Leitura para melhorar a saúde mental

Pesquisas mostram que ler um bom livro traz relaxamento, ajuda na memória e envolve redes neurais

Os benefícios do hábito da leitura vão muito além de aprender, aumentar o vocabulário, melhorar a escrita, conhecer a história e se informar. Quando se trata de um livro com narrativa que permite ao leitor a transferência do pensamento para o mundo literário, distraindo dos estressores diários e desligando de problemas, angústias e solidão, a leitura é capaz de proporcionar alívio das tensões emocionais e melhorar o bem-estar psicológico e a saúde mental. Testada em relação a outros momentos favoritos de relaxamento em pesquisa conduzida por cientistas da Mindlab International, com sede na Universidade de Sussex, na Inglaterra, a leitura provou ser 68% melhor na redução dos níveis de estresse do que ouvir música, 100% mais eficaz do que beber uma xícara de chá, 300% melhor do que dar um passeio e 700% mais calmante do que jogar videogame.

As palavras na página impressa estimulam a criatividade e fazem com que leitor entre no que é essencialmente um estado alterado de consciência. Quanto maior o domínio que o autor exerce sobre os pensamentos do leitor, mais poderosas são as imagens mentais que permitem a criação da cena e dos personagens, levando à ausência temporária do mundo real. Como resultado, há uma redução rápida e profunda nas tensões mentais e físicas na medida em que a frequência cardíaca diminui, os músculos relaxam e as preocupações são esquecidas. “Perder-se em um livro é uma grande maneira de relaxar”, enfatiza o neuropsicólogo David Lewis, um dos principais especialistas em estresse do Reino Unido e autor do livro One Minute Stress Management.

O estudo da Rush University Medical Center de Chicago, nos Estados Unidos, publicado na revista Neurology, mostra que, quando vivenciada da infância até a velhice, a leitura – juntamente com outras atividades mentalmente estimulantes – pode ajudar a manter intactas as habilidades de memória e pensamento. A estimulação mental está associada com o declínio cognitivo 14% mais lento no final da vida. A pesquisa apoia a chamada ‘hipótese de reserva cognitiva da função mental’, que sugere que as tarefas mentalmente desafiadoras ajudam a manter e construir células cerebrais e conexões entre as mesmas. Essas conexões seriam auxiliares para compensar os danos ao cérebro e preservar a memória e as habilidades de pensamento.

A leitura pode estimular de habilidades e conhecimentos fundamentais até aprendizagens que extrapolam para outros domínios, como o desenvolvimento de raciocínio e pensamento científico. O professor doutor associado de Psicologia na University of Connecticut, nos Estados Unidos, Augusto Buchweitz, pesquisador do Laboratório Haskins Global Literacy Hub e do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul, ressalta que o desenvolvimento de habilidades escritas não tem uma rede natural de áreas cerebrais próprias, porque a leitura é uma invenção cultural do ser humano e depende de aprendizagem e integração entre redes neurais da linguagem oral, visual e motora. “Quando se aprende a ler e escrever, essas redes neurais da leitura e da escrita ‘pegam carona’ nos circuitos neurais da linguagem oral. Na medida em que a leitura é mais complexa, mais o cérebro fica envolvido. A leitura de narrativas com personagens que estão sentindo emoções, como raiva e alegria, ativa essas mesmas regiões no cérebro do leitor, que passa a ter os mesmos sentimentos”, detalha. Segundo a Teoria da Mente, a leitura ativa diferentes regiões do cérebro que têm relação com a atenção e cognição social.

Biblioterapia 

De origem grega, a palavra biblioterapia foi cunhada em 1916 e consiste em um recurso de cuidado com o ser humano e a promoção de bem-estar, saúde e qualidade de vida por meio da literatura. Segundo Carla Souza, professora do curso de especialização em Biblioterapia e Mediação de Leitura Literária da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), em Santa Catarina, e autora do livro Biblioterapia & Mediação Afetuosa da Literatura, a leitura tem poder transformador e, por meio das histórias, é possível cuidar das pessoas. “Os benefícios são muitos. A literatura e a interação com outros indivíduos, na prática da biblioterapia em grupo, gera sensação de leveza e é importante a conexão que se dá por meio dos participantes e o texto literário. Além disso, proporciona equilíbrio que leva ao bem-estar, à saúde e qualidade de vida”, pontua. Textos com linguagem metafórica e simbólica, como contos, crônicas, poesias e romances, são os que mais se encaixam na prática. 

Menos dor e estresse para crianças hospitalizadas

O estudo ‘Contar histórias aumenta ocitocina e emoções positivas e diminui cortisol e dor em crianças hospitalizadas’, de autoria do professor doutor Guilherme Brockington, do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC (UFABC) – em parceria com o médico Jorge Moll, neurocientista e diretor presidente do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino IDOR –, fornece evidências das alterações de biomarcadores e efeitos benéficos do ato de contar histórias para crianças hospitalizadas em unidades de terapias intensivas, com redução de dor e estresse. A pesquisa desenvolvida por nove meses, entre 2018 e 2019, envolveu 81 crianças de 4 a 11 anos internadas em um hospital na capital paulista, divididas em dois grupos: um recebia 30 minutos de contação de histórias e outro (controle) tinha 30 minutos de interação com jogos de adivinhação. Imediatamente antes e depois das intervenções, as crianças colocavam um pedacinho de algodão na boca para coletar saliva para análise de cortisona e ocitocina, e respondiam a uma escala de dor para combinar fatores biológicos e psicológicos. 

“Nos dois grupos houve aumento de ocitocina e redução do cortisol e da percepção subjetiva da dor. Mas, no da contação, o nível de ocitocina aumentou duas vezes mais, e o estresse e a escala da dor tiveram queda duas vezes maior”, destaca o professor. Ao final das intervenções, todas as crianças realizaram uma tarefa de associação livre de palavras ao verem sete cartas com ilustrações de elementos do contexto hospitalar – enfermeira, médica, hospital, remédio, doente, dor e livro – e as participantes do grupo da contação reportaram mais emoções positivas para os elementos centrais desse ambiente. A pesquisa recebeu apoio de contadores especializados da Associação Viva e Deixe Viver, mas os autores afirmam que a atividade pode ser praticada de forma igualmente benéfica por pais e educadores, dando espaço para as crianças participarem da escolha e da interação com a história. A atividade possibilita, ainda, estreitar laços entre a criança, o narrador e as pessoas presentes na prática.