis atendidas no Ambulatório de Climatério & Menopausa da Instituição, com mais de 45 anos – excluindo pacientes com doenças cardiovasculares, renais, hepáticas, diabéticas em uso de insulina ou que já estivessem usando suplementos com vitamina D. Inicialmente, foi feita avaliação antropométrica, seguida da coleta do sangue para dosagem de colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum e vitamina D. O estudo considerou como adequados os níveis de vitamina D maiores de 30 ng/ml, descritos pela SBEM como valores de referência ideal para esse grupo.
“Os resultados apontaram que mulheres na pós-menopausa com hipovitaminose D – 318 delas – apresentaram maiores valores de colesterol total, triglicerídeos, resistência à insulina e, consequentemente, maior risco para ocorrência de síndrome metabólica quando comparadas às de níveis adequados de vitamina D”, descreve a autora. Além disso, as concentrações da vitamina foram diminuindo linearmente de acordo com o aumento dos componentes da síndrome metabólica. Para corroborar os achados, um ensaio clínico randomizado posterior avaliou dois grupos de mulheres na pós-menopausa – o controle recebeu vitamina D diariamente por nove meses e o outro recebeu placebo pelo mesmo período. Os resultados confirmaram que mulheres na pós-menopausa submetidas à suplementação apresentaram menor risco de síndrome metabólica, hipertrigliceridemia e hiperglicemia quando comparadas ao grupo placebo, reiterando a importância de manter adequados os índices da vitamina D no organismo.
Câncer de mama
Em 2018, o grupo da professora Eneida Boteon Schmitt publicou um estudo de coorte transversal que comparou 209 mulheres de 45 a 75 anos com a neoplasia frente a 418 no grupo controle, atendidas no Hospital das Clínicas da FMB-UNESP. “As mulheres na pós-menopausa com diagnóstico recente de câncer de mama apresentavam maior risco para hipovitaminose D, associado à maior ocorrência de obesidade, quando comparadas a outras na mesma faixa etária sem câncer”, resume. A avaliação sérica de 25(OH)D foi realizada logo após o diagnóstico do câncer, antes do tratamento indicado pela equipe médica responsável.
Desenvolvimento muscular de bebês pode ser prejudicado
O metabolismo do cálcio aumenta consideravelmente no período da gestação, especificamente no terceiro trimestre devido ao desenvolvimento dos ossos fetais. E estudos sugerem que a deficiência de vitamina D nas gestantes está relacionada ao surgimento de complicações, como risco de aborto espontâneo, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, baixo peso do bebê ao nascer e baixo ganho de peso do recémnascido. Além disso, essa carência parece influenciar o desenvolvimento de uma série de doenças na vida adulta, incluindo diabetes e obesidade. Recentemente, uma pesquisa realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) mostrou que a vitamina D também é fundamental para o crescimento e o desenvolvimento dos músculos ao longo da vida.
Tendo como ponto de partida o conceito de que doenças em pacientes adultos podem ter origem no período fetal, dada a influência do estado nutricional da mãe para o filho, a tese de doutorado ‘Maternal vitamin D deficiency affects the morphology and function of glycolytic muscle in adult offspring rats’, da biomédica Natany Garcia Reis, publicada no periódico Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle, analisou dois grupos de ratas fêmeas – um controle e outro alimentado com uma dieta sem vitamina D durante seis semanas – e, sequencialmente, durante todo o período de gestação e lactação.
“Para o estudo, utilizamos um modelo de programação fetal, ou seja, uma alteração induzida na vida intrauterina que resulta em uma resposta permanente no feto, associando processos adaptativos às condições ambientais e conduzindo a um aumento da sensibilidade a doenças na vida adulta”, descreve o médico fisiologista Luiz Carlos Carvalho Navegantes, professor associado do Departamento de Fisiologia e coordenador adjunto do Programa de Pós-graduação em Fisiologia da FMRP-USP, que orientou o estudo. A teoria da programação fetal tem auxiliado pesquisadores a entenderem a origem de determinadas doenças, como síndrome metabólica e hipertensão, entre outras.
Durante o estudo, a prole de ratas que recebeu dieta sem vitamina D foi analisada em dois períodos: o primeiro logo após a lactação, com 21 dias, e outro com 180 dias, já adultas. “Observamos que, ao final da lactação, esses animais apresentaram uma importante atrofia muscular muito mais significativa nas fibras musculares do tipo 2 (músculo branco) do que nas fibras vermelhas”, descreve o médico. Entretanto, o que chamou mais atenção é que as fêmeas – por razões ainda desconhecidas – não apresentavam alterações morfológicas e bioquímicas no tecido musculoesquelético, afetando seletivamente apenas os machos. Por se tratar de um animal ainda no período infantil, o professor descarta que a proteção esteja ligada ao hormônio estrogênio, e o mais provável é que seja algo que, nas fêmeas, já venha direcionado desde a placenta. De acordo com a literatura, há proteínas e expressões gênicas distintas para fetos femininos e masculinos, possivelmente com maior sensibilidade à insulina.
Após o desmame, os filhotes machos e fêmeas foram separados e receberam dieta padrão contendo concentrações normais de vitamina D até os 180 dias de idade. Neste período, o músculo branco que estava atrofiado na vida infantil do macho ficou hipertrofiado e com uma função muito melhor do que a prole observada na dieta controle, que não apresentou alterações musculoesqueléticas em nenhuma fase. “Isso foi impressionante, pois mostra uma característica fundamental da capacidade plástica do músculo de se adaptar frente às mudanças e alterações da sua forma, ou seja, o músculo branco ativou seu sistema de proteção endógena de vitamina D aumentando sua produção interna”, avalia o professor. Em contrapartida, nessa fase os músculos vermelhos dos machos apresentaram grande prejuízo da força muscular, mas sem alterações morfológicas aparentes e, ao que parece, não conseguindo se recuperar dos insultos da vida intrauterina. Nas fêmeas não foram observadas tais alterações.
Com os achados do modelo de programação fetal, os pesquisadores do grupo liderado pelo docente e pela fisiologista Isis do Carmo Kettelhut, professora titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da FMRP-USP, têm avançado nas pesquisas em outras frentes de trabalho. “Atualmente, temos estudos voltados para desvendar os motivos de a prole fêmea ter sido protegida das alterações induzidas pela deficiência materna, o que parece estar relacionado à placenta ou a uma maior sensibilidade à insulina”, comenta o professor Luiz Carlos Carvalho Navegantes.
Paralelamente, outras frentes avaliam os efeitos da deficiência de vitamina D no coração, pâncreas e tecido adiposo dos fetos. Em 2022, outro estudo do grupo intitulado ‘Urocortin 2 promotes hypertrophy and enhances skeletal muscle function through cAMP and insulin/IGF-1 signaling pathways’, publicado no Molecular Metabolism, demonstrou pela primeira vez que estimular a expressão de uma proteína naturalmente produzida no músculo pode ser uma estratégia para aumentar a massa muscular. A atrofia muscular é uma consequência natural do processo de envelhecimento e pode ser intensificada em casos de doenças neurodegenerativas, inflamatórias ou em pacientes internados por longos períodos em unidades de terapia intensiva. No entanto, ainda não há medicamentos eficientes capazes de combatê-la e, assim, evitar as complicações associadas