Estresse à flor da pele
Elessandra Asevedo Especial para Super Saudável
O problema pode ser o responsável pelo surgimento e agravamento de diferentes doenças dermatológicas
A pele pode refletir o que se passa dentro do organismo humano e manifestar, literalmente, que o bem-estar emocional não está equilibrado. É muito comum que indivíduos passando por momentos de estresse e ansiedade desencadeiem enfermidades na pele ou sofram com a piora de doenças pré-existentes. Entre os diagnósticos mais comuns estão dermatite seborreica (caspa) – que pode aparecer não só na cabeça, como nas sobrancelhas e na barba –, psoríase, vitiligo, urticária e acne, que podem se manifestar de forma leve ou com grande intensidade, prejudicando a qualidade de vida. As doenças de pele mais frequentemente relacionadas ao estresse incluem, ainda, quedas de cabelo e alopecia areata, condição caracterizada pela perda de pelos no formato de áreas arredondadas. Além disso, existe a possibilidade de ocorrer uma redução da resposta imunológica gerada pelo cortisol, facilitando doenças contagiosas e infecciosas como herpes, verruga, micose, candidíase e infecções de pele.
Essa relação entre situações estressantes e doenças dermatológicas geralmente ocorre porque o estresse molda a resposta endócrina e neurológica, levando a alguma interferência no maior órgão do corpo humano. Nem todo indivíduo que passa por um momento de estresse terá uma reação na pele, pois trata-se de um processo de causa multifatorial, incluindo condições genéticas favoráveis ao desenvolvimento de doenças dermatológicas ou mesmo predisposição genética, que poderia ficar desconhecida se o estresse não surgisse como um gatilho para desencadeá-la.
O processo de aparecimento dessas doenças ocorre, ainda, porque existe uma intersecção bastante complexa entre estresse, sistema neurológico e sistema endócrino, levando um a interferir no outro, moldando as respostas imunológicas e provocando uma imunointerferência na pele. O estresse também aumenta os radicais livres, facilitando todo o processo inflamatório.
Segundo a médica dermatologista Tatiana Gabbi, do Departamento de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), o estresse desencadeia a liberação da adrenalina, que é vasomotora e gera uma constrição vascular fazendo com que tenha uma predominância do sistema nervoso autônomo. Com isso, há o desencadeamento de algumas doenças, como rosácea e urticária, que têm componente vasomotor. “Tem também o cortisol, hormônio do estresse que aumenta a secreção das glândulas sebáceas que ficam no couro cabeludo, na pele da face e na parte superior do corpo, elevando a dermatite seborreica e a acne, que têm relação direta com o aumento do sebo”, ensina.
A inflamação é a maneira de o corpo lidar com o estresse, e o sistema imunológico responde a lesões e infecções enviando substâncias químicas que causam inflamação e ajudam na cura. No entanto, em pessoas com psoríase, por exemplo, o sistema imunológico responde em excesso, tornando-se um gatilho para o surto. Dependendo do nível e da fase do estresse, assim como da genética do paciente, pode aparecer o vitiligo. “O vitiligo é uma doença autoimune e, por um gatilho como um estresse, o pigmento passa a ser reconhecido como um corpo estranho e o organismo começa a combatê-lo. Dizemos que o vitiligo é o carimbo na pele dizendo que um estresse maior aconteceu na vida daquele indivíduo”, afirma a médica dermatologista Magda Blessmann Weber, representante da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).
Lesão pode gerar ainda mais sofrimento e perda na qualidade de vida
Muitas das doenças dermatológicas cujo gatilho é o estresse não são consideradas graves ou colocam a saúde em risco, no entanto, geralmente estão associadas com um impacto social que interfere na qualidade de vida. “O estresse causa as doenças de pele e, dependendo do indivíduo, principalmente se forem crianças e adolescentes, o tipo de lesão desencadeada pode gerar sofrimento, aumentar ainda mais o estresse e piorar o quadro cutâneo, criando um círculo vicioso”, pontua o médico dermatologista José Jabur, professor doutor de Clínica Médica e integrante do Departamento de Dermatologia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Diferentemente das demais doenças de pele, as que estão associadas ao estresse precisam de uma abordagem diferenciada do dermatologista, que deve ter consciência do fator psicossocial a que o paciente está submetido, porque são enfermidades que podem ter sintomas persistentes como descamações, feridas e ardência. Além disso, em geral essas enfermidades são estigmatizantes e geram dificuldades sociais, podendo levar à depressão e à ansiedade e, consequentemente, diminuindo drasticamente a qualidade de vida.
A dermatologista Tatiana Gabbi lembra que é importante estabelecer uma relação de empatia com o paciente, porque a falta de conexão e a fragilidade vivenciadas naquele momento podem encobrir as reais causas da doença, gerando diagnóstico e tratamento incompletos. Em geral, doenças dermatológicas são tratadas primeiramente com remédios de uso tópico e, dependendo da gravidade, pode-se incluir medicamentos orais e até injetáveis. No entanto, quando são desencadeadas pelo estresse, também é necessário entender e tratar (ou amenizar) o problema causador e, neste caso, um psicólogo ou psiquiatra são os profissionais mais indicados para ajudar, desde que o paciente aceite a intervenção. “Claro que, na maioria das vezes, percebemos pela fala e pelo comportamento que o paciente está passando por um momento de tensão, e precisamos de um bom relacionamento para ter abertura de indicar um psicólogo ou psiquiatra que possa ajudá-lo”, orienta.
Os relacionamentos familiares e de amizade também são fundamentais para que as pessoas saibam lidar com o estresse e as doenças desencadeadas por essa condição. Muitas vezes, conviver com uma enfermidade de pele, que é visível para todos, pode dificultar a formação de novos amigos e abalar a confiança. Por isso, os especialistas orientam os pacientes a fazer parte de grupos de apoio com indivíduos que passam pela mesma situação, o que ajuda a diminuir a ansiedade social. Hábitos saudáveis de vida, como praticar atividade física, dormir bem e consumir alimentos com bons nutrientes ajudam a diminuir os mecanismos gerados pelo estresse. “A meditação tem se mostrado excelente aliada no tratamento de casos como esses, porque reduz a preocupação e tira o foco dos sintomas e da doença”, sugere o dermatologista José Jabur.