Medicina dirigida à família e comunidade

S­­­­­­egundo um censo conduzido recentemente pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil tem 7.149 médicos especializados em Medicina de Família e Comunidade, número que representa um acréscimo de 171% se comparado a 2011. A médica Zeliete Zambon, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), afirma que um dos motivos para o aumento da procura é a inclusão da especialidade na rede de saúde suplementar, que começa a perceber que esse cuidado é mais eficaz para garantir a saúde e o bem-estar dos clientes e diminuir gastos com sinistralidades. A expectativa da entidade é que aumente o interesse para a especialidade nos próximos anos, inclusive porque as escolas médicas começam a ter mais professores na área. A presidente da SBMFC – que faz parte do Núcleo Docente Estruturante e coordena a Comissão de Residência Médica da Faculdade São Leopoldo Mandic, em Campinas – ressalta que um bom médico de família deve ter quatro habilidades: assistência, gestão, ensino e pesquisa e, essencialmente, ser um especialista em pessoas e gostar de gente. 

Adenilde Bringel

O aumento no número de especialistas em Medicina de Família e Comunidade é suficiente para a demanda?

Infelizmente não! Hoje, temos aproximadamente 64 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS) que fazem atenção primária no País como parte da Estratégia de Saúde da Família (ESF), uma ação implantada pelo Ministério da Saúde em 1994. Se pensarmos que a atuação da Medicina de Família e Comunidade é na atenção primária precisaríamos de, no mínimo, 64 mil médicos na saúde pública – um para cada unidade, dependendo de quantas pessoas cada UBS atende e lembrando que cada médico de família e comunidade atende média de 3,5 mil pessoas. Por isso, houve um incentivo muito grande do governo federal, a partir de 2013, para o aumento no número de vagas de residência médica devido à necessidade do Brasil de ter mais médicos de família e comunidade. Além disso, com as mudanças nos sistemas de saúde suplementar, os gestores começaram a perceber que investir em prevenção e nos problemas de saúde em seu início é muito melhor que investir em doença, e isso dependia de uma atenção primária forte. Assim, começou a aumentar o número de vagas para esses profissionais dentro da saúde suplementar. Estamos falando de uma mudança de modelo de saúde pautado, de fato, na saúde e não na doença. Por isso, houve aumento no número de médicos de família e comunidade, mas não na velocidade que precisamos.

O CFM tem mais de 500 mil médicos registrados, ou seja, o número de médicos de família ainda é pequeno?

Muito pequeno! Mas temos feito várias frentes de trabalho para qualificar aqueles que atuam na atenção primária e que não têm a titulação porque não fizeram a residência, e estamos desenhando cursos de especialização para que esses médicos, se tiverem tempo de atuação na especialidade, possam prestar prova de título. Também queremos criar um selo de qualidade da SBMFC como incentivo para programas de residência serem mais e melhores, com objetivo de formar mais médicos de família e comunidade com qualidade. Acreditamos que esse número ainda vai crescer muito mais.

Quantos cursos de residência médica estão disponíveis atualmente?

Para as residências médicas reconhecidas pela Comissão Nacional de Residência Médica, que atua junto ao MEC, e pela Associação Médica Brasileira (AMB), temos aproximadamente 6 mil vagas no Brasil inteiro, com preenchimento de cerca de 35%. Esses cursos de residência dão formação de excelência para os médicos, com uma imersão de 60 horas por semana. O curso tem duração de dois anos e é organizado em diferentes modelos de programas.

Como está o interesse por parte dos jovens que estão saindo das escolas médicas?

Embora seja uma especialidade antiga, com 40 anos no Brasil, a área de Medicina de Família e Comunidade é pouco reconhecida entre seus pares, e tem muitos médicos que ainda não sabem o que fazemos. Como a Medicina é muito tradicional, temos poucos professores médicos de família e comunidade dentro das universidades. Eu mesma sou médica há 21 anos e ninguém me falou que existia a especialidade. Nenhum professor sequer comentou sobre Medicina de Família e Comunidade e nem o que esse profissional fazia durante seis anos de escola médica, e fui conhecer a especialidade por meio de um brasileiro que tinha estudado no Canadá. A Medicina de Família e Comunidade é muito valorizada fora do Brasil, principalmente em sistemas mais organizados, como o canadense, o inglês e o holandês. Comecei a me interessar pelo brilho nos olhos que aquele profissional tinha, pois estava pensando em fazer Neurocirurgia ou Neurologia, carreiras para as quais fui estimulada na faculdade. É normal que o estudante olhe para as especialidades mais tradicionais e não consiga enxergar a Medicina de Família e Comunidade, até porque ainda não há médicos de família na grande maioria das escolas médicas.

Esse é o primeiro problema para a baixa procura?

Sim, o primeiro problema acontece lá na graduação, porque uma pessoa em formação em Medicina vai olhar para o professor médico para ser o seu modelo. Sem médicos de família e comunidade dentro da graduação, obviamente, não vamos conseguir estimular os jovens a se interessarem pela área. O segundo problema é que, há alguns anos, os médicos de família e comunidade tinham baixos salários e ficavam à mercê das mudanças políticas, porque a atuação era essencialmente pública e não havia um plano de carreira. Hoje, esse cenário mudou bastante. As escolas médicas também estão começando a entender que cuidar da saúde é importante e começam a ter professores especialistas em Medicina de Família e Comunidade. A importância deste profissional nas faculdades de Medicina, de cinco anos para cá, tem crescido muito, porque hoje são os profissionais mais bem pagos do mercado entre as especialidades essencialmente clínicas.

Qual é o papel do médico de família e comunidade?

Esse é o médico que vai acompanhar aquele indivíduo ao longo de toda a sua vida e coordenar todos os cuidados de saúde que precisar. São médicos especialistas em atenção primária. A atenção primária de saúde não é o local mais fácil para trabalhar, nem onde os médicos vão encontrar os problemas mais fáceis de resolver, mas é onde toda a população deveria chegar quando necessita de cuidados em saúde. Costumamos dizer que esse médico é um ‘especialista em pessoas’, enquanto os outros são especialistas focais por terem o foco em um sistema ou um órgão. Atendemos o indivíduo como um todo! Como somos especialistas em atenção primária, avaliamos onde o indivíduo mora, seu ambiente de trabalho, o que está à sua volta, seu contexto próximo e mais distante, lugares que frequenta, religião, influências e escolhas para avaliar sua saúde. Trabalhamos com todo o ciclo de vida, desde a gestação até a morte, como um coordenador do cuidado longitudinal. Acabamos cuidando também dos irmãos, do pai, da mãe, enfim, do núcleo familiar.

Isso diminui os riscos de doença?

O conceito é o seguinte: o indivíduo faz parte de uma família, e aquelas ações e reações familiares têm a ver com as suas questões de saúde e de doença. Essa família está dentro de uma comunidade, e isso também influencia todas as suas escolhas. O médico de família e comunidade sempre coloca a pessoa em um contexto familiar e de uma comunidade. Geralmente, no Brasil, atendemos um território definido, diferentemente de outros países. Com isso, sempre vem a família toda e, muitas vezes, o paciente nem precisa ir até o sistema secundário para tratar da saúde. Até quando o indivíduo interna o médico de família e comunidade pode acompanhá-lo, juntamente com o médico assistencial do hospital, porque sabe tudo sobre aquele indivíduo e é uma fonte de conhecimento para aquele médico assistencial. Assim, o tempo de internação hospitalar é muito menor. No mundo inteiro existe o médico de família.

Com pouco mais de 7 mil médicos no Brasil, imagino que a maioria esteja na saúde pública…

Sim, boa parte está. Hoje, na verdade, estamos com um sistema um pouco predador porque, como a saúde suplementar está necessitando muito dos médicos de família e comunidade, muitos têm deixado a saúde pública por questões de salário, condições de trabalho e resolubilidade. Assim, temos visto que muitos desses médicos têm migrado para o setor privado nos últimos dois anos, principalmente, mas ainda temos muitos especialistas na saúde pública, felizmente.

Como esses médicos atuam na saúde privada?

Alguns planos de saúde suplementar estão sendo vendidos como ‘produtos de atenção primária’, e algumas marcas têm oferecido o plano de atenção primária, por meio do qual o acesso do paciente à rede de atendimento sempre vai passar por um médico de família e comunidade, que vai coordenar a saúde desse indivíduo. Desta forma, o paciente só irá ao especialista focal se esse médico de família e comunidade achar que é pertinente dentro do seu plano de cuidados. Esses planos já nascem dizendo que vão dar uma atenção primária forte aos beneficiários. Alguns também acabam prestando serviços para outros planos e hospitais. Por exemplo, hospitais de ponta como Albert Einstein, Sírio Libanês e Oswaldo Cruz, em São Paulo, têm planos de atenção primária – seja por meio de empresas de saúde próprias ou externas, que conveniam serviços desses hospitais. Esses planos de atenção primária à saúde estão ficando muito fortes e escolhendo sistemas hospitalares muito bons para colocar seus pacientes, caso seja necessário.

Por que a parceria tem sido feita com esses sistemas hospitalares de ponta?

Porque estudos já demonstram que apenas 1% da carteira de pacientes vai ter a necessidade de uma internação hospitalar. A grande maioria dos pacientes não tem necessidade de chegar aos especialistas focais, nem a exames caríssimos, e muito menos à internação hospitalar. Com valores mais baixos, esses planos de saúde conseguem dar uma excelente qualidade de atendimento para os clientes com plano para internação, pronto socorro e exames. Isso está crescendo muito no Brasil.

Ao cuidar do indivíduo desde o nascimento, esse médico poderá evitar que desenvolva doenças crônicas no futuro?

Sim, porque o médico vai conhecer todos os hábitos daquele indivíduo, desde o parto. Não existe uma forma única de diagnosticar e tratar as pessoas, pois cada indivíduo é diferente. Estamos caminhando para a Medicina Personalizada e a Medicina de Precisão, que vão atuar em conjunto. A Medicina Personalizada dependerá de o médico realmente conhecer aquele paciente, e esse é o médico de família e comunidade.

Os agentes de saúde são peças importantes no auxílio a esses médicos para um atendimento mais efetivo?

Sim! Dentro da saúde pública, o agente comunitário de saúde foi pensado para atender as pessoas que moram nas suas comunidades, porque conhecem os hábitos e todos os pontos daquela comunidade. Esses agentes ajudam não só os médicos, mas a equipe inteira de saúde responsável por aquele território. Sem um agente comunitário de saúde não conseguiríamos chegar até a comunidade com a mesma efetividade na saúde pública. Dentro da saúde privada é mais difícil, porque cada pessoa mora em um lugar diferente e não faz parte de um território definido, portanto, a função do agente comunitário de saúde perde o efeito. No entanto, temos uma outra profissão crescendo agora que é o data scientist, um cientista de dados que vai nos ajudar a trabalhar com todos os dados dos pacientes. Hoje, a tecnologia já permite ao paciente ter acesso à sua equipe de saúde e ao seu médico sem sair de casa – a teleconsulta veio para isso, para que o médico e a equipe de saúde possam estar próximos dos pacientes. Existem estudos indicando que um médico de família e comunidade consegue atender até 2 mil pessoas, com todos os indicadores de saúde que terá de administrar do nascimento até a morte. E o data scientist é quem vai gerenciar todos esses dados para que a equipe de saúde possa fazer o planejamento das ações e acompanhe toda a carteira de pacientes.

Existe um perfil ideal para um bom médico de família e comunidade?

Primeiro, tem de gostar de gente! A segunda regra é que precisa gostar de se comunicar. Como coordenadora de internato de Medicina de Família e Comunidade na São Leopoldo Mandic, sempre digo aos alunos do quinto ano que eles precisam aprender a se comunicar com a equipe, através daquilo que escrevem no prontuário, e com o paciente que estão atendendo, juntamente com seus familiares, desde o primeiro momento em que o indivíduo chegue na sua porta. Portanto, gostar de gente e se comunicar são condições essenciais. E, claro, tem de estudar, gostar do corpo humano como um todo e ter um talento para a gestão – porque será o gestor da saúde daquelas pessoas, dos recursos e das informações que virão de todos os pacientes. Costumamos dizer que o médico de família e comunidade tem de ter quatro habilidades: precisa ter um pé na assistência e gostar de cuidar de pessoas; ter um pé na gestão e um pé na pesquisa, porque não se pode aceitar tudo e deve estar sempre pronto para trabalhar com as incertezas. Afinal, se uma dor de cabeça pode ser qualquer problema, para encontrar a causa o médico precisa ser um pouco pesquisador. E o pé no ensino significa ter boa vontade para dividir conhecimento com as outras pessoas, incluindo seus pacientes. Se não tiver esses quatro pilares, não será um bom médico de família!

Como convencer a nova geração de médicos a optar pela Medicina de Família e Comunidade?

A Medicina hoje é um ambiente de muita tecnologia, muitos conhecimentos e tomadas de decisão, e o médico precisa estar informado o tempo todo. E todas as habilidades da geração millennial têm relação com a Medicina de Família e Comunidade, porque é uma especialidade em que é fundamental estar antenado, ser um médico que se incomoda com tudo, que gosta de tudo, que anseia por novidades, que fica com a tela aberta o tempo todo e consegue processar aquela enxurrada de informações. Portanto, um jovem millennial pode ser um bom médico de família e comunidade se souber se comunicar, ouvir e se importar com as pessoas. Aliás, poderá usar todas essas habilidades e ser um médico de família e comunidade muito melhor do que os da minha geração.

Como a SBMFC pretende ajudar para aumentar o número de médicos nessa especialidade no Brasil?

Desde 2020, oferecemos gratuitamente aulas a cada 15 dias para médicos e estudantes que quiserem conhecer ou entrar na área, com certificado para que utilizem na faculdade ou na residência. E, a cada aula, o número de acessos aumenta. Temos utilizado todos os canais de comunicação para divulgar a especialidade e estamos criando outras comunidades como, por exemplo, dentro do SD Conecta, um grande HUB de comunidades científicas e médicas da América Latina. Recentemente, ganhamos uma cadeira no Conselho da Associação Médica Brasileira (AMB) e, com isso, teremos mais espaço na Comissão Nacional de Residência Médica e no Ministério da Saúde. Estamos fazendo parcerias para criar nosso curso de especialização, que vai ter o selo da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade e será todo construído por nós, mas com a chancela de uma instituição de ensino e com a gestão de uma editora especializada. Isso vai nos qualificar bastante, juntamente com o selo de qualidade para os programas de residência médica que estão ligados ao Ministério da Educação. Além disso, pretendemos ter uma prova de titulação, que inicia desde o primeiro ano em que o jovem médico entra na residência, e pretendemos utilizar algumas residências já bem avaliadas para trabalhar em parceria de referência para os outros programas de residência. Outra questão é ter um número maior de mestres e doutores formados na área de Medicina de Família e Comunidade para ocupar os cargos de docentes nas escolas de graduação médica. Também temos a nossa revista, presente em vários indexadores internacionais, com uma produção científica muito boa, e o site com bastante informação. Hoje, temos três preocupações fundamentais: a formação médica, a gestão dos sistemas de saúde e a saúde planetária, pilares que vamos trabalhar nos próximos anos para o crescimento da especialidade.

O paciente pode ser um impeditivo para que a Medicina de Família e Comunidade cresça no Brasil, por causa da tradição de procurar os especialistas focais?

Pode ser sim, porque passamos anos estimulando o consumo do maior número de especialistas possível. Algumas operadoras de saúde fazem até propaganda do número de especialistas e clínicas, como um estímulo para que o cliente consuma várias especialidades. Mas já existe uma parte da população que está começando a pensar diferente, e isso chegará a todas as pessoas. Estamos passando por uma mudança de paradigmas e abraçamos a causa da ‘saúde planetária’, que tem tudo a ver com a Medicina de Família e Comunidade, que é realmente o reaprender a respirar, dormir, comer, se cuidar, ter tempo para você e cuidar do ambiente. Somos a especialidade médica pioneira em discutir a ‘saúde planetária’, que visa mudança de hábitos para a sustentabilidade do planeta, e pretendemos ser os protagonistas dessas discussões no Brasil, junto com outras questões que vão acontecendo do próprio sistema de saúde.

O planeta está muito doente?

Muito doente! Estamos destruindo todos os nossos recursos ambientais e há um apelo para a mudança. Não é só um slogan de momento, mas uma necessidade: temos de reaprender a viver. Destruímos o meio ambiente, destruímos o habitat natural da fauna e não queremos que microrganismos venham até nós e ataquem o nosso corpo? Tudo faz parte de um ecossistema muito bem balanceado e, se destruirmos esse ecossistema, obviamente teremos algum problema e vamos sofrer as consequências. Para mim, esse é um movimento natural de retroceder, repensar, redesenhar e reajustar tudo o que temos, olhando para nós e para tudo que está à nossa volta. A primeira questão de saúde começa com a saúde ambiental.

O médico de família pode fazer a diferença entre uma comunidade saudável e uma comunidade doente?

Com certeza! Se eu conheço aquela pessoa, se sei quais são os mecanismos de defesa do corpo dela, da psique dela e as relações que tem, obviamente poderei orientar o melhor para a sua saúde. Se conheço a comunidade também e essa visão da saúde planetária, de fazer a diferença e induzir as pessoas a ter boas práticas para a biodiversidade, também é uma ação que temos de fazer, e esse é um legado que queremos deixar.