Dieta anti-inflamatória é simples e eficaz
Alimentos com compostos bioativos podem ajudar a tratar e prevenir doenças crônicas
A inflamação é um processo natural do corpo humano que libera uma série de substâncias, como histamina, prostaglandina e citocina com o objetivo de proteger e recuperar o organismo de um dano ou lesão. Quando aguda, a inflamação se caracteriza pela resposta mais forte do organismo, gerando dor e vermelhidão, enquanto a crônica resulta em lesões persistentes e que afetam os tecidos de diversas maneiras. Por causa disso, pode levar ao desenvolvimento de várias doenças em médio e longo prazos, entre as quais artrite, diabetes, intolerâncias, alergias, hipertireoidismo, câncer, doenças autoimunes e degenerativas. Mas a alimentação tem se mostrado uma forte aliada para a redução do risco das enfermidades causadas por essa inflamação crônica de baixa intensidade e também desempenha importante papel no tratamento das doenças inflamatórias, melhorando os sintomas e aumentando o tempo de remissão, em alguns casos. É neste contexto que surge a dieta anti-inflamatória, um plano alimentar composto de alimentos associados com a melhora do estado inflamatório e que evita itens com alto índice glicêmico, ricos em gorduras e pobres em fibras.
Em 1995, o médico norte-americano Barry Sears desenvolveu o método zone diet, que visava controlar processos inflamatórios e gerar respostas hormonais dentro de uma zona de equilíbrio. A dieta anti-inflamatória é mais ampla, porque envolve alimentos que fazem parte de diferentes padrões dietéticos e contêm compostos bioativos que ajudam na mediação da inflamação. “Prioriza-se os alimentos in natura, que são minimamente processados, possuem os nutrientes preservados e mantêm as propriedades anti-inflamatórias”, explica a nutricionista Julia Silva e Oliveira, integrante do Laboratório de Estudos em Ingestão Alimentar da Universidade Federal de Viçosa (LEIA-UFV), em Minas Gerais.
Na lista de alimentos indicados estão grãos e cereais integrais, frutas e vegetais verde escuros, amarelos e roxos – como brócolis, couve, mamão, cenoura, abóbora, berinjela e beterraba –, frutas cítricas, oleaginosas, alho e peixes de água fria. “Esses alimentos contêm betacaroteno, vitaminas C e E, curcumina, resveratrol, antocianinas e ômega 3, fitoquímicos que desempenham função protetora antioxidante, antifúngica, anti-inflamatória e bactericida”, enumera a nutricionista Letícia Pacífico de Queiroz Salustiano, doutoranda na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Assim, o consumo constante de alimentos anti-inflamatórios colabora para a prevenção e o controle de enfermidades crônicas como diabetes, doenças cardiovasculares e obesidade, aumenta o aporte de vitaminas e minerais, melhora o funcionamento do intestino e gera mais disposição e energia.
Dependendo da enfermidade, podese estimular o consumo de substâncias que atuam de forma mais efetiva, como açafrão da terra (cúrcuma), que age positivamente nas artrites e doenças inflamatórias intestinais; catequinas presentes no chá verde, auxiliares no tratamento da obesidade com inflamação de baixo grau e na hipercolesterolemia; e resveratrol presente nas uvas, que auxilia na prevenção e no controle de doenças cardiovasculares. Além de mediar processos inflamatórios, as substâncias presentes neste grupo alimentar são ricas em fibras, que aumentam a saciedade, melhoram o funcionamento intestinal, o equilíbrio da microbiota e a absorção de nutrientes, regulam a glicemia e são antioxidantes, retardando o envelhecimento das células e melhorando o perfil lipídico. “Esses alimentos podem ajudar a prevenir, controlar ou aumentar o tempo de remissão de diabetes, hipercolesterolemia, retocolite ulcerativa, doença de Crohn e síndrome do intestino irritável, doenças cardiovasculares e até mesmo câncer”, afirma a pesquisadora e nutricionista Cristina Henschel de Matos, especialista em Fitoterapia Aplicada à Nutrição Clínica.
Embora receba o nome de dieta anti-inflamatória, o médico cirurgião vascular Alexandre Amato, autor do livro Dieta Anti-inflamatória Estratégica e professor doutor de Cirurgia Vascular da Universidade Santo Amaro (UNISA), afirma que é a reeducação alimentar que vai evitar o desencadeamento e a manutenção da inflamação. “É preciso abranger uma variedade de alimentos para que o paciente consiga seguir a dieta por um longo tempo e para que o organismo receba todos os fitonutrientes necessários. A Organização Mundial da Saúde recomenda que a ingestão calórica seja dividida em 40% a 50% de carboidratos, 30% de gorduras e 20% de proteínas”, detalha.
Todo cuidado para evitar o efeito inverso
Em contrapartida, o consumo elevado de alimentos com alto índice glicêmico, pobres em fibras e ricos em gordura trans ativa o sistema imune inato levando à excessiva produção de mediadores pró-inflamatórios, com concomitante redução dos anti-inflamatórios. O estado constante de inflamação do organismo gera edema, inchaços, vasodilatação, dores frequentes e até febres. Na lista de alimentos inflamatórios estão os ultraprocessados – assim chamados porque perderam a característica da matériaprima – e aqueles ricos em açúcar e gordura saturada, a exemplo de salgadinhos, refrigerantes, biscoitos, doces e embutidos. Em longo prazo, o consumo constante desses alimentos leva à inflamação crônica, que começa no intestino e, na maioria das vezes, provoca uma disbiose e hiperpermeabilidade intestinal, tornando-se um gatilho para uma série de doenças, intolerâncias e alergias.
Os especialistas ressaltam que o efeito inflamatório de alguns alimentos pode variar conforme o organismo, e o mesmo tende a ocorrer com aqueles considerados anti-inflamatórios. Muitas vezes, por falta de conhecimento sobre a influência da dieta na qualidade de vida ou devido a diagnósticos imprecisos, os pacientes tratam apenas os sintomas e não as causas da inflamação, podendo ser submetidos a intervenções desnecessárias. O médico Alexandre Amato afirma que é preciso ter atenção especial com a lactose e o glúten, porque podem desencadear intolerância alimentar em algumas pessoas, com aumento da reação inflamatória. “Os efeitos costumam ocorrer em 24, 48 e até 72 horas após a ingestão do alimento, fator que dificulta a correlação dos sintomas com a comida que pode ter gerado o mal-estar. No âmbito vascular, a intolerância alimentar pode provocar sensação de dor, cansaço e inchaço em membros inferiores”, orienta. Por isso, é necessário respeitar a individualidade de cada paciente e cabe ao profissional da saúde considerar a soma dos elementos que determinam o aparecimento de cada enfermidade, como predisposição genética, fatores ambientais e sociais, estresse, vulnerabilidade, sedentarismo e fator alimentar. A nutricionista Julia Silva e Oliveira lembra que é fundamental incentivar hábitos alimentares saudáveis na população, com aumento da atividade física regular, melhora da qualidade do sono e meios para lidar com o estresse do dia a dia.
Alimento e psoríase
A psoríase é uma doença autoimune, inflamatória e se manifesta na pele, nas unhas e no couro cabeludo, mas, na maioria das vezes, os indivíduos acometidos não percebem que a inflamação pode ser agravada pelos alimentos. O estudo ‘Perfil nutricional e consumo de alimentos inflamatórios e anti-inflamatórios de pacientes atendidos no ambulatório de psoríase de uma unidade de saúde-escola de Itajaí, SC’, desenvolvida na Universidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, avaliou o consumo alimentar desses indivíduos e identificou que a maioria apresentava excesso de peso e obesidade – considerada uma inflamação de baixo grau. O consumo de alimentos anti-inflamatórios por esse grupo era pequeno, com destaque apenas para o alho. Em contrapartida, entre os pró-inflamatórios ingeridos havia um alto consumo de carne vermelha.
Segundo a nutricionista Cristina Henschel de Matos, autora da pesquisa, o resultado deixou claro o desconhecimento sobre a importância da alimentação no tratamento da psoríase e mostrou a necessidade de trabalhar a nutrição como um coadjuvante no tratamento dessa e de outras enfermidades crônicas. “Trabalho há 11 anos com doenças inflamatórias intestinais e, nesses casos, fica muito claro o papel da dieta anti-inflamatória como coadjuvante no tratamento, melhorando significativamente os sintomas e auxiliando no aumento do tempo de remissão. Em doenças cardiovasculares e diabetes, o padrão anti-inflamatório também pode ser um grande aliado do tratamento, reduzindo as chances de eventos secundários”, pontua