Dieta como aliada da saúde reprodutiva

Alimentação e hábitos de vida saudáveis podem influenciar na fertilidade de homens e mulheres

Ao mesmo tempo em que a alimentação rica e balanceada – aliada à prática regular de atividade física e ao controle da saúde – interfere positivamente na qualidade dos óvulos e embriões; estresse, sedentarismo, obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool e a escolha por dietas pobres em nutrientes e com excesso de açúcares, gorduras e sódio são capazes de desequilibrar a fisiologia da mulher, causando disfunções que podem refletir negativamente na capacidade reprodutiva. Nos homens, pode haver prejuízos na produção do sêmen e na quantidade, qualidade e motilidade dos espermatozoides. Apesar da inexistência de grandes evidências científicas sobre a ação exclusiva da alimentação na fertilidade humana, muitos especialistas defendem a potencial participação dos alimentos como aliados para uma melhor resposta da fertilidade.

No livro A Dieta da Fertilidade, lançado em 2007, os pesquisadores Jorge Chavarro e Walter C. Willett, da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, sugerem uma reeducação alimentar que aumenta as chances de fecundação. A proposta é substituir o consumo de carboidratos refinados, doces e café por leguminosas, frutas e carnes magras. O livro é resultado de oito anos de pesquisas realizadas com aproximadamente 18 mil mulheres que tentavam engravidar. “Pioneiro em associar hábitos alimentares e estilo de vida sobre a fertilidade, o estudo indicou que as mulheres com problemas exclusivos de ovulação que seguiram a dieta apresentaram queda importante nas chances de terem problemas de fertilidade”, comenta a médica Beatriz Truyts, especialista em Reprodução Assistida e nutróloga do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

A Dieta do Mediterrâneo também parece ter impacto positivo na fecundação. “Esse modelo nutricional combina ingredientes naturais, receitas e formas de cozinhar a um estilo de vida que respeita a cultura e os costumes locais, equilibrando os alimentos que podem contribuir, inclusive, para a saúde reprodutiva”, descreve o ginecologista Arnaldo Schizzi Cambiaghi, diretor do Centro de Reprodução Humana do Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia (IPGO) e um dos autores do livro Fertilidade e Alimentação. Segundo o especialista, ao elevar as concentrações de nutrientes importantes para o funcionamento do sistema reprodutor, mais especificamente vitaminas do complexo B e antioxidantes, essa dieta tende a melhorar as chances de gravidez. Na lista de preferências estão alimentos frescos e naturais, com grande diversidade de fitonutrientes; grãos e fibras para o bom funcionamento do intestino; azeite de oliva como principal fonte de gordura; produtos lácteos semidesnatados; ovos (em média quatro por semana); elevado consumo de peixes e frutos do mar e baixa ingestão de carne vermelha.

Suplementação também é indicada

Vitaminas e suplementos podem ser recomendados para suprir alguma deficiência nutricional relacionada à infertilidade. A médica Beatriz Truyts explica que, no geral, são priorizados o ácido fólico (vitamina B9 ou folato) ou metilfolato, imprescindível para os processos de divisão celular, síntese do DNA e formação das hemácias; vitaminas C e E, pelas ações antioxidantes e por contribuírem para a diminuição do risco de anomalias cromossômicas e promoverem a melhora da fertilidade feminina e masculina; ômega 3, importante aliado do sistema reprodutivo; e vitaminas do complexo B (principal- mente B6 e B12), que auxiliam na qualidade dos gametas.

Necessária para ajudar o organismo a produzir os hormônios sexuais responsáveis pela ovulação, a vitamina D participa da produção de estrogênio no ovário e aumenta a durabilidade dos espermatozoides. “Manter níveis de vitamina D acima de 30 tem sido associado com melhora da qualidade de embriões e a maiores taxas de gestação espontânea”, destaca a médica. Nos homens, a deficiência também está relacionada com queda da morfologia e motilidade, além de piora da qualidade seminal de forma global. Para a especialista, com dosagem adequada de vitamina D, pacientes com síndrome do ovário policístico e baixa reserva ovariana apresentam melhores resultados nos tratamentos de reprodução.

No entanto, o professor doutor Rui Alberto Ferriani, chefe do setor de Reprodução Humana e diretor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (HC-FMRP-USP) ressalta que os efeitos metabólicos da vi- tamina D precisam ser melhor investigados. “Faltam evidências científicas mais robustas que associem a vitamina D ao tratamento de problemas como endometriose, síndrome do ovário policístico e infertilidade”, alerta. As principais sociedades de Obstetrícia e Medicina Reprodutiva também não recomendam altas reposições de vitamina D para mulheres em idade fértil, mesmo durante a gestação, pois superdosagens podem trazer riscos à saúde.

PESO X FERTILIDADE 

O excesso de peso também pode interferir na capacidade reprodutiva, alterando os ciclos hormonais de homens e mulheres. O professor Rui Alberto Ferriani informa que, nas mulheres, os ciclos menstruais tornam-se irregulares e estão associados à disfunção ovulatória. Algumas mulheres com sobrepeso (IMC maior que 25kg/m2) podem desenvolver problemas mais graves, como síndrome do ovário policístico, interrupção ovulatória causada pelo hipotireoidismo e alterações na função do endométrio e da estrutura do óvulo, que comprometem a fertilização e a qualidade dos embriões. Pesquisas também revelam que mulheres muito magras (IMC menor que 17kg/m2) levam duas vezes mais tempo para engravidar do que aquelas com peso normal.

A médica Beatriz Truyts explica que o baixo percentual de gordura corporal provoca desequilíbrio hormonal e pode causar a interrupção da menstruação, afetando aproximadamente 20% das mulheres fisicamente ativas. “A adoção de uma dieta sem alimentos industrializados, ultraprocessados, com excesso de açúcar e carboidratos refinados é fundamental para a retomada da saúde. Para isso, é preciso orientação profissional para indicar, por exemplo, substituições corretas, planejamento alimentar, priorização de determinados alimentos, inclusão de nutrientes e correção da ingestão calórica de acordo com as necessidades diárias”, complementa o médico Arnaldo Schizzi Cambiaghi.

Já nos homens, o excesso de peso interfere diretamente na quantidade, mobilidade e qualidade dos espermatozoides, assim como no pH e na concentração do esperma, levando a uma alteração nos níveis de hormônio com menor produção de testosterona – o que pode causar perda da libido e dificuldade de ereção – e aumento do estradiol, que afeta os espermatozoides. Por meio do diagnóstico e da intervenção precoces para controle do peso é possível minimizar os efeitos do estado nutricional inadequado, melhorar a infertilidade ovulatória sem causa aparente (primária) e manter as reservas orgânicas de vitaminas, nutrientes e minerais necessárias para o adequado funciona- mento do sistema reprodutor. “Hábitos mais saudáveis, com baixo consumo de álcool e tabagismo, prática direcionada e regular de atividade física, boa qualidade do sono e controle do estresse também ajudam”, completa o professor Rui Alberto Ferriani.