O adoecimento na área da saúde

Médicos e estudantes de Medicina, enfermeiros e outros profissionais do setor padecem de males físicos e mentais que precisam de maior atenção

A preocupação com a saúde e a qualidade de vida de profissionais e estudantes da área da saúde, em especial a Medicina e a Enfermagem, não é recente. Desde a década de 1980, cientistas têm alertado para os problemas que afligem esses profissionais que, por princípio, deveriam zelar principalmente pelo próprio bem-estar para estarem aptos a cuidar do próximo. As modificações no mercado de trabalho, a carga horária excessiva, a fragmentação das atividades, a influência da indústria farmacêutica, a mercantilização dos serviços médicos e a concorrência acirrada têm sido apontados como fatores de estresse profissional, resultando em níveis elevados de sofrimento e consequente adoecimento físico e mental. Estudos mostram que médicos estão mais sujeitos a desenvolver diferentes tipos de câncer e doenças do aparelho circulatório (infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, hemorragia intracerebral), se comparados à população geral. Além disso, uma parcela considerável da classe médica – em torno de 20% – sofre de problemas psiquiátricos gerados por uma série de pressões inerentes à profissão, que se refletem na qualidade de vida e na saúde e também podem interferir de maneira negativa no atendimento aos pacientes. Todo esse estresse profissional pode levar a um desdobramento ainda mais preocupante: o suicídio.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) vem apontando os riscos do adoecimento médico desde a década de 1980, e estudos dos anos 1990 já indicavam as jornadas extenuantes, a multiplicidade de atividades e o desgaste profissional como fonte de estresse. Na pesquisa ‘O médico e seu trabalho’, de 2004, os autores mostraram que a situação se agravava com o estreitamento do mercado de trabalho, resultado da criação desenfreada de escolas médicas por todo o País. No livro A saúde dos médicos do Brasil, lançado em 2007, o CFM alertou que o adoecimento dos profissionais da área poderia, inclusive, comprometer a saúde da população. “Para uma saúde integral precisamos de três pilares, que chamamos de MMA (Mente, Movimento e Alimentação). Entretanto, muitas vezes o médico não pratica exercícios físicos, se alimenta mal e sofre de forte estresse devido às condições de trabalho e por não ter suporte social na profissão, e é esse estresse que leva à depressão. Quando não identificada e não tratada, a depressão é um caminho para o suicídio”, alerta o médico cirurgião e coordenador do Departamento de Relações Internacionais e da Comissão de Estratégia Jurídica do Conselho Federal de Medicina (CFM), Jeancarlo Fernandes Cavalcante, conselheiro federal do CFM pelo Rio Grande do Norte.

Embora ainda seja tratado como tabu, o suicídio entre profissionais da saúde não é um problema novo. Em 1903, o Journal American Association já apontava que médicos tiravam a própria vida como uma maneira de eliminar seus problemas. Em 1968, um estudo retrospectivo em 62 escolas médicas norte­americanas e três canadenses concluiu que o suicídio era a segunda causa de morte entre estudantes de Medicina, perdendo apenas para os acidentes. Alguns trabalhos sugerem, ainda, que alunos com melhor desempenho escolar estão no grupo de alto risco de suicídio. Dados bem mais recentes indicam que a taxa de médicos e estudantes de Medicina que cometem suicídio é três vezes maior que a população em geral. A Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio estima que, em média, de 300 a 400 médicos cometem suicídio por ano no mundo, e estudos internacionais estimam que alguns gatilhos para essa atitude podem ser a exposição diária a situações de estresse, a convivência direta com a morte e as exaustivas e, muitas vezes, precárias condições de trabalho.

Estudiosa do tema desde a década de 1980, a médica psiquiatra Alexandrina Maria Augusto da Silva Meleiro, vice­presidente da Comissão de Atenção à Saúde Mental do Médico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), afirma que o alerta para evitar o problema vem do próprio corpo e precisa ser levado em conta pelos profissionais da saúde. “Aumento da pressão arterial, dores de cabeça, elevação da glicemia, insônia, dores no corpo e na coluna, diarreia e vômitos são alguns dos sintomas físicos decorrentes do estado emocional. Além disso, o indivíduo pode ter crises de ansiedade e de pânico, assim como sintomas de depressão”, enumera.

No artigo ‘Suicídio entre médicos e estudantes de Medicina’, desenvolvido pela psiquiatra em 1998 no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP), os dados já apontavam que sentimentos de culpa por fracasso de onipotência (limites de realidade) favoreciam o surgimento de quadros depressivos e suicídios em médicos e estudantes da área, evidenciados como mais elevado que a população geral por dados epidemiológicos, da literatura, de incidência e prevalência.

O suicídio tem sido apontado como risco tanto para médicos jovens quanto para aqueles com anos de profissão. “O estudante se mata muito e o residente se mata muito. Mas, todos aqueles que não encontram condições de enfrentar as dificuldades também acham um desfecho no suicídio. E tem uma parte que não opta pelo suicídio, mas que se mata aos poucos usando drogas e não cuidando da própria saúde. Estudos comprovam que os médicos são mais sujeitos a desenvolver câncer do que a população geral, porque todo esse estresse tem um preço; médicos têm mais infartos e mais AVC se comparados à população geral, porque são mais hipertensos. Todo esse esgotamento profissional acaba tendo um desdobramento e, se formos ampliar o conceito, é como um suicídio crônico”, enfatiza a médica.

Negação e estigma

Para a psiquiatra Alexandrina Maria Augusto da Silva Meleiro, mais grave que todos esses sintomas físicos e psíquicos é a negação, comum no meio médico, porque muitos se recusam a procurar ajuda de colegas. Ao ignorar os sinais de doença física e mental e continuar trabalhando como se nada estivesse acontecendo, esses profissionais ficam ainda mais suscetíveis ao agravamento dos sintomas e, consequentemente, a possíveis desfechos pouco favoráveis ou trágicos. “A primeira questão que enfatizamos é que os profissionais da saúde percam o tabu de procurar ajuda de colegas ao perceber sintomas de depressão, ansiedade, dependência de álcool ou drogas, e até mesmo obesidade por estarem comendo por impulso. O médico, de maneira geral, ainda tem muito preconceito de aceitar que precisa de ajuda”, destaca. O problema torna-se ainda maior porque a classe médica se automedica e se autodiagnostica, muitas vezes erroneamente.

O médico cirurgião Jeancarlo Fernandes Cavalcante acrescenta que é fundamental quebrar o estigma que envolve a saúde mental por parte dos médicos, pois essa recusa de se aceitar como portador de uma doença mental retarda o início do tratamento e vai agravando cada vez mais os sintomas. Embora o serviço público de saúde no Brasil tenha muitas deficiências que podem agravar o estresse físico e mental de médicos e demais profissionais da área, não há diferenciação entre aqueles que atuam na saúde suplementar quando o assunto é adoecimento físico e mental. “O que ocorre, na verdade, é que quase a totalidade dos médicos tem múltiplos empregos, vive cargas horárias extenuantes, passa a noite acordado e no outro dia vai trabalhar, além de fazer muitos plantões nos fins de semana para melhorar a renda. Para manter um padrão econômico razoável, o médico se submete a vários vínculos de emprego e isso é altamente estressante, não permitindo que tenha horários livres para ficar com a família, praticar exercícios físicos ou fazer qualquer outra atividade além da Medicina”, argumenta. O fato de terem de estudar demais é outro fator de estresse para a categoria, porque o conhecimento médico dobra a cada ano e é fundamental estar sempre atualizado, até porque a concorrência é muito grande.

Dependência química é um risco real

Outra questão que precisa ser mais discutida é a dependência química na área, tanto em relação a drogas lícitas, como o álcool, quanto às ilícitas, inclusive o crack. “Em 2006, a tese de doutorado sobre dependência química na Medicina desenvolvida pelo psiquiatra Hamer Palhares já mostrava dados alarmantes. Por exemplo, a prevalência de morte por uso de anestésico por médicos anestesistas ocorria mais no início da carreira, o que mostra baixa resiliência desses jovens médicos com as agruras da profissão”, lamenta a psiquiatra Alexandrina Maria Augusto da Silva Meleiro, que fez parte da banca.

Na pesquisa intitulada ‘Dependência Química entre Médicos: A Experiência de um Serviço Pioneiro no Brasil – Rede de Apoio a Médicos’, desenvolvida na Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM), o autor mostrou que, dos 365 médicos atendidos na rede de apoio em um período de sete anos, 51,5% tinham comorbidade psiquiátrica e o álcool era a droga mais consumida. Os médicos de especialidades clínicas apresentavam consumo predominantemente de álcool; os especialistas cirúrgicos utilizavam álcool ou drogas de rua; e os anestesiologistas usavam drogas de prescrição.

Estudantes podem estar em adoecimento

O tempo de dedicação e o volume de conhecimento exigidos para um médico se formar estão entre os principais fatores de estresse. Afinal, são seis anos de graduação e, caso queira trabalhar como especialista, uma residência que pode durar de dois a cinco anos. No entanto, é a partir do quarto ou quinto ano de graduação que o adoecimento físico e mental começa a agravar, porque os estudantes passam a ter mais contato com o que é ser médico, com os doentes e as doenças, o sofrimento e a morte. Para enfrentar essa dor, comumente somatizam com hipertensão, dores no corpo e dores de cabeça, e é neste momento que acabam usando substâncias químicas. A psiquiatra Alexandrina Maria Augusto da Silva Meleiro destaca que alguns alunos ficam dependentes de analgésicos, hipnóticos, álcool e outras drogas. No meio desse caminho podem surgir depressão, ansiedade e esgotamento físico e, quando se formam e vão encarar o mercado, já estão adoecidos.

Isso sem falar naqueles que simples­mente abandonam o curso. Dados anteriores à pandemia de Covid-19 indicavam que aproximadamente 10% dos alunos que entravam nas escolas médicas desistiam do curso por adoecimento. “Estudantes de Medicina são inteligentes, estudiosos e perfeccionistas, mas frágeis emocionalmente. Eles não são preparados para enfrentar a frustração, que é o que acabam tendo na hora que começam a lidar com o curso médico, quando se deparam com as limitações, ou quando os pacientes cronificam ou morrem. Com tudo isso, esses jovens vão adoecendo. E, infelizmente, muitos acabam tirando a própria vida”, lamenta a psiquiatra.

Pesquisa desenvolvida no Centro Universitário Cesmac, em Maceió, confirmou a alta prevalência de uso não prescrito de psicofármacos entre estudantes de Medicina e Odontologia. O estudo publicado em 2021 envolveu 1.111 estudantes de duas instituições de ensino superior – uma pública e uma privada –, com 18 anos ou mais, por meio de questionários e questões objetivas. Os resultados mostraram que as substâncias psicoativas mais consumidas eram os ansiolíticos, seguidos por antidepressivos e psicoestimulantes. A frequência com que eram usados variou de diariamente a situações pontuais, como período de provas, término de relacionamentos ou perda familiar. Além disso, o estudo constatou que mais de 15% dos alunos já tinham recebido algum diagnóstico psiquiátrico e mais de 30% já havia utilizado algum psicofármaco ao longo da vida. Grande parte tinha conseguido essas medicações sem prescrição, por meio de amigos ou familiares ou em farmácias que liberavam as drogas sem retenção de receita – como preconizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Uma das autoras da pesquisa, a psiquiatra e professora mestra Aída Felisbela Leite Lessa Araújo, afirma que o ingresso na universidade é um momento de grandes mudanças e requer alto nível de trabalho e dedicação, por ser um espaço altamente competitivo. E o uso de fármacos ou de drogas sem prescrição é a forma que muitos alunos encontram de tentar contornar a ansiedade e a angústia geradas pelas exigências dos cursos, além de conciliar o sono ou alcançar melhor rendimento nas atividades cotidianas e nos estudos. “Foi ainda mais preocupante o fato de a maioria dos participantes (90,8%) afirmar ter consciência dos riscos quanto ao uso dos psicofármacos e, mesmo assim, continuar utilizando devido à falsa percepção de que os medicamentos são completamente seguros e pela facilidade de acesso aos mesmos. Percebemos ainda a presença de uso abusivo de álcool entre os estudantes, embora esse não fosse o principal objetivo da nossa pesquisa”, sinaliza.

Também foi possível identificar que muitos estudantes apresentavam sinto­mas de ansiedade e depressão, o que motivava a busca e o consumo frequente dos psicofármacos. Os riscos do uso indiscriminado de psicofármacos podem variar de pequenos efeitos adversos, transtornos psíquicos e/ou somáticos e morte, além da possibilidade concreta de resultar em dependência química ou física. “Muitas vezes, esse adoecimento é mascarado por alimentação inadequada, falta de atividade física ou conformismo e não valorização dos sentimentos vivenciados, além de maior consumo de álcool e substâncias psicoativas. Embora seja um problema de saúde pública, essa questão ainda é, muitas vezes, negligenciada”, lamenta a professora.

Acolhimento nas escolas médicas e da saúde

A vida acadêmica, principalmente na área da saúde, exige uma dedicação intensa. A carga horária de atividades curriculares e extracurriculares é grande, associada às cobranças por produtividade, dificuldade de obter materiais para estudo e desenvolver técnicas, relacionamento com colegas e professores e ausência de retorno positivo do que se executa. “Durante suas atividades nos cenários de práticas, esses alunos tornam-se cuidadores precoces e, por vezes, depósito de angústias, sofrimentos e anseios de familiares e pacientes, além de lidarem com a morte precoce e constante. Enfermeiros, de maneira geral, passam pelos mesmos problemas”, acrescenta a professora Aída Felisbela Leite Lessa Araújo.

Soma-se a isso a dificuldade de conciliar o estudo com lazer e família, assim como a atividade profissional e o curso, uma vez que muitos estudantes trabalham. Esses fatores colaboram para afetar o desempenho e a qualidade de vida, tornando-os mais vulneráveis ao uso de psicofármacos. A professora enfatiza que é preciso buscar estratégias de orientação e prevenção desses e de outros problemas, seja através da conscientização de estudantes e dos profissionais da saúde por meio de rodas de conversa, palestras, cartilhas e, principalmente, da criação de um serviço de saúde mental dirigido aos mesmos, para que se sintam acolhidos e possam ser acompanhados por profissionais especializados na área.

As escolas médicas e da saúde também precisam discutir mais frequentemente o tema com os estudantes, a partir da semana de acolhimento. O médico Jeancarlo Fernandes Cavalcante acentua que algumas faculdades dispõem de ambulatórios de Psicologia para o estudante de Medicina, mas a maior parte das escolas médicas não tem qualquer programa no sentido de ajudar o aluno, identificar a doença mental e iniciar com o tratamento precoce, o que considera uma medida de extrema urgência. “Não podemos entregar para a sociedade um médico com a saúde mental já comprometida”, argumenta.

Burnout leva a sintomas diversos

O esgotamento profissional conhecido como síndrome de burnout – apresentado pela primeira vez em 1974 pelo psicanalista H.J. Freudenberger para descrever um sentimento de fracasso e exaustão causado por excessivo desgaste de energia, força e recursos – é comum em profissionais que atuam diariamente sob pressão e com responsabilidades constantes, como médicos e enfermeiros, e também já foi identificado em estudantes de Medicina. A literatura científica mostra que o trabalho na saúde, especialmente aquele que demanda mais recursos (psíquicos e físicos) e exige tomadas de decisões mais assertivas, pode contribuir de forma significativa para esse adoecimento.

As cargas excessivas e o estresse crônico relacionado ao trabalho, assim como a autonomia restrita, têm sido apontados como fatores causais das altas taxas dessa síndrome, atualmente considerada uma epidemia entre os médicos. Além dos efeitos da intensa carga de trabalho e fadiga, esses profissionais estão expostos a agentes estressores específicos como situações de grande carga emocional associadas a sofrimento, medo, falhas e morte, culminando muitas vezes em interações difíceis com pacientes, familiares e outros membros das equipes de saúde.

“Alguns estudos documentam claramente que os médicos têm maior estresse no trabalho e sofrimento emocional do que a população em geral. Mudanças rápidas e recentes na prática da Medicina, como o aumento das demandas de atendimento aos pacientes, questões de remuneração e responsabilidades, bem como a crescente burocracia associada aos processos de trabalho e conflitos entre as necessidades das instituições de saúde e dos pacientes, têm sido reconhecidas como potenciais ameaças à saúde dos médicos”, argumenta a psiquiatra do Departamento de Atenção à Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (DAS-UFRGS), Carolina Meira Moser.

Em decorrência dessas mudanças organizacionais, a autonomia dos médicos tem sofrido um declínio substancial, com aumento do controle gerencial e de custos pelos governos, empregadores e pacientes. De acordo com pesquisa de 2018 publicada no site de informações médicas Medscape, 56% dos médicos que se consideraram em burnout citaram, como fatores associados, excesso de burocracia, longas jornadas de trabalho, falta de respeito dos colegas, remuneração insuficiente, falta de autonomia clínica e aumento da informatização da prática médica, com uso excessivo de tecnologias.

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento da UFRGS e membro do grupo de pesquisa em Psiquiatria Psicodinâmica da Instituição, a psiquiatra Carolina Meira Moser explica que a síndrome de burnout entre os médicos vem sendo amplamente discutida na literatura. “Em 2014, 54,4% dos médicos norte-americanos relataram pelo menos um sintoma, em comparação a 45,5% em 2011. Estudantes de Medicina de todas as partes do mundo também estão em alto risco de desenvolver burnout e transtornos psiquiátricos”, reforça. A síndrome provoca sintomas físicos como cefaleia, distúrbios do sono, gastrointestinais e dores musculares; sintomas emocionais com irritabilidade, ansiedade, distanciamento afetivo, insatisfação e dificuldade de concentração; e sintomas comportamentais como absenteísmo, queda da produtividade, isolamento, abuso de substâncias e conflitos com colegas e demais pessoas do convívio.

Estudo desenvolvido em 2020 pelo grupo da UFRGS com 1.054 profissionais da saúde de todo o Brasil – médicos, técnicos de Enfermagem, enfermeiros e psicólogos, entre outras categorias –, constatou que mais da metade da amostra apresentava níveis elevados de burnout e sintomas de depressão sugestivos de quadro depressivo clinicamente significativo. “Encontramos índices de burnout e depressão semelhantes aos descritos mundialmente nessa população. No entanto, dentre as várias categorias profissionais que participaram do estudo, chamaram a atenção as taxas ainda mais elevadas entre técnicos de Enfermagem, que ficaram em torno de 70% para cada uma dessas condições”, relata.

Segundo a psiquiatra Carolina Meira Moser, o que foi detectado nos resultados diz respeito não somente à carga de trabalho, mas à maneira como é distribuída entre as diferentes profissões. “Os técnicos de Enfermagem parecem estar mais expostos por características inerentes ao tipo de trabalho que desenvolvem junto aos pacientes, pela presença mais constante na assistência direta e inevitável envolvimento e exposição a questões psicossociais do paciente e seus familiares”, argumenta. Outros fatores importantes para os resultados foram o menor acesso a tratamento para saúde mental entre os técnicos de Enfermagem e a sensação de não serem parte dos processos de trabalho das equipes de saúde.

Duas etapas

A psicóloga Cássia Ferrazza Alves, professora doutora do FSG Centro Universitário da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, lembra que a síndrome de burnout tem dois momentos. No início, o profissional se sente esgotado e encontra muitos obstáculos no contexto ocupacional que o impedem de atingir metas e objetivos previamente planejados. A segunda etapa começa com cansaço emocional frequente e falta de paciência de ouvir as queixas dos pacientes. Com isso, passa a desenvolver irritabilidade, diminuição da empatia e, consequentemente, mais conflitos no trabalho. “Tem outra reação importante que é a culpa. Por estar mais irritado e mais cansado, o profissional pode desenvolver um sentimento que o leva a entrar em sofrimento e, para tentar minimizar essa culpa, vai aumentar sua carga horária e elevar ainda mais o esgotamento. É como um círculo vicioso, por isso, é fundamental procurar ajuda”, sentencia.

Ambiente de trabalho e cultura institucional influenciam

O burnout não é uma síndrome relacionada ao indivíduo, mas ao ambiente em que trabalha. Desta forma, qualquer profissional pode vir a adquiri-la, desde que o ambiente de trabalho desenvolva desgaste ou estresse. O grupo de pesquisa em Psiquiatria Psicodinâmica da UFRGS desenvolveu um instrumento consistente para avaliar o ambiente institucional, que foi aplicado em médicos residentes de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Esse estudo encontrou significativa associação dos níveis de burnout desses profissionais com a cultura institucional e a qualidade das relações entre colegas e entre professores/preceptores. A psiquiatra Carolina Meira Moser ressalta que o bem-estar do médico é complexo e multifacetado, com fatores individuais, profissionais e organizacionais envolvidos. “Um padrão de comportamento universal descrito entre médicos é a negligência em relação à própria saúde, a não realização de exames e a procrastinação em procurar tratamento. Outro aspecto é que a maioria relatou trabalhar mesmo quando está indisposta e espera que os colegas façam o mesmo, embora não tenha a mesma expectativa em relação aos pacientes”, descreve.

Também há uma cultura entre os médicos que os impede de dividir angústias e preocupações com os colegas, um desconforto quando estão no papel de paciente e um receio do julgamento da necessidade de ajuda como um indicador de fraqueza e incapacidade de enfrentamento de estressores. Outros preditores do bem-estar incluem traços de personalidade e gênero. Por exemplo, há certos traços de personalidade obsessivo-compulsiva muito comuns entre os médicos, como perfeccionismo e perfil de dedicação excessiva ao trabalho – workaholick – associados a resultados adversos para a saúde, incluindo burnout, depressão, ansiedade, distúrbios alimentares e doença cardiovascular. “Além disso, frequentemente, médicas enfrentam maiores desafios em relação ao equilíbrio entre o trabalho e as responsabilidades familiares, resultando em aumento de conflito e estresse trabalho-família”, alerta.

Para a psiquiatra, todos esses fatores parecem ser exacerbados por uma alta demanda do meio médico pela perfeição e pela tendência histórica de ignorar indicadores do próprio sofrimento. Somado a isso, a educação e formação médica reforçam a cultura de que os melhores médicos têm poucas necessidades, não cometem erros e nunca ficam doentes. Uma crença preocupante é a de que as faculdades de Medicina devem ser rigorosas e demandantes e, se os estudantes não forem suficientemente fortes para lidar com a pressão e o estresse, devem procurar outra profissão. “Há uma cultura de que mais pressão, mais carga horária e mais demandas devam levar a uma melhor formação. Esse aspecto falho da cultura médica pode representar uma barreira significativa para a mudança do quadro atual de esgotamento físico e mental desses profissionais”, argumenta.

Pandemia agravou o esgotamento físico e mental

Desde que o mundo se deparou com a pandemia de Covid-19, médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde se viram frente a frente com o desconhecido. Mesmo assim, diariamente tiveram de sair de suas casas para trabalhar, muitas vezes em hospitais lotados e com uma estrutura já colapsada anteriormente à pandemia. Com isso, o adoecimento mental entre esses profissionais agravou muito, demandando inúmeros afastamentos e aumentando o problema da falta de mão de obra na área. O enfermeiro sanitarista Eder Samuel Oliveira Dantas, da Unidade de Atenção Psicossocial do Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), afirma que inúmeros profissionais da saúde que trabalham ou atuaram na linha de frente da Covid-19 vêm sendo tratados nas Redes de Atenção Psicossocial (RAP) que integram o Sistema Único de Saúde (SUS) para diminuir os impactos da pandemia sobre a saúde mental.

Pesquisador e especialista em prevenção de suicídio dentro do espectro da saúde coletiva, o sanitarista lembra que os residentes também têm apresentado adoecimento físico e mental, mas, muitas vezes, ficam invisíveis neste contexto, o que pode levar ao abandono da profissão. Um estudo desenvolvido em Brasília, entre abril e junho de 2020, avaliou médicos residentes em atuação durante a pandemia e apontou que, devido à ansiedade, 25% afirmaram ter cogitado trocar de especialidade. Entre os sintomas de ansiedade, os mais detectados foram a incapacidade de relaxar, o medo de que aconteça o pior e o nervosismo. Além disso, 83,3% afirmaram que a qualidade geral do sono estava prejudicada e 75% apresentavam sonolência diurna. “Esses estudantes atuaram como profissionais na linha de frente e tiveram a saúde colocada à prova”, ressalta.

Independentemente da pandemia, o pesquisador lembra que a saúde mental e física dos profissionais da saúde vem sendo extremamente vulnerabilizada há muito tempo, quer seja pelo próprio modelo de saúde – que não favorece o atendimento ao profissional da área de maneira adequada – ou por uma questão cultural e histórica de esse profissional não olhar para si, uma vez que é formado para olhar o outro. “A pandemia veio exacerbar diversos problemas sociais e também esse adoecimento nos profissionais da saúde de maneira geral, incluindo os estudantes de Medicina. São muitas as variáveis relacionadas ao esgotamento desses trabalhadores e, quando se depararam com o cuidar da vida do outro em uma situação de emergência como a pandemia, a situação se agravou porque tiveram de enfrentar plantões exaustivos, cobranças exageradas e jornadas noturnas que, por si só, já trazem questões fisiológicas naturalmente perturbadoras”, destaca.

Os profissionais da saúde também tiveram de administrar a preocupação e o medo de se contaminar e aos familiares com o SARS­CoV-2, o que agravou a angústia e o estresse. “Muitos familiares de profissionais da saúde morreram ao ser contaminados por eles. A cada colega médico, fisioterapeuta, enfermeiro ou técnico de Enfermagem que morria, o luto se complicava e o medo de morrer aumentava. Todas essas questões que assombraram os profissionais são próprias de um período pandêmico crítico, mas, sem dúvida, reverberam até hoje”, alerta. Com isso, ainda há muitos profissionais afastados por causa do adoecimento mental. Esses trabalhadores da saúde desenvolveram síndrome de burnout, transtorno do pânico, sintomas depressivos e ansiedade generalizada e, por isso, não estão sendo devolvidos aos seus postos de trabalho.

“Uma das graves consequências que a sociedade vivenciará com o adoecimento dos médicos e de outros profissionais da saúde, em longo prazo, vai ser o que alguns cientistas têm chamado de ‘debandada de profissionais da saúde’. Estima-se que, nos próximos cinco anos, haverá uma redução de pelo menos 10% na procura pelas profissões de saúde em todo o mundo”, lamenta. O pesquisador acredita que a sociedade vai perder muito com essa nova realidade, que se dá também por falta de estratégias assertivas para acolher, cuidar e zelar pela saúde do trabalhador da saúde por parte de gestores e de governos, além da própria questão conjuntural em muitos países, incluindo o Brasil.

Suporte à saúde mental é essencial para profissionais e estudantes

A psiquiatra Carolina Meira Moser ressalta que as instituições precisam enfrentar a resistência natural em questionar a cultura médica ainda vigente dos ‘superdoc’ – médicos perfeitos e que não adoecem – e encorajar iniciativas que possam estimulá-los a desenvolver, pelos colegas, a mesma compaixão que têm pelos pacientes. Entre as estratégias para redução do adoecimento desses profissionais estão o desenvolvimento de uma cultura de suporte quanto à saúde mental, no sentido de diminuir o estigma, e a promoção de estratégias colaborativas entre os colegas, com participação de todos os envolvidos nos processos de trabalho. Outro aspecto fundamental quando se fala em adoecimento relacionado ao trabalho, mais especificamente no caso do burnout, é não culpabilizar a pessoa que adoece.

Entre outras estratégias a serem tomadas em nível institucional estão, ainda, o estímulo à adoção de limites entre a vida pessoal e profissional e a capacitação dos profissionais para identificar sintomas de adoecimento entre os pares, bem como auxiliar na busca por assistência. “Enquanto não pudermos reconhecer e abordar adequadamente o burnout entre os profissionais da saúde, ficam inviabilizados objetivos de melhorar a experiência assistencial do paciente e a saúde da população, bem como reduzir custos. Assim como preconizado nos acidentes aéreos, os profissionais da saúde precisam colocar antes as próprias máscaras de oxigênio para conseguirem desempenhar adequadamente o seu papel de cuidar do outro”, enfatiza.

O fato de alguns jovens escolherem a Medicina sem o fator fundamental, que é amor ao próximo e o interesse em cuidar de outro ser humano, também pode ser um fator de adoecimento durante e depois da graduação. A psicóloga Cássia Ferrazza Alves enfatiza que cada estudante precisa pensar porque escolheu a profissão, o que o motivou e se está preparado para lidar com diferentes tipos de pacientes e demandas, e com as questões inerentes a esse ambiente de trabalho, a relação com colegas e a alta pressão da profissão. Neste contexto, a universidade teria de exercer um papel protetivo para ajudar esses alunos a pensarem na carreira e nessas escolhas de forma mais consciente. “É fundamental ter plena clareza do que essa profissão vai demandar. Muitas vezes, fica a ideia de que a Medicina é uma área com status e glamour. Mas, na verdade, é uma área extremamente penosa desde os primeiros anos da graduação, passando pelo trabalho dos residentes e, depois, ao entrar no mercado de trabalho. Essa é uma carreira na qual muitos profissionais trabalham como autônomos, o que também exige muita energia e dedicação. E, se buscam retorno financeiro, terão de trabalhar muito para isso”, avisa.

Qualidade de vida como fator protetivo

Conceito multifatorial e multideterminado, a qualidade de vida é composta por uma condição relacionada ao ambiente físico, mas também está estreitamente vinculada a como cada indivíduo se sente com a própria saúde física e psicológica, sua rede de apoio social e como convive com o lazer. Desta forma, para ter qualidade de vida é fundamental sentir-se pertencente a um ambiente, seja social, familiar ou profissional, e pensar sobre o que é importante, o que faz sentido e quais são os fatores protetivos para evitar o adoecimento diante de situações estressoras. Por esse motivo, questões relacionadas à qualidade de vida são consideradas fator protetivo para a síndrome de burnout e o adoecimento em profissionais da saúde.

Para avaliar a qualidade de vida social e ocupacional de profissionais da saúde, a acadêmica Paula Cristina Lizot, do FSG Centro Universitário da Serra Gaúcha, desenvolveu um estudo que investigou rotina, carga horária e outras variáveis que envolvem estresse, depressão e ansiedade de 43 médicos com idades entre 26 e 71 anos, a maioria de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, sob orientação da professora Cássia Ferrazza Alves. Mesmo sem encontrar evidências de síndrome de burnout entre os participantes, o estudo apresentou outros direcionamentos importantes, especialmente em relação ao estresse e à ansiedade, mostrando que houve uma relação positiva com as dimensões da escala que avalia o esgotamento profissional.

Os resultados mostraram que os médicos mais jovens tinham mais acometimento desses problemas, porque ainda estão buscando construir uma carreira. Assim, a idade e o tempo de formação acabaram se mostrando fatores protetivos: quanto mais velho e com mais tempo de carreira, menos sintomas relacionados ao estresse, à depressão e ansiedade os entrevistados apresentavam. “Esse dado sugere que, a partir da experiência, os médicos aprenderam a lidar com o ambiente e a rotina estressante ou, ainda, que esse profissional está adaptado e talvez não esteja percebendo situações que podem causar o adoecimento, o que é preocupante”, resume a professora Cássia Ferrazza Alves. A renda também foi associada à qualidade de vida dos médicos, embora seja um fator considerado inconclusivo, uma vez que os estudos têm mostrado que, mais que a questão financeira, os profissionais estão buscando reconhecimento.