Propriedades benéficas da própolis

Estudos com as espécies vermelha e verde mostram que o produto natural pode colaborar em diferentes aspectos

Com propriedades biológicas e atividade anti-inflamatória, antioxidante, imunomoduladora, antiviral, antifúngica, antiparasitária, antimicrobiana e cicatrizante, a própolis é utilizada desde civilizações antigas – assim como outros produtos derivados da abelha –, por proporcionar benefícios valiosos para a saúde humana. Formada pela resina que as abelhas coletam de brotos, botões florais e galhos, e enriquecida com cera, óleos e secreções salivares até atingir a composição final, a própolis é utilizada nas colmeias como barreira protetora contra insetos e ações de microrganismos, como fungos e bactérias. O Brasil tem grande quantidade de própolis e, com a variedade de flora e espécies disponíveis, possui diferentes tipos com composição química variável de acordo com a origem geográfica. Dois estudos recentes mostram que as própolis vermelha e verde podem ser grandes aliadas da Medicina, proporcionando respostas positivas em pesquisas relacionadas às células cancerígenas, ação neuroprotetora e cardioprotetora, e como anti-helmínticos. 

A doutora em Biologia Celular e Estrutural da Universidade Estadual de Campinas (CPQBA-Unicamp), Thais Petrochelli Banzato, explica que mais de 300 compostos já foram relatados nas própolis, e cada tipo tem uma informação em razão de as própolis serem feitas a partir de plantas nativas de cada região. “Estamos realizando pesquisas com a própolis vermelha encontrada em Alagoas e produzida por abelhas da espécie Apis mellifera, que utilizam uma resina avermelhada presente nos caules da árvore Dalbergia ecastaphyllum, popularmente conhecida como rabo-de-bugio. O Brasil é o maior produtor mundial desse tipo de própolis”, detalha. A própolis vermelha tem composição química única e, diferentemente das demais – que contêm apenas flavonoides – também contém isoflavonoides, o que a diferencia de outros tipos de própolis e sugere novas potencialidades biológicas para este produto natural.

O estudo ‘Antiproliferative flavanoid dimers isolated from Brazilian red propolis’, publicado na revista científica Journal of Natural Products, identificou oito substâncias inéditas da própolis vermelha, sendo que duas foram capazes de inibir o crescimento de células de câncer de mama, próstata, cérebro (glioma) e ovário, levando 50% delas à morte em testes iniciais realizados em laboratório. O resultado foi alcançado após comparar, nos testes in vitro, o desempenho das duas substâncias com a doxorrubicina, quimioterápico utilizado no tratamento do câncer. Os pesquisadores continuam avaliando tanto a forma bruta quanto isolada in vitro e in vivo da própolis vermelha, com resultados promissores. 

Segundo a pesquisadora Thais Petrochelli Banzato, os resultados preliminares indicam que a própolis tem atividade anti-inflamatória e anticancerígena em animais de laboratório, e também se mostrou promissora em animais com câncer de próstata. “Para crescer, o câncer precisa encontrar um ambiente no qual consiga se proliferar e a própolis possui potencial uso em terapias combinatórias para a modulação de processos inflamatórios agudos ou crônicos e, potencialmente, na prevenção de câncer”, sinaliza. Outra questão importante é tratar a própolis como uma espécie vegetal para que seja conservada, pois, nos últimos anos, a pesquisa com a própolis vermelha começou a crescer no mundo todo e está sendo exportada, diminuindo as chances de estudos dentro do País.

Esquistossomose

Causada pelo Schistosoma mansoni, a esquistossomose – também chamada no Brasil de barriga d’água ou doença do caramujo – é a principal enfermidade parasitária provocada por helmintos e estima-se que, por ano, cerca de 250 milhões de pessoas sejam infectadas em todo o mundo. De grande importância em termos de saúde pública, a esquistossomose se enquadra no grupo de doenças negligenciadas. Em todo o planeta, existe um único medicamento para o tratamento – desenvolvido há cerca de 40 anos – que, embora efetivo, possui limitações por não combater a infecção precoce causada pelos vermes jovens. Por isso, é necessário que o paciente espere o ciclo de crescimento do parasita até o estágio adulto e de infecção crônica para começar o tratamento. Outro ponto negativo dessa medicação é a resistência que alguns vermes podem adquirir após sucessivos tratamentos.

O estudo ‘Brazilian red propolis exhibits antiparasitic properties in vitro and reduces worm burden and egg production in an mouse model harboring either early or chronic Schistosoma mansoni infection’, desenvolvido na Universidade Guarulhos, em São Paulo, demonstrou que a própolis vermelha brasileira é melhor que o único remédio utilizado mundialmente em vermes jovens. O professor doutor Josué de Moraes, pesquisador chefe do Núcleo de Pesquisa em Doenças Negligenciadas da Universidade Guarulhos e autor do artigo publicado no Journal of Ethnopharmacology, afirma que a própolis teve grande efetividade na eliminação de vermes jovens (60%), no entanto, foi menos eficaz nos vermes adultos. “Mesmo sendo menos efetiva que o fármaco de referência, o uso da própolis vermelha em conjunto com o medicamento seria importante, uma vez que cada um age melhor em fases diferentes do verme. Outra vantagem é que, no estudo, a própolis foi administrada oralmente em dose única, o que facilita o uso, principalmente por aquelas pessoas que não costumam dar continuidade ao tratamento”, enfatiza.

Própolis verde tem ação cardioprotetora e neuroprotetora

Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Neurociência do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) identificou os efeitos do consumo da própolis verde brasileira nos parâmetros cardiovasculares. Publicado na revista científica Nutrients, o estudo ‘Propolis as a potential disease-modifying strategy in Parkinson’s disease: cardioprotective and neuroprotective effects in the 6-OHDA rat model’ mostra que a própolis verde minimizou a redução da frequência cardíaca e da variabilidade da frequência cardíaca associadas à doença de Parkinson, sugerindo um papel cardioprotetor.

“A própolis verde também atenuou a perda neuronal na região do cérebro chamada substância negra e reduziu a degeneração da fibra estriatal, comprovando que a própolis confere cardioproteção e neuroproteção. São dados que mostram que a própolis pode trazer importante contribuição no controle de males causados pela doença de Parkinson”, afirma a pesquisadora Carla Alessandra Scorza, professora doutora da disciplina de Neurociência do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da EPM-Unifesp. A descoberta poderá auxiliar no atual cenário de envelhecimento da população mundial, que hoje é composta por 8,5% de idosos, mas, em 2050, será de aproximadamente 17%. 

O envelhecimento é o maior fator de risco para o desenvolvimento de enfermidades neurodegenerativas, como a doença de Parkinson. A pesquisadora Valeria Gonçalves, doutoranda na disciplina de Neurociência da EPM-Unifesp, deu continuidade aos estudos e os primeiros achados sugerem o potencial da própolis verde na terapia adjuntiva para a enfermidade, pois eventos bioquímicos como estresse oxidativo e alterações neurológicas podem sofrer influências nutricionais de alimentos funcionais como a própolis.