Brincar é essencial para o desenvolvimento

Correr no parque, pular corda e jogar bola, entre outras atividades, devem fazer parte da infância

No artigo ‘A brincadeira e o seu papel no desenvolvimento psíquico da criança’ – que foi tema de uma palestra proferida em 1933 no Instituto Gertsen de Pedagogia, em Leningrado, e publicado no livro Psikhologia Razvitia Rebionk, em 2004 – o psicólogo russo Lev Semionovitch Vigotski destaca que ‘a brincadeira não é uma forma predominante de atividade, mas, em certo sentido, um dos principais fatores do desenvolvimento na idade pré-escolar’. Nas últimas décadas, muitos estudos no campo da Psicologia têm comprovado que as brincadeiras são a matéria-prima para as crianças desenvolverem habilidades motoras, linguísticas, sociais, emocionais e cognitivas. Portanto, correr no parque, pisar no barro, subir em árvores, pular corda e jogar bola são algumas das brincadeiras que devem fazer parte da infância.

A médica pediatra Ana Márcia Guimarães Alves, membro do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), ressalta que o brincar é o ‘ócio criativo’ de que toda criança precisa para se desenvolver. Por meio do contato com o mundo, da vivência, do parquinho, da brincadeira com o outro, da textura, do barulho, da cor e da manipulação dos brinquedos é possível desenvolver aspectos sensoriais e cognitivos fundamentais na infância. “O ócio criativo é quando a criança pode preencher seu tempo livre com brincadeiras sem cobranças. É nas brincadeiras livres que as crianças conseguem desenvolver aspectos motores, sociais, emocionais e de linguagem, além de aprenderem a interagir com os outros, lidar com frustrações e saber esperar a sua vez”, acrescenta.

Os pais devem fazer parte desse processo de aprendizagem sendo ativos nas brincadeiras, porque as crianças precisam de um mediador que esteja próximo para ajudá-las a descobrir coisas novas. A pediatra enfatiza que a criança precisa do apoio físico, emocional e cultural dos cuidadores, que são os responsáveis por essa mediação para que a criança possa dar o passo seguinte para continuar suas descobertas. “Os adultos são fundamentais em alguns momentos das brincadeiras, porque o brincar é aprendido através do processo da imitação e o primeiro tipo de jogo que a criança faz é repetir aquilo que os adultos fazem. Daí o interesse pelo computador ou pelo celular, por exemplo”, complementa a professora titular da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da Instituição, Maria Angela Barbato Carneiro.

Cada fase da vida da criança vai exigir uma interação diferente e estímulos para desenvolver o lado físico, emocional e intelectual. O psicólogo e professor doutor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Marcelo Alves dos Santos, explica que a fase cognitiva – até os 12 anos de idade – evolui gradativamente e, quanto mais estímulos a criança receber, mais se desenvolverá. “Até os dois anos, a criança vai passar pelo processo de reconhecimento dela mesma e isso começa com o brincar com as mãos, os cabelos, tocar o rosto do pai, da mãe e de si mesmo. Assim, vai se descobrindo, criando formas, associando nome aos objetos”, detalha. Nesta fase, embora a criança brinque, ainda não tem a capacidade de distinguir entre o jogar (play) e o jogo (game). Depois dos três anos de idade é que começa a entender o jogo e suas respectivas regras e passa a evoluir em habilidades e competências.

A professora da PUC-SP ressalta que as crianças até podem se divertir sem brinquedos, embora esses objetos sejam um elemento a mais para fazer com que evoluam a cada etapa do desenvolvimento. Para que a criatividade seja mais estimulada, especialmente na fase cognitiva, recomenda-se brinque dos e jogos de montagem que permitam criar figuras, imaginar personagens e montar ambientes. “A atenção da criança para um brinquedo ou objeto costuma durar alguns minutos. No entanto, essa atenção pode levar mais tempo de acordo com seu interesse quando, por exemplo, está brincando com uma caixa de papelão, porque pode colocar na cabeça ou entrar, ou com brinquedos de montar que estimulem o raciocínio e a criatividade”, acentua.

TECNOLOGIA

Embora a tecnologia não seja necessariamente ruim na infância, é preciso haver equilíbrio entre ficar muito tempo no computador, brincar e interagir com outras crianças. “A criança é capaz de fantasiar, imaginar e criar através da brincadeira, tanto é que muitos terapeutas usam as brincadeiras de faz de conta para que possa externar o que sente. E essa relação que a criança tem com seu corpo é que permite tomar conhecimento do mundo à sua volta por meio do tocar, sentir e ouvir. Por isso, o uso excessivo da tecnologia pode trazer, em médio e longo prazo, sérios problemas de motricidade”, alerta a professora Maria Angela Barbato Carneiro. A SBP também tem recomendações sobre brinquedos eletrônicos: tempo zero de tela para crianças de até dois anos de idade; apenas uma hora até cinco anos; em torno de duas horas para crianças de 6 a 11 anos e o mínimo possível na adolescência.

Contato com a natureza

As brincadeiras ao ar livre, preferencialmente em contato com a natureza e os animais, contribuem para o bem-estar integral de crianças e adolescentes e melhoram a imunidade, a memória, o sono e as capacidades físicas, de aprendizagem e sociabilidade. Brincar na natureza é tão importante que virou tema do manual de orientação ‘Benefícios da Natureza no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes’, lançado em 2019 pela SBP em parceria com o Instituto Alana. A coordenadora do projeto ‘Criança e Natureza’ do Instituto Alana, Laís Fleury, explica que neste ambiente mais amplo a criança vai correr, escalar, subir e descer, mantendo uma conexão fundamental com seu próprio corpo, o que vai deixá-la mais saudável física, emocional e socialmente. Outra vantagem está em dar asas à imaginação, quando um pedaço de pau pode se transformar em uma vassoura, uma pedra vira um carrinho e uma folha pode ser um avião, por exemplo.

“São muitos benefícios, porque é um ambiente inclusivo, no qual todos gostam de estar. A natureza tem um poder restaurador em trazer bem-estar, contribuir para a vazão emocional e acolher quando a pessoa tem necessidade de ficar mais reflexiva”, enumera. As vivências nas brincadeiras ao ar livre também colocam as crianças em contato com muitas texturas, cheiros e formas, propiciando uma experiência sensorial que dialoga com a necessidade de aprendizado da infância. Além disso, o contato com o sol por, pelo menos, 15 minutos por dia, é fundamental para a produção de vitamina D que, entre outras funções, ajuda na regulação e na melhora da imunidade.