Parassonias assustam as madrugadas
Fernanda Ortiz Especial para Super Saudável
Entre os Distúrbios do sono que fazem parte deste grupo estão terror noturno, pesadelos, sonambulismo, alucinações e paralisia do sono
De acordo com o Manual de Classificação de Distúrbios do Sono, as parassonias são eventos físicos ou sensações indesejáveis que ocorrem durante o sono REM (Rapid Eye Moviment), o sono não REM (NREM – Non-rapid Eye Movement) ou transições do sono, e estão divididas em três grupos. As parassonias do sono NREM incluem sonambulismo, terror noturno, despertar confusional e distúrbio alimentar relacionado ao sono; as do sono REM envolvem distúrbio comportamental do sono REM, pesadelos e paralisia do sono. No terceiro grupo estão manifestações como alucinações relacionadas ao sono, enurese do sono, gemido relacionado ao sono (catatrenia), síndrome da cabeça explodindo e parassonias produzidas por fármaco ou decorrentes de condição médica.
A infância é o período mais afetado por esses distúrbios durante o sono, mas, em geral, os eventos não trazem danos ao aprendizado ou ao desenvolvimento e vão diminuindo de acordo com o crescimento da criança, tornando os episódios cada vez mais raros até desaparecerem por completo na adolescência. O terror noturno é uma das parassonias que mais afligem os pais, porque as crianças acordam de madrugada de forma abrupta e com choro e gritos intensos, e sentam na cama com face de terror seguida por intensa manifestação autonômica com taquicardia, taquipneia, rubor de pele, sudorese e dilatação das pupilas. Assim que o episódio termina – o que pode durar entre poucos segundos e alguns minutos –, ocorre o retorno ao sono e, no dia seguinte, pode ocorrer uma amnésia total do ocorrido.
O terror noturno tem caráter autolimitado e não traz danos ao desenvolvimento neuropsicomotor. As ocorrências podem ter como causas desencadeantes o cansaço extremo, a privação do sono, fatores exteriores como luzes e barulhos, ansiedade e até mesmo crises respiratórias. “Com alta prevalência na infância, o terror noturno ocorre geralmente no estágio N3 do sono NREM – sono de ondas lentas ou sono delta –, entre 30 minutos a duas horas depois do dormir, devido a uma alteração na transição entre o sono e o despertar ”, detalha a neuropediatra Katia MRS Schmutzler, médica assistente da disciplina de Neurologia Infantil e da divisão de Neonatologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mais frequente em crianças com idade entre 4 e 12 anos, o terror noturno tem redução progressiva e raramente acomete adultos.
Diversos estudos apontam que a prevalência de casos é de aproximadamente 6% nas crianças, 2,3% em adolescentes e menor que 1% em adultos, e podem se manifestar no início, durante o sono ou ao despertar. Segundo a médica especialista em Medicina do Sono Erika Treptow, pesquisadora do Instituto do Sono de São Paulo, durante o período noturno o cérebro apresenta variações do estado de consciência entre estar acordado (vigília), sono NREM mais presente na primeira metade da noite e sono REM, mais prevalente na segunda metade do sono. “As parassonias ocorrem em momentos nos quais há transições abruptas entre estes estados de consciência, podendo se manifestar, por exemplo, em episódios de terror noturno. É como se o cérebro continuasse dormindo enquanto o corpo permanecesse ativo”, descreve.
O neurologista Alan Luiz Eckeli, docente do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), explica que em boa parte dos pacientes o terror noturno é antecedido por outro despertar do sono NREM. “Geralmente, o primeiro episódio de parassonia que se manifesta é o despertar confusional, em que o indivíduo fica restrito ao leito, chega a sentar e observar o ambiente de maneira confusa, mas sem apresentar características mais impulsivas. Sua prevalência chega a 17,3% em crianças de 3 a 13 anos, diminuindo a incidência após os cinco anos de idade. Assim como o terror noturno, que passa a acontecer mais tarde, não oferece risco à saúde”, garante.
Embora não tenha uma causa definida, os especialistas apontam condições predisponentes como fatores hereditários, podendo ocorrer em vários membros da família; idade, sendo mais prevalente no período pré-escolar; privação do sono por ausência de rotina no horário para dormir; passar a noite em ambiente pouco familiar; barulhos e luzes externos como, por exemplo, um televisor ligado. “No geral, não há com o que se preocupar, mas, quando acontecem com frequência, é preciso investigar os fatores estressantes, ou seja, tudo que fragmenta o sono e faz com que a criança acorde à noite ou apresente os episódios. É possível, inclusive, que a causa seja uma desordem interna, como febre, resfriado, crise de asma, dor crônica ou estressores psicológicos, a exemplo de ansiedade, que precisam ser observados”, orienta a neuropediatra Katia MRS Schmutzler.
Mesmo que não seja motivo de alerta, sempre que as crises se tornarem frequentes (mais de uma vez na semana), apresentarem interrupções constantes de sono, queda na produtividade da criança, desconforto, prejuízos físicos ou emocionais, um especialista deve ser procurado. “Ao estabelecer o correto diagnóstico, que pode ser realizado por um neurologista, pediatra, psicólogo, psiquiatra ou médico do sono, será possível identificar e controlar os fatores estressores para diminuir a frequência das crises, indicar uma polissonografia quando necessário, observar a associação com outras condições médicas e, se for o caso, iniciar o tratamento medicamentoso”, enfatiza o neurologista Alan Luiz Eckeli. Nesse processo, é importante que o especialista tranquilize os pais para que entendam que o terror noturno não é uma condição grave, pode ter os episódios reduzidos e que, certamente, desaparecerá com o tempo sem deixar sequelas.
Para reduzir a ocorrência dos episódios, algumas medidas simples podem ser adotadas pelos pais. A médica Erika Treptow sugere manter hábitos saudáveis de sono, com horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana; evitar atividades estimulantes perto do horário de dormir; prevenir para que a criança não fique muito estressada; certificar-se de que a criança dorme o suficiente e evitar a ingestão de bebidas que contenham cafeína ou açúcar à noite. “Nos casos de crises frequentes, além da busca por profissional habilitado, recomenda-se manter um ambiente seguro no local de sono, como colocar o colchão no chão, deixar as portas e janelas trancadas e afastar objetos que possam trazer algum risco, uma vez que os movimentos de braços são frequentes e descontrolados. É importante ressaltar que, durante os episódios, não é recomendado acordar a criança porque, além de ser difícil de despertar, pode intensificar os sintomas com aumento de agitação”, ensina.
Distúrbios com características distintas
Apesar de muito parecidos, terror noturno e pesadelo são distúrbios do sono com características distintas. A principal diferença está no período do sono em que ocorrem. Enquanto o terror noturno se manifesta no sono NREM, os pesadelos são mais frequentes na segunda metade da noite, durante o sono REM. “Os pesadelos, muito frequentes entre os 3 e 6 anos de idade, ocorrem durante o sono, porém, ao acordar, a criança tem compreensão do que sonhou e seu medo vem à tona, enquanto no terror noturno a criança pode não ter consciência de seus atos, mostrar-se confusa e raramente ocorre lembrança do que vivenciou enquanto dormia”, descreve a médica Erika Treptow. Outra diferença é que muitos indivíduos que apresentavam pesadelos na infância têm uma chance maior de mantê-los na vida adulta.
Os pesadelos fazem parte do processo de desenvolvimento infantil. Como as crianças estão descobrindo novas experiências, criam um mundo de fantasias que pode se refletir na hora do sono. “Sonhos e pesadelos começam a ocorrer por volta dos três anos, quando já se observa um bom nível de maturação do sistema nervoso central, o que possibilita que o indivíduo interprete se o que vivenciou durante o sono foi bom ou ruim. Quando causa sentimentos de medo, ansiedade e receio caracteriza o pesadelo”, esclarece o neurologista Alan Luiz Eckeli. No geral, deixar que a criança fale sobre o que sonhou e tranquilizá-la já é o suficiente. Mas, quando a frequência passa a ser maior e o medo vira um sentimento constante, principalmente quando escurece e se aproxima da hora de dormir, é fundamental que a criança seja avaliada por um especialista que indicará a necessidade ou não de acompanhamento clínico ou psicológico.
Outra parassonia do sono NREM presente na infância é o sonambulismo, caracterizado por comportamentos motores estereotipados e automáticos, associados à amnésia dos eventos. “Com duração de poucos minutos a meia hora, os episódios podem ser calmos ou agitados, associados a um caminhar rápido, falar ininteligível ou reação agressiva quando o indivíduo é constrangido. Apesar de o sonambulismo não ser propriamente perigoso, é bom lembrar que a criança pode envolver-se em situações perigosas, como sair de casa ou subir em janelas”, alerta a neuropediatra Katia MRS Schmutzler.
Com prevalência variável entre 1% e 17% na faixa etária de 8 a 12 anos, o sonambulismo é autolimitado, desaparecendo geralmente aos 10 anos de idade. Entre as possíveis causas estão histórico familiar, enurese noturna, terror noturno e sonilóquio (falar durante o sono). Como é tipicamente observado em crianças, não há tratamentos indicados. O ideal é que os pais adotem medidas de proteção para evitar acidentes.
Paralisia do sono é mais comum na adolescência
Uma das experiências mais assustadoras é a paralisia do sono, em que o indivíduo tem a consciência de estar acordado, mas não consegue se mexer ou falar. Apesar de causar uma sensação sufocante de enclausuramento e impotência, essa situação é relativamente comum e não traz prejuízos à saúde. Segundo os especialistas, pode acometer um em cada quatro indivíduos em algum momento da vida, embora seja mais frequente durante a adolescência. Apesar de os episódios parecerem extensos para quem os vivencia, costumam durar de 20 segundos a dois minutos. O distúrbio parece estar associado a outras perturbações e condições causadas especialmente pela privação de sono ou pela falta de rotina para dormir.
A paralisia do sono ocorre quando há uma dissociação entre as atividades cerebral e corporal, em que a consciência se recupera primeiro na transição entre o dormir (estado de sono) e acordar (vigília). “Este é um distúrbio que ocorre durante o sono REM, fase do sono em que a musculatura costuma ficar imóvel. Na paralisia do sono é como se o cérebro estivesse acordado e consciente, enquanto o corpo segue dormindo e sem capacidade de movimentação”, descreve a médica Erika Treptow. Indivíduos que já passaram por essa experiência a descrevem como assustadora, estressante e muito desconfortável.
Durante esses episódios, além da sensação de não conseguir mover o corpo há inúmeros relatos de alucinações. “Isso ocorre porque o cérebro permanece em um estado de atenção excessiva e espera por uma espécie de ‘ataque’, pois se vê observado por outras pessoas – às vezes com fisionomias assustadoras, enxerga sombras, sente outras presenças no quarto, ouve vozes e outros ruídos, e ainda pode ter a sensação de que está caindo, flutuando, abandonando o corpo ou como se algo o estivesse tocando ou pressionando. Essa percepção real de algo que não existe faz com que a pessoa acorde assustada e com dificuldades para respirar”, comenta o médico Alan Luiz Eckeli. Por mais difícil que pareça, em um episódio de paralisia do sono o indivíduo deve tentar não fazer força para se mexer e focar na respiração para se acalmar. Caso isso não funcione, deve mexer os dedos dos pés, piscar ou tentar fazer movimentos com a face (como uma careta) para auxiliar o corpo a despertar.
A paralisia do sono pode estar relacionada ao cansaço físico e emocional, pois, entre os fatores recorrentes estão estresse, sono insuficiente ou rotina irregular de sono, dormir na posição supina (de barriga para cima), má alimentação, alta ingestão de bebidas alcoólicas ou que contêm cafeína e abuso de substâncias químicas. “Na maioria dos casos, os episódios são limitados e não apresentam risco. Entretanto, no aumento da frequência é preciso investigar se o problema está relacionado a outras doenças que têm entre seus sintomas as alucinações como, por exemplo, distúrbios psiquiátricos, epilepsia e narcolepsia, um distúrbio do sono caracterizado principalmente pela sonolência excessiva diurna”, acentua a médica Erika Treptow. Com o diagnóstico correto será possível indicar o tratamento mais adequado que, a depender de cada indivíduo, pode ser apenas através de mudanças de hábitos ou do uso de medicamentos, visando reduzir ou cessar as crises.