Nova perspectiva frente ao alimento
Fernanda Ortiz Especial para Super Saudável
Mindful eating e Nutrição comportamental propõem maior satisfação e plenitude em relação à alimentação
Mesmo que a relação entre nutrição e saúde esteja cada vez mais em pauta e as informações sejam mais acessíveis, persiste uma visão distorcida do que é uma alimentação saudável, tanto do ponto de vista nutricional quanto comportamental. Diante disso, alguns novos conceitos têm surgido com objetivo de auxiliar as pessoas a terem uma melhor relação com os alimentos. Dois desses conceitos se complementam: o Mindful eating, que promove atenção plena na alimentação, permitindo escolhas e experiências alimentares mais conscientes; e a Nutrição Comportamental, que sugere um novo olhar na prática clínica, ampliando a atuação do nutricionista de maneira mais humana e inclusiva para que possa auxiliar o paciente a melhorar a forma como vê e se relaciona com a comida.
Criado na década de 1990 pela psicóloga Jean L. Kristeller, pesquisadora e docente na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, o Mindful eating (Comer Consciente ou Comer com Atenção Plena) tem como proposta uma alimentação que cultive uma reconexão com o lado humano ao promover maior satisfação, gentileza, curiosidade e plenitude em relação aos alimentos. O conceito é baseado no Mindfulness que, segundo Jon Kabat-Zinn é ‘a consciência que surge quando prestamos atenção com propósito no aqui e agora, e sem julgamentos’. Essa consciência plena é cultivada por meio de um conjunto de práticas que desenvolve a capacidade de estar plenamente presente e de se conectar com a sabedoria interna, a partir da meditação, oferecendo como benefícios mais concentração, redução da ansiedade e do estresse, melhora na qualidade do sono e da memória, além de estimular a criatividade e gerar inteligência emocional.
Segundo o médico nutrólogo Andrea Bottoni, doutor em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e instrutor de Mindful eating, essa prática possibilita experiências mais conscientes, fazendo com que o ato de alimentar-se seja mais profundo e respeitoso com as escolhas do que vai ao prato, o convívio e o prazer de comer. A estratégia visa estimular os sentidos para que o indivíduo tenha maior percepção do seu próprio corpo, distinguindo necessidades fisiológicas e psicológicas como fome e saciedade. O médico lembra que, em grande parte do dia, enquanto muitas ações estão no estado multitarefa, as chances de comer sem ter fome ou em excesso são muito maiores. “Durante a refeição é preciso ter calma, apreciar e reverenciar os ingredientes, sentir os aromas, os sabores e a temperatura, observar as cores e texturas e ouvir a crocância dos alimentos. Aprender a observar as emoções durante a refeição, sentir as memórias afetivas, procurar relaxar e contemplar são alguns dos objetivos da técnica”, enfatiza. Para atingir esse nível de apreciação não é preciso necessariamente estar sozinho nem em uma refeição especial, pois a prática deve ser adotada no dia a dia e, com o tempo, transformar-se em um processo natural.
Diversos estudos apontam que o Mindful eating oferece importantes benefícios à saúde, principalmente para quem busca uma relação harmoniosa com a comida e para aqueles que sofrem com o comer transtornado ou a compulsão alimentar. A professora doutora Fabiane Rezende, nutricionista e instrutora certificada de Mindful eating para Promoção da Saúde pela Unifesp, acentua que para tornar a relação com a alimentação mais equilibrada é preciso, muitas vezes, cultivar um olhar curioso, como o de uma criança com a comida. “A ideia é comer com atenção plena, sem julgamentos, abrindo-se para experimentar novas texturas e preparações, novos sabores e ingredientes, aumentando o repertório alimentar e melhorando, consequentemente, a qualidade nutricional da alimentação. Desta forma, o indivíduo vai se percebendo, observando e aprendendo naturalmente a cultivar novas atitudes alimentares e autonomia alimentar, que surgem com a prática diária do Mindful eating”, analisa.
O conceito promove, ainda, uma conexão entre corpo e alimento, uma vez que o indivíduo passa a perceber o benefício que aquele ingrediente oferece de maneira consciente e intuitiva e, a partir daí, consegue definir suas escolhas alimentares baseadas naquilo que funciona melhor para seu organismo e sua saúde, preservando questões pessoais e culturais. Os instrutores ressaltam que não se trata de uma dieta para perda de peso – embora isso possa ocorrer durante o processo –, mas sim de uma abordagem na forma de estar, sentir e se relacionar com o corpo e com o alimento. “A ideia não é que o indivíduo seja o fiscal que controle tudo o que come. Pelo contrário, é descobrir uma forma de assumir o comando e o poder de escolha de forma consciente. É desafiador e recompensador, pois promove uma relação mais equilibrada e harmoniosa com os alimentos”, garante a nutricionista Fabiane Rezende.
Para conquistar os benefícios que a consciência alimentar promove, o nutrólogo Andrea Bottoni afirma que é preciso se concentrar exclusivamente na refeição. “Através da respiração, perceba pensamentos, emoções, sensações e os sinais que o corpo dá, o que ajuda a identificar a fome, a saciedade, o prazer. Viva o momento da refeição com plenitude, respeite o ato de se alimentar e conecte-se com o que está no prato”, orienta. Algumas atitudes simples podem ajudar a praticar o Mindful eating no dia a dia como, por exemplo, alimentar-se com calma e não pensar em calorias; comer sem distrações, deixando de lado dispositivos eletrônicos; escolher um local adequado para as refeições, sentando-se confortavelmente e descansando os talheres durante a mastigação; observar os alimentos que irá ingerir; ter gratidão por todo o caminho que percorreu até chegar à mesa e fechar os olhos para sentir com mais intensidade cada sabor, textura e aroma.
Alimentação completamente sem culpa
Dietas das mais diversas, focadas especialmente no controle de peso, impõem restrições, categorizam alimentos por nutrientes, propriedades e benefícios, delegam quantidades e horários de refeições e seguem associando o prazer em comer à culpa, colocando em xeque as escolhas, necessidades e preferências individuais. Para transformar essa relação de amor e ódio com a comida surgiu, em 2014, a Nutrição Comportamental, com a proposta de mudança de comportamento relacionada principalmente ao profissional que atende o paciente, que precisa deixar de ser prescritivo e atuar de forma mais humanizada.
“A abordagem exclusivamente biológica da alimentação é limitada, pois considera hábitos, preferências, acessos culturais e sociais do paciente como algo secundário. Assim, a alimentação passa a ser tratada como um meio e não como o ponto principal em qualquer processo de melhora da saúde e da qualidade de vida”, avalia a professora doutora em Nutrição Marle Alvarenga, orientadora do Programa de Pós-graduação em Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e uma das idealizadoras do Instituto Nutrição Comportamental.
O conceito não é uma nova especialização da área, mas um conjunto de modelos, teorias e práticas que tem como objetivo auxiliar o profissional de Nutrição a trabalhar com a mudança de comportamento e, assim, ampliar sua atuação para além dos procedimentos tradicionais. “Idealizamos uma abordagem com bases científicas e que defende que, mais do que a questão biológica, sejam considerados os aspectos sociais, culturais e emocionais da alimentação, possibilitando que o paciente encontre no atendimento nutricional um direcionamento para recuperar a autonomia no que diz respeito, principalmente, às percepções de fome e saciedade, o que possibilitará que entenda melhor seu comportamento alimentar e passe a fazer melhores escolhas”, explica a docente. Ao oferecer uma possibilidade real de um processo de mudança, os resultados passam a surtir efeito conforme essa nova relação é estabelecida.
A professora Marle Alvarenga acrescenta que entender a dificuldade do paciente e sua relação com a comida é peça-chave no trabalho da Nutrição Comportamental. Para isso, a abordagem utiliza estratégias já conhecidas na literatura, que passaram a ser incorporadas na Nutrição como ferramentas voltadas à mudança de comportamento. Entre os pilares estão as habilidades interpessoais de comunicação entre profissional e paciente; ferramentas de coaching; aconselhamento nutricional baseado no olhar biopsicossociocultural, atendendo necessidades e identificando como, por que e o que se come; Mindful eating e o comer intuitivo, ou seja, com sintonia, atendendo necessidades fisiológicas e não emocionais e seguindo sinais internos de fome e saciedade. “A base clínica com a dietoterapia, por exemplo, não é excluída, mas as quantidades e restrições deixam de ser uma regra. Portanto, todos os alimentos podem ter espaço, a depender da quantidade e do contexto em que sejam inseridos”, enfatiza.
Autonomia – Só com tratamento diferenciado e humanizado, capaz de avaliar as motivações pessoais, atender às necessidades individuais sem imposição de regras e determinar o que funciona melhor em cada caso será possível conquistar a mudança de comportamento. “Para isso, priorizamos acima de tudo a autonomia do paciente, para que esteja preparado para fazer suas próprias escolhas. A prescrição de dietas ou cardápios, muito presente na Nutrição tradicional, é substituída por estratégias que visem à mudança de comportamento, que vão da elaboração conjunta de metas às técnicas de comer com atenção plena e intuitiva”, esclarece a professora. A perda de peso, por exemplo, passa a ser uma consequência desse processo, pois o paciente é conduzido a se reconectar com seus sinais de fome e saciedade para aprender a comer de acordo com a própria vontade, sem que para isso tenha de seguir horários, quantidades ou restrições alimentares.