Alimentação pode auxiliar no tratamento
Fernanda Ortiz Especial para Super Saudável
Estudos sugerem que Comportamento alimentar também influencia nos quadros de ansiedade
Apesar de isoladamente não tratar ou evitar o surgimento do transtorno de ansiedade, é indiscutível que a alimentação é uma poderosa arma para o bem-estar. Inúmeras pesquisas apontam, inclusive, que a dieta adequada e equilibrada, com todos os nutrientes e vitaminas que o corpo necessita para estar saudável, pode ser excelente coadjuvante para os tratamentos medicamentosos e psicoterápicos e, por isso, deve ser usada como auxiliar das terapêuticas multidisciplinares tradicionais. Entretanto, por maior que seja a ligação entre alimentação e saúde mental, apenas mudar ou incluir ingredientes nas refeições não é o suficiente para prevenir ou amenizar os sintomas relacionados a esse transtorno. Embora descartem o consumo isolado de determinados alimentos como garantia de melhora nos quadros clínicos, nutricionistas apontam que o comportamento alimentar influencia essa relação, por ser diretamente afetado pelas emoções. Afinal, as escolhas alimentares, as quantidades ingeridas e a frequência das refeições dependem de vários fatores, que vão além das necessidades fisiológicas.
A professora doutora Marle dos Santos Alvarenga, orientadora do programa de Pós-graduação em Nutrição em Saúde Pública na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), afirma que a ansiedade afeta a forma como o indivíduo se alimenta. “Se está triste, angustiado, se sentindo sozinho, agitado ou inseguro pode comer demais ou de menos. Quando se recorre à comida para conforto, alívio do estresse ou como uma recompensa, pode haver prejuízos, pois o indivíduo se alimenta da forma errada e sem os nutrientes necessários, e o alimento deixa de cumprir sua função de satisfazer a fome e passa a ser uma fuga de determinada emoção com a qual, naquele momento, ele é incapaz de lidar”, detalha. O ideal é que, nessas situações estressoras e muito ansiosas em que mente e corpo são afetados, o indivíduo primeiro se acalme, entenda o que está sentindo e depois se alimente, buscando por opções mais saudáveis e trabalhando a percepção de fome, apetite e saciedade da forma correta.
O indivíduo com transtorno de ansiedade, até mesmo por causa do quadro, pode se perder na rotina alimentar, pular ou exagerar nas refeições, fazer escolhas inadequadas de alimentos, comer distraído ou fazendo atividades simultâneas, não se concentrar naquilo que ingere ou comer rápido demais. “Essa forma errada de se alimentar, que atrapalha inclusive a digestão, resulta em inúmeros prejuízos que acabam por afetar ainda mais a saúde física e mental”, alerta a nutricionista Fernanda Pisciolaro, coordenadora da equipe de Nutrição do Ambulatório de Bulimia Nervosa do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HC-FMUSP) e do Grupo de Estudo, Assistência e Pesquisa em Comer Compulsivo e Obesidade (GRECCO). Além disso, o comer desorganizado induz a hábitos alimentares não saudáveis, principalmente pelo aumento excessivo da ingestão de carboidratos, alimentos ultraprocessados e gordurosos. A especialista ressalta que ter a atenção voltada exclusivamente para a refeição favorece o ajuste no tamanho das porções, as boas escolhas, a utilização dos nutrientes adequados e o consumo regular e balanceado que o corpo necessita.
A relação entre os nutrientes e os transtornos de ansiedade é muito complexa, uma vez que múltiplos fatores estão relacionados aos sintomas. Um exemplo são as diferenças genéticas entre os indivíduos, que fazem com que os déficits nutricionais repercutam mais ou menos no risco de adoecimento. A nutricionista Fernanda Pisciolaro acentua que o mais relevante para a saúde mental é o comportamento alimentar e, mais do que o consumo exclusivo de um alimento ou nutriente, o que importa ao cérebro é a diversidade e a harmonia entre eles, que resultarão em benefícios para a saúde. “Buscar alimentos saudáveis, frescos e naturais é essencial, o que não quer dizer que seja errado incluir, em pequenas doses, açúcar, carboidratos e produtos industrializados no cardápio, mesmo porque não há comprovação científica de que esses alimentos sejam responsáveis ou gatilhos para transtornos de ansiedade”, completa.
Moderação
Embora a alimentação não seja a causadora dos transtornos psiquiátricos, a dieta inadequada pode aumentar os níveis de ansiedade. “Não quer dizer que alguns alimentos devam ser excluídos da dieta, mas recomenda-se que sejam consumidos moderadamente. Um bom exemplo é a cafeína, presente no café, guaraná e em alguns chás que, por ser um estimulante do sistema nervoso, pode intensificar a ansiedade em alguns indivíduos”, ressalta a professora doutora do Departamento de Nutrição da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC‑PR), Magda Rosa Ramos da Cruz. Também estão incluídos nessa lista a gordura saturada, as bebidas alcoólicas, os chocolates, carboidratos refinados, alimentos industrializados e ultraprocessados – como refrigerantes, bolachas e salgadinhos, ricos em aditivos químicos e que aumentam a inflamação e liberação de cortisol, prejudicando o sistema nervoso. Embora as especialistas afirmem que não exista uma regra alimentar para todos os indivíduos, é importante lembrar que quanto mais alimentos in natura forem incluídos na alimentação, com controle do consumo de sal, açúcar, fontes de proteínas de origem animal e gorduras saturadas de origem animal e vegetal, melhores serão os benefícios para uma vida mais saudável.
Alimentos, serotonina e microbiota
A presença de determinados alimentos na dieta, especialmente os ricos em triptofano, pode ajudar a gerenciar a ansiedade de forma natural. O triptofano é um aminoácido essencial utilizado pelo cérebro para produzir serotonina, neurotransmissor capaz de propiciar sensação de bem-estar, regular o humor, melhorar o sono e contribuir para a saciedade. Além do triptofano, para a produção cerebral da serotonina há necessidade de consumo de outras matérias-primas fundamentais, como magnésio, cálcio (minerais), ácido fólico e vitaminas do complexo B. Entre os alimentos com essas características e que devem estar incluídos nas refeições, o destaque fica para a banana, rica em triptofano; peixes, ricos em gordura; carnes vermelhas; leite e derivados magros; ovos, que são fonte de vitaminas do complexo B e triptofano; grãos integrais; sementes oleaginosas, ricas em magnésio; e espinafre, por causa do ácido fólico.
Em termos nutricionais recomendam-se, ainda, alimentos com a presença de vitamina D (encontrada no salmão, em alguns cogumelos e na sardinha), cuja deficiência tem sido associada aos transtornos de humor em alguns estudos. A professora Magda Rosa Ramos da Cruz, da PUC-PR, explica que a ligação entre o consumo dietético de triptofano e a ansiedade é complexa e ainda necessita de novas investigações científicas antes de ser usada como estratégia nutricional para o tratamento dietoterápico do transtorno. Além disso, ressalta que os medicamentos não devem ser substituídos por alimentos durante o tratamento, mas utilizados como coadjuvantes, auxiliando na melhora rápida do paciente. “Cada caso é único, por isso, é preciso observar as características pessoais, de sexo, idade, estilo de vida, prática de atividade física, ausência ou presença de doenças, inclusive transtorno de ansiedade diagnosticado, e consumo alimentar habitual, entre outros critérios”, analisa.
A professora doutora Selma Sanches Dovichi, do Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), afirma que para todos os indivíduos, diagnosticados ou não com transtornos psiquiátricos, os vegetais de todos os tipos são indispensáveis. A indicação é consumir de 3 a 5 frutas in natura diferentes por dia (sendo que pelo menos uma deve ser cítrica); cereais, grãos e tubérculos amiláceos, preferencialmente nas versões integrais, além de feijões em todas as refeições; e hortaliças, de preferência cruas, no almoço e no jantar. “Ao ingerir esses alimentos, acompanhados de água em quantidade suficiente, é possível obter os nutrientes necessários para que o organismo encontre seu equilíbrio e reduza, na medida do possível, os sintomas de ansiedade quando esta se manifestar como doença”, informa.
Alguns alimentos, além de aumentar a produção de serotonina, ajudam a regular a microbiota intestinal e colaboram positivamente para melhorar os quadros de ansiedade. Segundo a professora Selma Sanches Dovichi, o consumo de alimentos que fornecem magnésio (como vegetais verdes, cereais, legumes e até produtos animais); ácido graxo ômega-3, presente nos óleos vegetais de soja, mostarda, noz e linhaça; ácidos eicosapentaenoico, docosapentaenoico e docosaexaenoico, encontrados em peixes e óleos derivados; e fibras alimentares provenientes de grãos integrais, frutas e vegetais estão efetivamente ligados a efeitos benéficos no microbioma intestinal humano e têm influência direta na redução do risco de ansiedade ou na diminuição dos sintomas do transtorno.
Estudos também apontam a influência da microbiota no comportamento e direcionam para dietas que incluem alimentos prebióticos e probióticos que, juntos, estimulam o crescimento de uma microbiota intestinal saudável. “A comunidade científica acredita na relação entre os padrões da microbiota e a presença ou ausência de doenças neurológicas, porque existem evidências suficientes que comprovam essa relação. Só que é importante lembrar que cada população, de acordo com a região onde vive, os hábitos culturais e os padrões genéticos, tem um microbioma saudável próprio, e manter-se nesse patamar requer reconhecer os diferentes padrões de microbioma e as influências da alimentação”, avalia a professora Selma Sanches Dovichi.
A conexão cérebro-intestino-microbiota (leia mais na página 14) também tem um caminho de volta e, quando a ansiedade se faz presente, o organismo acredita estar em perigo. Por isso, reage mudando sua dinâmica. Assim, se a ansiedade prejudica a digestão e causa desconfortos como dor de estômago, gases, constipação e diarreia, esse é um alerta de que algo está errado e que a melhor opção é cuidar dos dois lados. “Isso significa procurar tratamento para os sintomas que levaram ao transtorno e buscar alternativas complementares para melhorar a qualidade de vida, o que pode incluir mudanças nutricionais e a forma como o indivíduo se alimenta”, analisa a nutricionista Fernanda Pisciolaro.