Os soldados da dieta

Alimentos presentes no cotidiano de várias culturas, alho, cebola, cravo e canela vão além da simples função de temperar

Quando Hipócrates, o pai da Medicina, disse ‘que seu remédio seja seu alimento e que seu alimento seja seu remédio’, há mais de 2 mil anos, a alimentação saudável já era reconhecida como grande aliada na manutenção da saúde. Ao longo dos séculos, dentro do vasto cardápio de alimentos presentes em diferentes culturas, existem alguns que têm sido classificados como ‘soldados da saúde’ por conterem altos valores nutricionais e medicinais, e por estarem diretamente relacionados à robustez do sistema imunológico. Com o avanço das pesquisas relacionadas aos alimentos funcionais, alguns ingredientes ganharam ainda mais importância, como alho, cebola, cravo e canela, que são fontes de diversas substâncias de ação terapêutica e devem ser presença constante no cardápio de crianças, adultos e idosos.

Alho e cebola fazem parte da culinária mundial há muitos séculos e sempre foram valorizados por suas propriedades medicinais. Já no período romano (entre 27 a.C. e 476 d.C), soldados mastigavam alho para ganhar força e enfrentar as batalhas, e nos primeiros Jogos Olímpicos na Grécia (776 a.C.), era consumido como estimulante pelos atletas. Rico em compostos sulfurados, principalmente alicina, com suas propriedades antibacterianas e antivirais, o alho também possui vários minerais fundamentais ao organismo, como potássio, cálcio e magnésio. A cebola também é rica em fibras e vitaminas como tiamina (vitamina B1), riboflavina (vitamina B2), vitamina C e minerais como cálcio, ferro, fósforo, magnésio, potássio, sódio e selênio, além de compostos sulfurados. Por sua ação expectorante, limpa as vias respiratórias e ajuda em casos de bronquite e resfriado.

Em parceria com o alho, a cebola contribui com a saúde cardiovascular, evitando tromboses; melhora a circulação e atua até mesmo na prevenção da asma. A pesquisa ‘Garlic and onions: their cancer prevention properties’, de coautoria do National Cancer Institute, nos Estados Unidos, enaltece que estudos epidemiológicos indicam algumas associações protetoras do consumo de alho e de cebola contra alguns tipos de câncer, particularmente do trato gastrointestinal, devido aos potenciais compostos. “Nesta questão preventiva e de defesa, o alho e a cebola exercem uma ação antimicrobiana e anti-inflamatória para defender o nosso organismo em relação às bactérias e aos vírus com os quais estamos constantemente em contato”, acentua a engenheira agrônoma Maria Cláudia Silva Garcia Blanco, da Divisão de Extensão Rural da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (Dextru-CDRS) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo.

Além de proverem nutrientes, esses alimentos contêm uma grande quantidade de compostos bioativos considerados funcionais, que favorecem para que a microbiota intestinal seja bem nutrida e com predominância de bactérias comensais. Como a microbiota intestinal está estreitamente relacionada ao sistema imune, consequentemente, esses alimentos colaboram para a proteção do organismo contra a ação de invasores. “A microbiota intestinal é formada por um pool de trilhões de bactérias que fazem com que a modulação do sistema imunológico seja adequada e capaz de defender o organismo de todo e qualquer malefício que possa desencadear um processo inflamatório e infeccioso”, acentua o médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

Termogênicos

Muito usados na culinária mundial, tanto o cravo quanto a canela são conhecidos por serem especiarias termogênicas, embora também possuam substâncias bioativas com ação terapêutica. Na época das grandes navegações, por exemplo, um quilo de cravo seco valia um quilo de ouro por causa das propriedades antissépticas e de conservação da especiaria. Um estudo da Universidade Miguel Hernández, na Espanha, também mostra que o cravo é o melhor tempero antioxidante que existe, por conter altos níveis de compostos fenólicos, além de apresentar a maior capacidade de liberar hidrogênio, reduzir a peroxidação lipídica e ser um redutor de ferro. O cravo também é antiespasmódico, carminativo (combate gases intestinais), antiagregante plaquetário, antioxidante e antimicrobiano.

A canela tem propriedades anti-inflamatória, tônica, adstringente e antimicrobiana. Por isso, é recomendada para o controle de sintomas de gripes, resfriados, estados febris, tosse e afecções de vias respiratórias. Como é antialérgica, também pode ser aliada contra rinites, especialmente as provocadas por frio e umidade; dores no estômago, flatulência e náuseas. Embora o uso de canela no Brasil seja restrito às preparações doces e aos chás, a especiaria é amplamente utilizada em preparações salgadas na Índia e em países do Oriente. O médico nutrólogo Durval Ribas Filho ressalta que a dupla cravo e canela também reduz o índice glicêmico dos alimentos, fazendo com que o organismo não produza tanta insulina. “Não é fisiológico ter as chamadas incursões insulínicas, que acontecem quando há o consumo excessivo de açúcares e carboidratos. Então, é importante a ingestão associada de alimentos que melhoram a ­sensibilidade insulínica e o controle glicêmico. Um exemplo é o uso da canela junto com a banana, sendo uma ótima opção para pacientes diabéticos”, ensina.

Uso reconhecido na fitoterapia

A utilização de alho, cebola, cravo e canela tem ganhado força com a fitoterapia, prática integrativa e complementar que estuda as funções terapêuticas das plantas e dos vegetais para tratar doenças, melhorar o organismo e atuar na prevenção de problemas de saúde. Com a adoção da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde (SUS), em meados dos anos 2000, surgiu a oportunidade de ampliar os conhecimentos em relação ao benefício das plantas medicinais por meio da estruturação das chamadas Farmácias Vivas, que realizam as etapas de cultivo, coleta, processamento e armazenamento de plantas medicinais, assim como preparação e dispensação de produtos magistrais e oficinais de plantas medicinais e fitoterápicos. E é também no sistema público de saúde que se observa um maior incentivo na capacitação dos médicos e de outros profissionais para uso de alimentos como adjuvantes nos tratamentos.

“O investimento na fitoterapia é promissor e deve ser inserido em populações que não possuem renda suficiente para manter os custos com a saúde, como é o caso da maioria dos brasileiros”, destaca o pesquisador e doutor em Enfermagem José Claudio Lira, que trabalhou na Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2018 e observou a indicação dessas práticas, em especial para pessoas com doenças crônicas. Para ampliar o uso, o pesquisador sugere mais divulgação sobre o tema e incentivo ao desenvolvimento de pesquisas em diferentes grupos e locais, assim como o reconhecimento do uso de alimentos no tratamento coadjuvante pelos profissionais da saúde.

A doutora em fármacos e medicamentos Nilsa S. Y. Wadt, coordenadora do Grupo Técnico de Trabalho de Plantas Medicinais e Fitoterápicos do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP), lamenta a perda, nos dias atuais, da etnofarmacologia – ciência que estuda o conhecimento popular sobre fármacos relacionados a sistemas tradicionais de Medicina. “O conhecimento popular existe há muitos anos, mas é cada vez menos difundido pela perda da tradição e por desinteresse de estudos, havendo assim falta de comprovação científica, além do uso cada vez mais amplo de medicamentos alopáticos”, acentua. Segundo a especialista, o óleo de cravo, por exemplo, é ótimo para curar micose de unha, enquanto a cebola sempre foi grande aliada para combater furúnculos, grandes espinhas e até picada de inseto, quando colocada sobre o local afetado, por aumentar a circulação sanguínea e eliminar as bactérias.

Estudo brasileiro com canela

O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é uma doença crônica cujo número de casos está aumentando em todo o mundo. Como os tratamentos usados atualmente não funcionam como esperado, medicamentos alternativos e complementares foram inseridos nos serviços de saúde, principalmente na atenção básica, na tentativa de minimizar os riscos. Entre os fitoterápicos utilizados destaca-se a canela, que foi tema de pesquisa realizada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com outras instituições. Publicado no Journal of the American College of Nutrition, o estudo que avaliou a eficácia do uso da especiaria como um tratamento adjuvante na redução dos níveis glicêmicos em pacientes com diabetes tipo 2 foi realizado entre agosto e dezembro de 2019 com 160 pessoas com a doença, em cinco unidades básicas de saúde da cidade de Parnaíba, no Piauí.

Metade dos pacientes ingeriu diariamente quatro cápsulas de 3g de canela e o restante tomou placebo, ambos administrados em combinação com os agentes antidiabéticos orais habituais. Como resultado, observou-se a redução de -0,2% de hemoglobina glicada (HbA1c) e -10mg/dL de glicemia de jejum. “Parece pouco, mas os resultados são positivos diante da inércia clínica apresentada pelos pacientes que participaram da pesquisa. Chega uma fase no tratamento clínico do diabetes em que não há avanço, e a qualquer momento os valores glicêmicos podem aumentar e o paciente sofrer por complicações geradas pela doença”, ressalta o doutor em Enfermagem José Claudio Lira, principal autor do artigo. Com os resultados apresentados na pesquisa e a inclusão da canela na rotina desses pacientes, o pesquisador espera que, ao longo do tempo, possa haver um melhor controle e gerenciamento da enfermidade.

Outro fator relevante é que a canela pode ser incluída na rotina de todas as pessoas, por ser de fácil acesso e baixo custo. “A especiaria possui propriedades que agem na diminuição do esvaziamento gástrico, aceleram o metabolismo e ativam receptores de insulina, hormônio essencial para diminuir os níveis de glicose no sangue”, complementa o pesquisador. Por isso, além de resultados positivos no controle de açúcar no sangue, foi possível constatar até uma melhora nos níveis de colesterol e no peso dos pacientes investigados, quadro essencial para quem tem diabetes.