Procrastinação pode virar um vício
Comportamento costuma envolver elementos de caráter biológico e ambiental
A principal característica do indivíduo procrastinador é postergar uma ou mais tarefas, especialmente aquelas que exigem maior comprometimento, como decisões complexas e atividades que não geram prazer ou não trazem benefícios imediatos. Em geral, esse é um comportamento racional para evitar ao máximo a responsabilidade, a pressão e o peso emocional que algumas situações, trabalhos e compromissos provocam, especialmente quando estão relacionados ao medo, à insegurança, ansiedade, falta de confiança e às incertezas sobre o que precisa ser feito. Hábito adquirido ao longo da vida, em geral a procrastinação é considerada uma atitude normal, mas pode se tornar um ‘vício’ quando passa a ser frequente. Apesar de não ser uma doença, a dificuldade de manter o foco e de filtrar as distrações – próprias do procrastinador –, pode ser indício de outros gatilhos que despertam esse comportamento e que, portanto, merecem atenção.
Todo indivíduo, em algum momento, vai procrastinar. O motivo para essa atitude pode ser simplesmente um comportamento natural com foco em priorizar tarefas, entretanto, torna-se prejudicial quando o ato de adiar passa a ser um padrão persistente e repetitivo. “A procrastinação descontrolada adia mais que tarefas e compromissos, pois pode fazer com que o indivíduo prorrogue ou até deixe de realizar atividades e vivenciar experiências relacionadas a aspectos importantes da própria vida”, afirma o médico psiquiatra Amilton dos Santos Júnior, docente do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Ao deixar tudo para a última hora, seja na vida pessoal, acadêmica ou profissional, o procrastinador compromete a qualidade de suas atribuições e passa a gerar angústia e sofrimento, pois não consegue parar de pensar nas tarefas que deveria estar executando naquele momento.
Para o médico psiquiatra Rogério Panizzutti, professor associado do Instituto de Psiquiatria (IPUB) e diretor do Laboratório de Neurociência e Aprimoramento Cerebral da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LabNACE-UFRJ), a procrastinação não é sinônimo de preguiça ou de problemas na gestão de tempo, mas uma tentativa de evitar um mal-estar causado pelas tarefas que precisam ser cumpridas. “Apesar de deixar tudo para a última hora, o procrastinador costuma cumprir prazos. O problema dele não está em gerenciar o tempo, mas em lidar com o mecanismo de regulação emocional que o faz adiar tarefas o máximo possível”, avalia. Importante analisar que cada indivíduo tem uma dinâmica de funcionamento e, embora não sejam maioria, há aqueles que funcionam melhor sob pressão e, mesmo procrastinando com frequência, são produtivos e concluem as tarefas com qualidade.
Como quase tudo em termos de comportamento, emoções e outros temas referentes à saúde mental, a procrastinação pode ser resultado de uma combinação entre elementos biológicos (genéticos, psiquiátricos, neurofisiológicos) e aqueles aprendidos pelo ambiente em que o indivíduo está inserido. Nas famílias em que a referência dos pais é de procrastinar, por exemplo, os filhos habituam-se e passam a incorporar tais hábitos. O psiquiatra Amilton dos Santos Júnior lembra que, na adolescência, mesmo sem esse padrão prévio de funcionamento familiar, a procrastinação pode ser uma característica dominante. “Neste período, o adolescente precisa lidar com muitas mudanças que incluem relacionamentos, preocupações com o futuro, família, descoberta da sexualidade, luto pela perda de vários aspectos da infância, ou seja, estímulos e preocupações que o ‘paralisam’ diante de demandas e temas difíceis de serem pensados sem impulsividade”, argumenta. Nessas situações, a procrastinação se faz presente e o jovem passa muito tempo buscando formas mais divertidas para evitar o confronto com as cobranças.
Para entender o que desencadeia o comportamento procrastinador é preciso conhecer as angústias e inseguranças de cada indivíduo. Uma situação que gera desconforto, por exemplo, seja pela incerteza de não ser capaz ou pelo medo de não atender expectativas, pode ser um gatilho para postergar uma tarefa. Então, para evitar essa situação, o indivíduo se autossabota e busca uma alternativa confortável imediata, que pode ser uma caminhada, verificar as redes sociais, fazer uma refeição, ligar para um amigo ou qualquer ação que seja mais prazerosa e, de certa forma, não obrigatória. “Porém, ao fazer isso o efeito de prazer e alívio é passageiro, pois, no dia seguinte, estará mais estressado e ansioso por não ter feito o que era necessário. Essa dificuldade de lidar com certas emoções negativas, como fracasso e insegurança, é o que motiva a procrastinação. Portanto, entender o que causa esse comportamento é fundamental”, avalia o médico e pesquisador especialista em Mindfulness e Promoção da Saúde, Marcelo Demarzo, professor livre-docente da Escola Paulista de Medicina (EPM) e coordenador do Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Sinais e sintomas devem ser observados
A procrastinação pode resultar em consequências ruins para a qualidade de vida, pois costuma vir acompanhada de irritação, tensão, exaustão emocional, ansiedade e impulsividade. Por isso, quem apresenta esse comportamento de forma crônica deve procurar ajuda de um especialista com quem possa desenvolver um vínculo de confiança. “A avaliação de um psicólogo é fundamental para ajudar a enfrentar o comportamento procrastinador, que pode mascarar outros problemas como baixa autoestima, fobias, transtornos de ansiedade e, principalmente, depressão, cuja relação com a procrastinação é bem conhecida na prática clínica”, avalia o psiquiatra Rogério Panizzutti. Entretanto, embora a depressão aumente a probabilidade de adiar tarefas, o contrário também acontece, uma vez que a procrastinação aumenta o estresse que, por sua vez, pode levar a quadros depressivos.
A Psicologia oferece inúmeros recursos para o indivíduo lidar com a procrastinação crônica, especialmente quando relacionada a outras questões de saúde mental e seus efeitos no cotidiano, como insegurança, medo e pessimismo – que podem ser limitadores e angustiantes. “Entre as abordagens está a Terapia Cognitivo Comportamental, que ajuda a identificar pensamentos disfuncionais e crenças que levam à procrastinação, e o Mindfulness, prática de meditação que consiste na atenção plena na mente, no corpo e no ambiente, trazendo consciência sobre pensamentos, sentimentos e padrões de comportamento e possibilitando opções de escolha, melhores respostas aos desafios e priorização do bem-estar”, enumera o psiquiatra Marcelo Demarzo. Ao trabalhar a baixa atenção e as distrações típicas dos procrastinadores, as terapias reduzem o estresse, aumentam o foco nas atividades e melhoram a saúde.