Hábitos alimentares e a saúde do coração
Fernanda Ortiz Especial para Super Saudável
Alimentos ricos em sal, açúcar e gorduras saturadas prejudicam o bom funcionamento do organismo
Diversos achados na literatura médica evidenciam a relação entre a ocorrência de enfermidades crônicas, dentre as quais doenças cardiovasculares, com hábitos alimentares inadequados. Esses hábitos passam a ser considerados como risco eminente à saúde na medida em que o consumo elevado de alimentos processados e ultraprocessados – ricos em açúcar, sal e gorduras saturadas –, aliado ao baixo consumo de fibras e de nutrientes, prejudica o bom funcionamento do organismo. A prática de hábitos alimentares saudáveis, de forma balanceada, fracionada, variada e exclusiva para as necessidades individuais, pode ser determinante na redução dos fatores de risco. Para isso, deve estar associada à atividade física, ao controle de doenças preestabelecidas e à promoção da manutenção de um peso saudável, o que impactará na redução de níveis elevados de colesterol total, colesterol LDL e triglicerídeos.
Para a professora Luiza Carla Vidigal Castro, coordenadora do curso de graduação em Nutrição e do Laboratório de Técnica Dietética da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, adotar hábitos alimentares saudáveis é uma das principais estratégias para redução de fatores de risco e prevenção de doenças. “A alimentação adequada vai além da ingestão de produtos com alto valor nutritivo. É preciso atender a hábitos e práticas alimentares regionais e culturais, optando por alimentos provenientes de cultivo sustentável e valorizando os agroecológicos e orgânicos”, ensina. Além disso, deve ser permanente e justa em quantidade e qualidade para os diferentes estágios da vida, de forma a contribuir na redução de doenças de maneira geral e não apenas nas enfermidades cardiovasculares.
Diversos estudos têm demonstrado que modificações na composição lipídica podem promover alterações nos níveis séricos de colesterol quando a dieta não é adequada. Contudo, determinados componentes nutricionais tendem a mudar esse quadro e promover a saúde. “É preciso equilíbrio e boas escolhas como, por exemplo, reduzir a ingestão de açúcares e carboidratos simples; evitar sucos de frutas concentrados, mesmo sem adição de açúcar, pois são ricos em frutose – cujo metabolismo eleva a produção de VLDL; aumentar o consumo de frutas, verduras e legumes, fontes de compostos antioxidantes e fibras; substituir parcialmente a gordura saturada por monoinsaturada (azeite, nozes, castanhas) e poli-insaturada (especialmente ômega 3); aumentar o consumo de fibras solúveis e reduzir o consumo de bebida alcoólica”, enumera a professora Luiza Carla Vidigal Castro. Na contramão, o alto consumo de alimentos processados e ultraprocessados – estes últimos geralmente ricos em açúcar, sal e gorduras saturadas –, está associado com sobrepeso, obesidade e dislipidemias.
O Guia Alimentar para a População Brasileira divide os alimentos em quatro categorias por nível de processamento: in natura e minimamente processados; produtos retirados de alimentos in natura ou da natureza e usados para tempero e cozimento; processados, que passaram por método de preparo para prolongar sua vida útil; ultraprocessados, cuja fabricação envolve técnicas de produção e ingredientes de uso exclusivamente industrial. Para a professora Luiza Carla Vidigal Castro, a partir dessas categorias é possível montar pratos mais saudáveis. “Durante o preparo das refeições, o importante é que, ao usar alimentos in natura, minimamente processados ou processados, os ingredientes culinários da categoria 2 sejam ministrados com moderação. Caso contrário, também poderão ter efeito negativo na saúde cardiovascular”, orienta.
A ciência da nutrição tem demonstrado a importância da boa alimentação e alerta para os modismos com relação a alimentos ou dietas. “Quando não há evidências científicas dos reais benefícios de determinados alimentos, desconfie. Cortar calorias, substituir alimentos por suplementos e seguir receitas radicais sem orientação profissional podem causar deficiências nutricionais”, orienta a professora doutora Viviane Sahade, coordenadora do Ambulatório de Nutrição e Cardiopatias do Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia (HC-UFBA). Entre outras alegações com escassa evidência está o óleo de coco, que tem sido apontado como fonte de benefícios para o coração. Recentemente, foi publicada uma revisão sistemática e meta-análise na revista Circulation sobre os reais benefícios do óleo de coco no perfil lipídico, peso, na glicemia e inflamação, quando comparado aos demais óleos vegetais. Os autores avaliaram 16 artigos científicos e concluíram que o óleo de coco aumenta os níveis de LDL e HDL, e não houve alteração no peso, na glicemia e em marcadores inflamatórios. Com base nos resultados, o uso diário desse óleo é contraindicado, uma vez que os malefícios são superiores ao pequeno benefício observado.
Alimentação cardioprotetora
Recentemente, foi publicado na revista American Heart o primeiro estudo brasileiro envolvendo alimentação e pacientes com cardiopatias – Brazilian Cardioprotective Nutritional (BALANCE) Program, um ensaio clínico randomizado, multicêntrico e nacional. O principal objetivo foi avaliar a eficácia da implementação de um programa nutricional sobre eventos cardiovasculares e morte em pacientes com doença cardiovascular estabelecida. O projeto teve apoio do Ministério da Saúde e foi coordenado pelo Hospital do Coração (HCor), de São Paulo. De 5 de março de 2013 a 7 de abril de 2015, 2.534 pacientes elegíveis foram aleatoriamente designados para o Grupo BALANCE Program (n = 1.266) ou grupo controle (n = 1.268) e acompanhados por uma mediana de 3,5 anos. Após três anos de acompanhamento, o Programa BALANCE demonstrou melhor adesão a uma dieta saudável por parte dos pacientes. Não houve efeito significativo na incidência de eventos cardiovasculares ou morte.
“Durante o estudo, apesar de não observarmos diferenças estatísticas em relação à mortalidade, melhora de parâmetros bioquímicos ou peso, constatamos que os pacientes que utilizaram a dieta proposta apresentaram melhor adesão ao tratamento quando comparados àqueles que não a seguiram, assim como frequência nas consultas, consciência das escolhas nutricionais e o prazer de se alimentar melhor”, observa a nutricionista Viviane Sahade, uma das coordenadoras do estudo. A dieta cardioprotetora, indicada para a promoção da saúde e prevenção de fatores de risco, pode ser adotada por qualquer indivíduo, mas é indicada especialmente para aqueles com excesso de peso ou obesidade, diabetes, hipertensão arterial, colesterol e triglicerídeos altos, histórico de infarto, de cirurgia cardíaca ou de acidente vascular cerebral (AVC).
Em sintonia com as recomendações do Guia Alimentar Brasileiro, o BALANCE traz orientações de alimentos in natura, minimamente processados e processados. “Na prática, a distribuição de alimentos no prato das refeições acompanha a mesma lógica da bandeira brasileira: a maior área deve ser ocupada por alimentos do grupo Verde (verduras, frutas, legumes, leguminosas, leite e iogurtes sem gorduras), seguido pelos grupos Amarelo (pães, cereais, tubérculos cozidos, farinhas, oleaginosas, óleos vegetais e mel) e Azul (proteínas, manteiga, doces caseiros). Já o grupo Vermelho, que corresponde aos produtos ultraprocessados, deve ser expressamente evitado”, orienta a professora Viviane Sahade. Relevante para a saúde pública, o Manual da Alimentação Cardioprotetora tem sido difundido pelo Ministério da Saúde e amplamente utilizado nos atendimentos dos centros de nutrição, em consultórios e hospitais. O arquivo está disponível para download no endereço http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/alimentacao_cardioprotetora.pdf.
Café beneficia o coração
Um estudo epidemiológico realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) avaliou que a ingestão de uma a três xícaras de café por dia pode trazer benefícios ao coração. O efeito protetor contra fatores de risco para doenças cardiovasculares, como pressão arterial sistólica e diastólica, triglicerídeos, glicemia de jejum e colesterol, vem principalmente dos compostos fenólicos – polifenóis –encontrados em quantidade razoável na bebida não alcoólica mais tradicional da cultura brasileira. Os resultados foram possíveis a partir da análise de dados obtidos do Inquérito de Saúde do Município de São Paulo (ISA-Capital 2008/09), um estudo de base populacional que avaliou as condições de saúde de 557 homens e mulheres com idade superior a 20 anos.
A pesquisa, que teve início em 2014, foi realizada durante o doutorado da nutricionista Andreia Machado Miranda, atualmente pós-doutoranda no Departamento de Nutrição da FSP-USP. O fato de ser uma das bebidas mais apreciadas pelos brasileiros foi uma das razões para a autora escolher o café como objeto da pesquisa. “Além do seu elevado consumo e da presença quase obrigatória no desjejum, verificamos que havia dados inconsistentes e controversos na literatura em relação aos benefícios oferecidos pelo café, especialmente na proteção cardiovascular”, destaca. Embora tenha teor de polifenóis semelhante ao das frutas e verduras, o café acaba tendo maior contribuição nutricional porque seu consumo diário é maior e mais frequente – aproximadamente 70% dos polifenóis ingeridos dos alimentos pelos paulistanos têm o café como fonte.
Além dos dados dietéticos, o projeto ISA-Capital forneceu informações sociodemográficas e de estilo de vida (idade, sexo, cor da pele, renda familiar, atividade física, tabagismo, consumo de álcool), resultados de coleta de sangue para análises bioquímicas (glicose, triglicérides, colesterol total, HDL e LDL-colesterol e homocisteína), medições antropométricas, aferição da pressão arterial e genotipagem do DNA. Para o estudo, foi considerada a pressão arterial elevada com valores acima de 140 mmHg por 90 mmHg, e o consumo do café categorizado em três grupos: os que bebiam menos de uma xícara por dia; os que tomavam de uma a três; e os que ingeriam três ou mais xícaras diariamente. “Observamos que aqueles que consumiram de uma a três xícaras por dia (50ml a 150ml) diminuíram em 55% a chance de ter pressão sistólica e diastólica alta, e em 68% os níveis aumentados de homocisteína – um aminoácido presente no sangue que está relacionado com o aumento do risco de eventos cardiovasculares –, quando comparados aos indivíduos com consumo menor que uma xícara”, relata.
O mesmo resultado não foi observado nos indivíduos que consumiram mais de três xícaras de café por dia. O grupo de pesquisa não encontrou associação significativa com os fatores de risco para as doenças cardiovasculares, ou seja, não foi evidenciado nenhum efeito benéfico, mas também não se trata de uma dose prejudicial. Portanto, a evidência é que, de acordo com o estudo, o efeito protetor para a saúde do coração equivale exclusivamente à ingestão moderada de café, de uma a três xícaras diárias. “Independentemente da forma como é consumido, seja puro, com leite, chá, coado ou expresso, as concentrações de polifenóis no café são mantidas e, por isso, o efeito protetor é o mesmo para qualquer das formas apresentadas”, acentua a nutricionista Andreia Machado Miranda.
Predisposição para hipertensão
A pesquisa teve outros desdobramentos e, na fase posterior, incluiu dados de predisposição genética para a hipertensão arterial. “Neste estudo, também utilizamos os dados do projeto ISA-Capital e observamos que os indivíduos com consumo superior a três xícaras de café por dia, e geneticamente predispostos, apresentavam chance de pressão alta quatro vezes maior quando comparados a pessoas sem predisposição”, enfatiza. Esses achados vieram ao encontro do estudo anterior e destacam a importância de moderar o consumo de café para a prevenção da hipertensão, particularmente em indivíduos geneticamente predispostos a esse fator de risco cardiovascular, fortalecendo a importância de mudar os hábitos de consumo da bebida. Como a maior parte da população desconhece se é ou não predisposta a desenvolver hipertensão, a pesquisa pode ajudar a traçar um parâmetro de qual seria o consumo recomendado de café para a saúde do coração.