Doenças pulmonares têm números expressivos

Fernanda Ortiz Especial para Super Saudável

Enfermidades respiratórias crônicas podem ocorrer desde a infância e provocam milhares de óbitos no mundo anualmente

Relacionadas ao sistema respiratório humano, algumas doenças pulmonares aparecem entre as 10 principais causas de morte no mundo. As doenças respiratórias crônicas das vias aéreas superiores e inferiores concentram o número mais expressivo de diagnósticos. No Brasil, segundo estimativas da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), três delas lideram: a rinite alérgica, que acomete entre 40 e 50 milhões de pessoas; a asma, que afeta 20 milhões de indivíduos; e a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), com mais de 8 milhões de casos. Apesar de não ser a mais prevalente, a DPOC é a complicação mais grave. Pelas previsões da Organização Mundial da Saúde (OMS), até o fim de 2020 será a terceira doença crônica com maior número de óbitos no planeta, ficando atrás apenas de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral.

Diretamente relacionada ao hábito de fumar (principal fator de risco), a DPOC é a obstrução da passagem do ar pelos pulmões provocada geralmente pela fumaça do cigarro ou de outros compostos nocivos, como a poluição. A doença se instala depois de um quadro persistente de bronquite ou enfisema pulmonar, que levam a um estado permanente de inflamação nos pulmões e à destruição dos alvéolos – estruturas que promovem trocas gasosas no órgão –, respectivamente. Entre as principais complicações estão insuficiência respiratória crônica, pneumonias de repetição, osteoporose, atrofia muscular, perda de peso, desnutrição grave e doenças cardiovasculares (insuficiência cardíaca, doença arterial periférica). Quando não há um tratamento adequado – em que a principal conduta é parar de fumar – o paciente piora dos sintomas, notadamente a falta de ar, acarretando prejuízo à atividade física e comprometendo rapidamente a qualidade de vida”, explica o pneumologista Miguel Abidon Aidé, professor associado da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Segundo o pneumologista José Antônio Baddini-Martinez, diretor científico da SBPT e professor adjunto de Pneumologia da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apesar de ser subnotificada, há indícios de que a DPOC atinja cerca de 10% da população adulta no Brasil. A grande maioria dos diagnósticos é feita em indivíduos com mais de 50 anos e história de tabagismo por boa parte da vida”, ressalta. Porém, outros fatores como origem genética (4% dos casos) ou exposição à queima de combustíveis orgânicos, como lenha e carvão (prática comum em regiões pobres, inclusive no Brasil), podem acometer pessoas mais jovens. O crescimento no número de casos e de óbitos por DPOC no País – cerca de 40 mil por ano na última década –, está associado ao tabagismo e ao maior conhecimento dos profissionais da saúde sobre a doença, o que possibilita diagnósticos mais precisos.

Apesar de a DPOC não ter cura, a adesão adequada ao tratamento pode melhorar consideravelmente a qualidade de vida, reduzindo especialmente a falta de ar e a tosse para níveis baixos e bem toleráveis. O tratamento envolve broncodilatadores, podendo ou não ser combinados a corticosteroides inalados. Nas fases mais agudas podemos administrar corticoides e antibióticos e, em pacientes com prejuízo muito grande da oxigenação, geralmente é indicado oxigênio na forma de cateter nasal, sem interrupções”, orienta o médico José Antônio Baddini-Martinez. Fisioterapia respiratória e reabilitação pulmonar, que envolvem acompanhamento multidisciplinar com nutricionista, psicólogo, enfermeiro, fisioterapeuta e médico, são necessárias em quadros mais avançados da doença. Os portadores de DPOC também devem receber anualmente uma dose de vacina contra a gripe e, a intervalos maiores, contra o pneumococo, para evitar que a correlação de processos infecciosos agrave o quadro respiratório.

Com causas alérgicas ou inflamatórias, asma e rinite podem acometer pessoas de qualquer idade. A asma é uma inflamação crônica das vias aéreas que apresenta episódios recorrentes de sibilância, dificuldade na respiração, falta de ar e tosse. Os sintomas podem piorar à noite ou pela manhã, mas, em geral, se revertem total ou parcialmente com uso de broncodilatadores. A rinite, doença alérgica mais comum no mundo, é uma inflamação aguda ou crônica, infecciosa ou irritativa da mucosa nasal e se caracteriza por rinorreia, espirros, obstrução e prurido nasal. Nos dois casos, os sintomas começam na infância e podem perdurar por toda a vida. São enfermidades importantes não apenas pela frequência, mas por serem perfeitamente controláveis com uso de medicamentos, inclusive para casos mais graves”, orienta o médico José Antônio Baddini-Martinez. Também são frequentes as doenças infecciosas do trato respiratório inferior, como pneumonia, e o câncer de pulmão (leia quadro).

Apesar de não ser tão comum, a embolia pulmonar costuma ser grave e ocorre quando um coágulo formado nas veias de pernas ou pelve é transportado pela circulação até obstruir um vaso sanguíneo dos pulmões, resultando em dor torácica aguda, falta de ar e tosse, e demandando cuidados médicos urgentes. Como o tabaco é o principal fator de risco para muitas doenças pulmonares, abandonar o cigarro aumenta as chances de preservar a qualidade de vida. Para evitar as pneumonias, a recomendação dos especialistas é diminuir o consumo de bebidas alcoólicas, tomar vacinas de acordo com orientação médica, manter ambientes higienizados e evitar mudanças bruscas de temperatura. Na embolia pulmonar, acrescentam-se atitudes que ajudam a controlar o distúrbio, como evitar viagens muito longas sem se movimentar e praticar atividades físicas regulares.

Tabaco é principal causa de câncer de pulmão

Segundo tipo mais comum de tumor maligno e principal causa de óbitos por neoplasias entre homens e mulheres no mundo, o câncer de pulmão, brônquios e traqueia registrou em 2018, segundo a OMS, cerca de 2,09 milhões de novos casos e 1,76 milhão de mortes. No Brasil, o número de pacientes diagnosticados é alarmante e segue a tendência mundial. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que a incidência da doença no Brasil para 2020 seja de 17.760 novos casos em homens e 12.440 em mulheres, o equivalente a 7,9% e 5,6%, respectivamente, do total de diagnósticos (de acordo com sexo) de todas as neoplasias para o período. Existem diferentes tipos de câncer que acometem os pulmões, porém, na grande maioria se apresentam como um carcinoma, dividido nos grupos de pequenas células’ (que são mais agressivos), e de não pequenas células, que correspondem a 85% dos casos. Em geral, o câncer de pulmão se desenvolve de maneira silenciosa, o que prejudica o diagnóstico precoce. Mais comum em indivíduos com idade superior a 65 anos, os sintomas geralmente não ocorrem muitas vezes até que a doença esteja em estágio avançado, ou seja, o tumor já pode ter um tamanho considerável quando diagnosticado, o que impactará no tratamento, reduzindo as chances de cura”, comenta o pneumologista Miguel Abidon Aidé. Por isso, é fundamental procurar um especialista – principalmente os tabagistas – caso apresentem sintomas que podem ser indicativos da doença, como tosse persistente, rouquidão, dispneia, dor torácica contínua, hemoptise, perda de peso importante ou cansaço.

O tabagismo – associado a aproximadamente 85% dos casos da doença –, assim como a exposição passiva à fumaça do cigarro, são os principais fatores de risco para o desenvolvimento da neoplasia, que pode, em muitos casos, ser evitada. O tabaco, nas suas diversas formas, aumenta em até 40% a ameaça de câncer de pulmão, assim como de outros tumores. Mesmo para o fumante passivo, o risco é de pelo menos três vezes mais que o de uma pessoa não exposta à fumaça do cigarro”, enfatiza o médico Miguel Abidon Aidé.

Além do hábito de fumar, a exposição a substâncias químicas, como arsênico e fuligem, e a poluição do ar estão associados às causas da neoplasia. Manter uma atitude proativa para não se expor aos fatores de risco é a melhor forma de prevenção. Por isso, recomenda-se que indivíduos com mais de 55 anos, fumantes com alta carga tabágica e ex-fumantes – que fumaram por pelo menos 15 anos – façam exames de rastreamento periódicos, de acordo com orientação médica, notadamente aqueles com histórico de câncer de pulmão na família.

Bebês e crianças também correm riscos

Tosse, coriza, espirros e chiado no peito são sintomas respiratórios muito comuns na infância e podem ser a expressão clínica de uma grande variedade de problemas localizados nas vias respiratórias superiores que podem comprometer a função pulmonar. Independentemente da causa, tais problemas são motivos frequentes de procura por atendimento médico em serviços de urgência, sobretudo nos primeiros anos de vida. Um desses problemas é a síndrome do bebê chiador, caracterizada por episódios de sibilância e tosse que surgem de forma frequente, geralmente provocados por uma hiper-reatividade dos pulmões do bebê, que se estreitam na presença de certos estímulos, a exemplo de resfriado, alergia, asma ou refluxo.

Bebês chiadores são, no geral, crianças menores de três anos, com quadro de sibilância há pelo menos um mês ou que apresentem, no mínimo, três episódios ao longo de dois meses”, descreve a pediatra Adyléia Aparecida Dalbo Contrera Toro, professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Após os três anos de idade, alguns desses lactentes não irão mais apresentar os quadros de sibilância recorrente, mas, caso os sintomas não desapareçam, o pediatra deve considerar se são resultado de outras doenças, como a asma. O tratamento é à base de medicamentos inalatórios, como corticoides ou broncodilatadores.

Também frequente na primeira infância, a bronquiolite é uma infecção viral aguda do trato respiratório inferior que costuma ocorrer em épocas da sazonalidade dos vírus de outono-inverno, acometendo especialmente crianças menores de dois anos, com pico de incidência entre dois e seis meses de idade. A doença, que tem como sintomas respiração rápida, sibilância, tosse (sobretudo na hora de dormir), febre e tórax inflado, se caracteriza pela infecção nos bronquíolos”, explica a pediatra. Causada, em geral, pelo vírus sincicial respiratório (VSR), provoca inflamação da parede dos brônquios de pequeno calibre e aumento de muco, com consequente dificuldade para ocorrer a passagem do ar e a troca gasosa. Em alguns casos mais graves o lactente pode precisar de suporte ventilatório, e infecções bacterianas secundárias também podem ocorrer.

Com média de 11,8 episódios de infecções virais das vias aéreas superiores por ano – três vezes mais que nos adultos – gripes e resfriados também são comuns nessa faixa etária. Ao afetar as vias aéreas superiores podem causar dor de garganta, tosse, congestão nasal, aumento da temperatura corporal e espirros, mas, após uma semana, esses efeitos costumam desaparecer”, comenta. Vírus como o Influenza são os agentes causais associados a gripes ou resfriados. A pediatra reforça que é importante que a criança receba a vacina contra gripe, mantenha uma dieta saudável e pratique atividade física para que seu sistema imunológico permaneça em ótimo funcionamento.

Doenças alérgicas

As alergias respiratórias podem surgir em qualquer idade, mas é comum que comecem na infância. A mais recorrente e, eventualmente, confundida com o resfriado, é a rinite alérgica, que provoca congestão nasal, coriza, tosse, irritação no nariz, na garganta e nos olhos. Além da poeira e dos ácaros, outras substâncias como mofo, fungos, pelos de animais, pólen, produtos de limpeza, inseticidas, fumaça de cigarro e perfume se apresentam como gatilhos da doença. A melhor forma de evitar as crises é reduzir ao máximo a exposição a esses agentes”, descreve a médica Adyléia Aparecida Dalbo Contrera Toro. Além dos cuidados com o ambiente, existem inúmeros medicamentos que aliviam os sintomas. Para o correto diagnóstico e tratamento mais adequado, o médico alergologista ou pediatra deve ser consultado. Responsável por acometer entre 10% e 20% da população pediátrica, a asma é a doença crônica de maior prevalência na infância e envolve uma complexa interação entre obstrução do fluxo aéreo, aumento de sensibilidade nos brônquios e inflamação da mucosa. Embora não tenha cura, com o tratamento adequado – que prevê controle dos sintomas e melhora da função pulmonar – a asma pode melhorar e até mesmo desaparecer ao longo do tempo (leia mais na página 17).

Indicadores da tuberculose no Brasil

Doença infecciosa bacteriana e transmissível, a tuberculose está presente em todos os países, com indicadores epidemiológicos variáveis de acordo com aspectos socioeconômicos e geopolíticos. Apesar de todos os avanços nas áreas de diagnóstico e tratamento, a enfermidade  ainda se destaca como a principal causa de óbitos por doenças infectocontagiosas no planeta. Só em 2018, segundo a OMS, a tuberculose acometeu cerca de 10 milhões de pessoas e foi responsável pela morte de 1,5 milhão. No Brasil, apesar da taxa de mortalidade ter caído 8% na última década – de 4.881 em 2008 para 4.490 em 2018 – o cenário segue preocupante, registrando cerca de 200 novos casos por dia.

Recentemente, um estudo conduzido por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e pela London School of Hygiene & Tropical Medicine, com financiamento do Wellcome Trust (Reino Unido), apontou que as condições sociais dos que sobrevivem à doença pode trazer outras complicações à saúde. Nem sempre relacionadas à doença, as complicações causam impactos negativos no bem-estar e podem ocasionar até mesmo a morte precoce, quando comparada à média da população brasileira. Durante o estudo, o grupo observou o que ocorreu, ao longo de cinco anos, com mais de 15 mil pacientes diagnosticados em 2010, e identificou a piora de sobrevida a fatores de vulnerabilidade. O objetivo foi estimar a mortalidade e as associações entre os óbitos e indicadores sociais e de comportamento, como falta de moradia e consumo de drogas; e de comorbidades, a exemplo de diabetes e doenças mentais”, explica o médico Otavio Tavares Ranzani, da Faculdade de Medicina da USP, principal autor do estudo. A pesquisa analisou dados de 15.501 pacientes com tuberculose, diagnosticados em 2010 no Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, com idade mínima de 15 anos, primeiro diagnóstico da doença e sem evidência de resistência múltipla a drogas.

Também foi avaliado se fatores de vulnerabilidade ocasionados pela carência de recursos para lidar com estresse físico, biológico, psicológico ou socioeconômico, no momento do diagnóstico, afetariam a sobrevida ou estariam associados a causas de morte. Durante cinco anos, 2.660 pacientes morreram – 17% –, o que evidencia que, mesmo após o tratamento, houve um índice de óbito quatro vezes maior do que a média da população paulista em geral. A mortalidade foi maior entre aqueles com os piores indicadores de vulnerabilidade. Importante ressaltar que os pacientes em situação de rua e usuários de álcool ou drogas ilícitas tiveram maior risco de morte por causas infecciosas e respiratórias, incluindo pneumonia. O estudo evidencia que as sequelas pós-tuberculose e a vulnerabilidade estão intimamente associadas ao maior risco de mortalidade”, afirma o pesquisador. Portanto, mais do que a abordagem terapêutica, é necessário tratar a desigualdade social, reforçando a necessidade de ações multissetoriais e integradas de ampliação dos serviços de saúde e proteção social. Os resultados foram publicados na revista científica The Lancet Infectious Diseases.