Benéfico nas vulvovaginites

Algumas cepas probióticas podem ser auxiliares nos tratamentos de vaginose bacteriana e candidíase, cuja prevalência é alta na população feminina

A microbiota vaginal de mulheres saudáveis é colonizada predominantemente por Lactobacillus –embora outras bactérias produtoras de ácido lático também tenham sido identificadas em alguns estudos recentes –, e o equilíbrio desse ecossistema é mantido por complexas interações entre a própria microbiota, os produtos do metabolismo microbiano, o estado hormonal e a resposta imune. Apesar de a microbiota ser composta por numerosas bactérias de espécies diferentes que vivem em harmonia, em situações especiais esses microrganismos podem tornar-se patogênicos levando a um quadro de disbiose. O surgimento de processos infecciosos no trato genital feminino está diretamente relacionado à virulência e às propriedades biológicas do microrganismo, à complexidade da microbiota e ao nível de hormônios sexuais, e mesmo os microrganismos residentes podem causar secreção vaginal anormal e outros sintomas desagradáveis em caso de proliferação excessiva, facilitando a ocorrência das vulvovaginites, especialmente a vaginose bacteriana. O tratamento padrão é realizado com uso de antibióticos, entretanto, pesquisadores tentam descobrir se a utilização de probióticos também poderia beneficiar as mulheres a evitar esses incômodos problemas.

O Lactobacillus spp. é a espécie bacteriana predominante no meio vaginal, representando cerca de 95% do total de microrganismos. Essas bactérias inibem a adesão, o crescimento e a proliferação de outros microrganismos estranhos a esse ecossistema mediante diferentes mecanismos, incluindo secreção de ácidos orgânicos, produção de substâncias antimicrobianas (peróxido de hidrogênio, bacteriocinas e biossurfactantes), competição por nutrientes (arginina) e por receptores no momento da adesão ao epitélio. O ecossistema vaginal é dinâmico, podendo sofrer alterações de quantidade e composição na dependência de fatores intrínsecos da mulher, tais como idade, hábitos de higiene, estado emocional, utilização de antibióticos ou espermicidas, atividade sexual, fase do ciclo menstrual, uso de contraceptivos hormonais e não hormonais, gravidez e flutuações dos níveis de estrogênio e progesterona”, informa a nutricionista Sarah Maria de Araujo Almeida, uma das autoras do artigo de revisão Efeito da suplementação de Lactobacillus spp. no tratamento e na prevenção de candidíase vulvovaginal e vaginose bacteriana, desenvolvido em 2017 na Universidade Estadual do Ceará (UECE).

O estado de disbiose vaginal também pode ser responsável pelo aparecimento de infecção pós-cirúrgica, corioamnionites (inflamação de membranas fetais, líquido amniótico, placenta e/ou decíduas) e, ainda, facilitar a progressão da infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), que tem diferentes tipos. Os HPV de baixo risco causam as verrugas genitais, mas os de alto risco podem facilitar o desenvolvimento do câncer do colo uterino. Muitas mulheres eliminam espontaneamente o HPV, entretanto, na presença dos estados de disbiose vaginal a persistência do vírus de alto risco é facilitada, com maior possibilidade de lesões pré-cancerosas e mesmo do câncer de colo do útero”, alerta a professora doutora Iara M. Linhares, livre docente na Disciplina de Ginecologia do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro da Comissão Nacional Especializada em Infecções em Ginecologia e Obstetrícia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Isso ocorre não só pela falta de lactobacilos, mas pela ausência de uma série de substâncias produzidas por esses microrganismos, que também são importantes na atuação da imunidade vaginal. A ginecologista lembra que, ao progredir para o útero, a vaginose bacteriana pode  atingir o endométrio e as trompas, ocasionando o desenvolvimento da doença inflamatória pélvica, que tem a capacidade, inclusive, de causar esterilidade. Durante a gestação também é muito importante manter a eubiose vaginal, uma vez que o estado de disbiose está relacionado a intercorrências durante a gravidez e ao maior risco de abortamentos e partos prematuros, conforme comprovado por estudo coordenado pelos professores Steven S. Witkin e Antônio Fernandes Moron, da Cornell University, nos Estados Unidos, e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), respectivamente.

Os pesquisadores avaliaram os genes de bactérias para determinar qual era mais comum na vagina de 190 gestantes que realizavam o pré-natal em diferentes centros, e verificaram que aquelas com microbiota vaginal desequilibrada, com baixa concentração de Lactobacillus spp., apresentaram maior possibilidade de terem parto prematuro e bebês com baixo peso. O desequilíbrio no meio vaginal é realmente um fator de risco para a prematuridade. Os resultados dessa pesquisa estão sendo publicados em revistas científicas e também receberam a atenção da imprensa nos Estados Unidos”, informa a professora Iara M. Linhares, que participou do estudo.

A médica Vera Lúcia Ângelo Andrade, professora doutora da Universidade do Vale do Rio Verde, em Minas Gerais, desenvolve pesquisas sobre supercrescimento bacteriano e alterações de microbiota e, recentemente, orientou uma revisão sobre o uso de probióticos na Ginecologia. O artigo Há lugar para o uso de probióticos como terapia complementar no tratamento da candidíase vulvovaginal de repetição?, desenvolvido por acadêmicos do curso de Medicina da Faculdade de Minas (Faminas), de Belo Horizonte, apresenta dados de estudos publicados de 2010 a 2019 em periódicos nacionais e internacionais com objetivo de verificar o efeito e a eficácia dos probióticos no tratamento da candidíase vulvovaginal de repetição. Essa revisão da literatura mostrou que os Lactobacillus spp. são eficazes nos tratamentos da candidíase porque corrigem a disbiose na vagina, impedindo que a Candida sp. forme o biofilme branco. Os Lactobacillus spp. também simulam a ação dos macrófagos, de forma que diminuem o processo inflamatório, cortando esse círculo vicioso de inflamação”, detalha.

Algumas pesquisas também sugerem que a combinação de antifúngico com cápsulas de Lactobacillus spp. pode levar a uma maior taxa de cura, em longo prazo, quando comparado com mulheres que receberam somente o antifúngico. Segundo a nutricionista Sarah Maria de Araujo Almeida, os experimentos mostram, ainda, que mulheres que receberam o tratamento com probióticos, juntamente com os antifúngicos, apresentaram menos corrimento vaginal associado com os sintomas clássicos de comichão e sensação de ardor vaginal, dispareunia e disúria, e menor presença de leveduras detectadas por cultura, assim como um aumento significativo nos valores de Lactobacillus spp. Esses experimentos indicam que os probióticos, ministrados por via oral ou intravaginal, sozinhos ou em combinação com a terapia convencional, favorecem a restauração da microbiota vaginal normal e a redução dos casos de recorrência dessas vulvovaginites. Além disso, os Lactobacillus spp. podem ser utilizados por um longo período sem efeitos secundários prejudiciais, representando um tratamento alternativo atraente para esses problemas”, acentua.

Prevalente

As estimativas indicam que aproximadamente 150 milhões de mulheres são afetadas pela candidíase de repetição no mundo, caracterizada por quatro ou mais episódios sintomáticos no período de um ano. O problema é prevalente em mulheres na idade reprodutiva, imunodeprimidas ou que fazem uso de antibiótico. Embora a Candida albicans seja um fungo que faz parte da microbiota da pele e das mucosas, incluindo trato gastrointestinal e vaginal, é responsável por 90% dos casos de candidíase. Já a Candida glabrata está mais associada a episódios de recorrência. Os sintomas típicos são corrimento vaginal brancacento, prurido intenso, dispareunia e disúria”, explica a médica Vera Lúcia Ângelo Andrade.

Experiências clínicas têm sido positivas

A terapêutica com probióticos vem sendo estudada como prevenção e tratamento de infecções do trato gastrointestinal e urogenital porque esses microrganismos conseguem atuar por imunoestimulação ou por inibição da translocação bacteriana. A nutricionista Sarah Maria de Araujo Almeida explica que, como certas cepas são capazes de sobreviver à passagem pela acidez do estômago e à exposição dos sais biliares, e conseguem chegar vivas ao intestino, depois de atingirem o cólon podem alterar a microbiota positivamente e atingir a vagina e o trato urinário com viabilidade. Embora o Brasil não tenha estudos randomizados sobre o uso de probióticos em Ginecologia, a experiência clínica tem mostrado que algumas cepas podem ser úteis como coadjuvantes nos tratamentos.

O professor doutor Luís Carlos Sakamoto, responsável pela disciplina de Ginecologia na Faculdade de Medicina do Centro Universitário das Américas, membro da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Febrasgo e médico assistente do Hospital Pérola Byington, em São Paulo, ressalta que a administração de probióticos como adjuvantes no tratamento específico tem mostrado aumento na eficácia e na redução de recidivas, segundo estudo publicado na revista Nutrición Hospitalaria, em 2015. O tratamento da vaginose bacteriana e da vaginite aeróbica envolve diferentes antibióticos, mas a taxa de recorrência permanece alta. Os antibióticos não são capazes de restaurar espontaneamente a microbiota vaginal normal, o que facilita as recidivas”, ressalta.

A eficácia dos probióticos para o tratamento da candidíase em mulheres não grávidas foi recentemente avaliada em uma revisão sistemática da Biblioteca Cochrane e mostrou que houve ligeira melhora na taxa de cura clínica e micológica de curto prazo, assim como na redução da taxa de recaída no período de um mês. No entanto, nenhum impacto importante foi observado em longo prazo ou pós-tratamento. Tenho indicado probióticos para as pacientes que apresentam candidíase de repetição, muitas vezes acompanhada de infecção urinária, e elas têm relatado melhora clínica. Mas é importante ressaltar que a melhora não ocorre de um dia para o outro; precisa ingerir o probiótico com assiduidade para obter os efeitos desejados”, argumenta. O professor informa que os estudos indicam uma tendência de posologia oral dos probióticos, mesmo para beneficiar a microbiota vaginal – uma vez que os estudos sugerem ação benéfica sistêmica –, embora alguns cientistas também estejam testando as cepas de ação local. 

A professora Iara M. Linhares acentua que, até o momento, a maioria dos probióticos indicados para beneficiar a microbiota vaginal é realmente por via oral, mas existem alguns estudos, principalmente europeus, buscando entender se há uma ação benéfica por via local. Está na moda manipular probióticos, mas a minha impressão pessoal é que isso é um pouco complicado, porque não temos controle absoluto das cepas do ponto de vista científico. A questão é saber como o probiótico é preparado e armazenado, porque muitos deles, por exemplo, precisam de refrigeração”, argumenta. A ginecologista considera alguns resultados de estudos controversos, uma vez que a maioria não foi desenvolvida de forma randomizada e controlada, seja porque os pesquisadores trabalharam com um número pequeno de pacientes ou por não haver homogeneização na composição dos probióticos e nos esquemas de tratamento utilizados. Embora a impressão clínica seja favorável, ainda são necessários mais estudos, a serem realizados dentro de rigorosos padrões científicos e com um maior número de mulheres, para determinar qual o real papel dos probióticos para prevenção e tratamento das infecções vaginais.