Depressão pós-parto tem alto índice no mundo
Laura Bergamo Especial para Super Saudável
A doença pode surgir devido a inúmeros fatores, porém, com tratamento é possível recriar o vínculo entre mãe e bebê
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10% das gestantes e 13% das mulheres na fase do puerpério apresentam algum transtorno mental, e a depressão pós-parto (DPP) é o mais recorrente, atingindo 20% das mulheres. Comumente, o problema aparece nos primeiros 30 dias do puerpério, embora possa ocorrer até um ano após o nascimento do bebê, segundo critérios da Marce Society for Perinatal Mental Health. A condição faz com que o vínculo da mãe com o bebê seja mais difícil e pode causar efeitos negativos no desenvolvimento social, afetivo e cognitivo da criança, inclusive deixando sequelas que podem se estender para a infância e até mesmo para a adolescência. Esse adoecimento mental é desencadeado por inúmeros fatores, que podem ser biológicos, genéticos, psicológicos e ambientais. Variáveis sociais, aspectos socioeconômicos, culturais e até mesmo de suporte parental e rede de apoio podem influenciar uma mulher a desenvolver um quadro de depressão pós-parto.
Uma das razões para o surgimento do problema pode ser o fato de que algumas mulheres têm mais sensibilidade a alterações hormonais, que começam junto com a menarca e aumentam a vulnerabilidade a estressores psicológicos, ambientais e fisiológicos durante o período fértil. Para quem já tem essa predisposição, períodos de altas flutuações hormonais, como o pós-parto, tendem a causar transtornos de humor como a DPP. No entanto, a depressão pós-parto não pode ser associada apenas aos desequilíbrios hormonais do fim da gravidez. “A gestação e o período do pós-parto podem ter uma significação diferente para cada mulher. Não se deve associar o conceito errôneo de que há o ‘instinto materno’, de que todas as mulheres já se adaptem à nova rotina no período pós-parto e de que já tenham um vínculo afetivo com o seu bebê”, afirma o professor de Psiquiatria e diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP), Joel Rennó Junior.
Em geral, mulheres que apresentam quadro de depressão pós-parto têm atitudes como descontinuidade da amamentação, conflitos familiares e negligências em relação às necessidades físicas e psíquicas do bebê. Para ser caracterizado como um quadro de depressão pós-parto, os sintomas devem surgir até quatro semanas após o nascimento da criança, de acordo com os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5). O Ministério da Saúde classifica como sintomas típicos da depressão pós-parto melancolia intensa e/ou desmedida, desmotivação profunda diante da vida e ausência de forças para lidar com a rotina, além de muita tristeza acompanhada de desespero constante.
A psicóloga e doutora em Ciências da Saúde, Mônica Silveira, autora do estudo ‘A depressão pós-parto em mulheres que sobreviveram à mortalidade materna’, desenvolvido na Universidade Federal de Sergipe (UFS), explica que os sintomas de uma depressão pós-parto são semelhantes aos de transtornos depressivos existentes em outros períodos da vida, e podem levar a mulher a um quadro grave de transtorno mental. “Em um momento em que poderia estar vivendo sua maternagem, idealizações e planos são frustrados com sentimento de tristeza profunda, desânimo, culpa e ambivalência de sentimentos positivos e negativos, e isso é muito doloroso para a mulher”, ressalta.
Se não for tratada, a depressão pode interferir no vínculo entre mãe e bebê, o que leva a prejuízos socioemocionais que podem causar atrasos no desenvolvimento da criança, uma vez que uma mulher com depressão vai ter menor capacidade de se relacionar, vincular e estabelecer empatia. A psicóloga e psicanalista Vera Iaconelli, mestre e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), acentua que a mãe não pode ser a única fonte de cuidados e atenção do bebê. “É importante ter um ambiente rico, uma rede de suporte. O bebê não pode depender apenas da mãe, porque isso é prejudicial tanto para a mulher quanto para o filho”, enfatiza.
Para o professor Joel Rennó Junior, outro ponto importante é vencer as barreiras de um preconceito existente que faz com que as mulheres sejam inibidas a expor seus sentimentos, já que a maternidade, muitas vezes, está associada a uma ditadura da felicidade. Por isso, é importante que mulheres com DPP diagnosticada, independentemente do momento, sejam encorajadas a buscar ajuda o mais precocemente possível. “Uma vez que essa mulher recebe suporte, seja psicoterápico, medicamentoso ou psicoeducacional, sem dúvida esse vínculo mãe-bebê será restabelecido gradativamente, levando a uma interação bastante benéfica para as duas partes”, acentua. No Brasil, o tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS de forma integral.
Diagnóstico e tratamento
Segundo a American Psychiatric Association, 50% dos episódios de depressão que ocorrem no puerpério se desenvolveram no início da gravidez, sendo que os sintomas são semelhantes aos de transtornos depressivos em outras fases da vida. Assim, o diagnóstico pode ser realizado durante a gravidez, estimulando a mulher a iniciar o tratamento antes mesmo de o bebê nascer. Para a psicóloga Mônica Silveira, a saúde mental da mulher é muito exigida, principalmente pelos vários papéis que desempenha e, durante a gravidez, tende a ser relegada a segundo plano, pois os protocolos são focados nas condições fisiológicas e não incluem aspectos psicológicos. “Várias mulheres que acompanhei desde a gestação até o puerpério já apresentavam sintomatologia de depressão, e a equipe que as acolhiam durante o pré-natal não tinha sequer perguntado sobre a sua saúde mental. Tudo é muito focado no desenvolvimento fetal e os sintomas da depressão também acabam ficando mais visíveis somente no puerpério, sob a condição da DPP, porque isso inclui a interferência no cuidado com o filho”, ressalta.
Atualmente, o tratamento para mulheres com DPP envolve psicoterapia e uso de medicamentos antidepressivos nos casos moderados e graves, sendo que os mais escolhidos pelos especialistas costumam ser os inibidores seletivos da receptação de serotonina, pois causam menos efeitos colaterais nos bebês uma vez que passam pouco para o leite materno. A psicanalista Vera Iaconelli orienta que a terapia é necessária, porque a medicação trata a doença depressiva, mas não faz com que a mulher entenda o que desencadeou a depressão. “A mãe precisa entender o que provocou aquela resposta ao estresse do nascimento do filho. Embora nem sempre tenha de ser medicada, a mulher sempre precisa ser escutada. Essa é uma diferença importante. Uma vez que cuide da depressão pós-parto, a mulher terá todas as chances de criar uma boa relação com a experiência da maternidade”, afirma.
Tristeza materna atinge até 80% das mulheres
O Hospital Orlando Health Winnie Palmer, na Flórida, Estados Unidos, fez uma pesquisa com mais de 1,2 mil mulheres, sendo 900 delas mães com menos de 45 anos, e detectou que cerca de 60% se sentem deprimidas e ansiosas nos primeiros três meses após o nascimento dos filhos. Muitas mulheres podem pensar que estão sofrendo um quadro de depressão pós-parto quando, na verdade, estão passando pela tristeza materna (também conhecida como baby blues). O baby blues atinge até 80% das mulheres e trata-se de um estado de humor depressivo, com um curto período de emoções inconstantes, que costuma ocorrer entre o segundo e o quinto dia após o parto e, geralmente, tem remissão espontânea em, no máximo, duas semanas. “O baby blues é o luto necessário não patológico que a mulher precisa fazer quando o bebê nasce, inclusive para não deprimir ou adoecer. É a lição de casa que o pai e a mãe têm de fazer para se adaptarem às novas circunstâncias. Não tem nada de maligno nisso”, detalha a professora Vera Iaconelli.
A depressão ocorre quando a adaptação psíquica que tem de ser feita nesse período não acontece, levando a mulher a entrar em um estado de adoecimento. Já a psicose pós-parto é considerada uma urgência médica caracterizada por sintomas intensos, pois está associada a um quadro de dissociação psíquica que, muitas vezes, faz com que a mãe precise ser afastada do bebê, uma vez que pode apresentar pensamentos delirantes associados ao filho, fazendo com que exista um risco de danos à criança como, por exemplo, um episódio de infanticídio. No entanto, sendo apoiada e tendo acesso a um tratamento psicológico e psiquiátrico adequados, essa mulher poderá seguir com uma boa relação junto aos filhos.