L. casei Shirota beneficia maratonistas
Estudo desenvolvido na Universidade Federal de São Paulo mostra que o probiótico modula a resposta imune inflamatória da mucosa
A maratona é uma das atividades esportivas que mais exigem esforço físico dos atletas, além de muita concentração e grande preparo mental. Um dos aspectos mais relevantes relacionados à interação entre exercício físico e resposta imune é que os atletas submetidos a esforços de alta intensidade, exaustivos e prolongados apresentam aumento da incidência de infecções do trato respiratório superior (URTI, na sigla em inglês), tanto no contexto de competições como durante treinamentos, com sintomas que duram de 2 a 10 dias, em geral subsequentes às corridas. Estudos anteriores sugeriam que o mecanismo causador dessas manifestações estava relacionado a infecções, embora inflamação e alergias nas vias aéreas também pudessem ser responsáveis pelas alterações. No entanto, estudos mais recentes constataram que, na verdade, o que ocorre é uma inflamação das vias aéreas superiores causada por uma alteração da resposta imunológica da mucosa e, possivelmente, da imunidade sistêmica.
Segundo a literatura científica, uma das características benéficas dos lactobacilos para a saúde é justamente a capacidade de regular o sistema imunológico sistêmico e da mucosa. Alguns estudos envolvendo a ingestão de Lactobacillus rhamnosus e Lactobacillus casei Shirota mostraram efeitos protetores sobre a incidência de sintomas respiratórios e do trato gastrointestinal em atletas durante o período de treinamento e duas semanas após uma maratona, assim como diminuição de frequência, duração e gravidade dos sintomas. Para avaliar a influência da ingestão diária da cepa Lactobacillus casei Shirota nas respostas sistêmicas e imunoinflamatórias de vias aéreas superiores de maratonistas adultos, antes e depois de uma prova, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com outras instituições de ensino e pesquisa, desenvolveram um estudo duplo-cego, placebo controlado, que mostrou benefícios importantes do probiótico da Yakult.
O estudo ‘Daily intake of fermented milk containing Lactobacillus casei Shirota (LcS) modulates systemic and upper airways immune/inflammatory responses in marathon runners’ – pioneiro e inédito em termos de literatura mundial – reuniu 42 homens maratonistas de São Paulo, foi realizado em junho de 2017 e publicado em julho de 2019. O pré-requisito era que todos tivessem experiência em maratonas e documentado algum sintoma de vias aéreas superiores em pelo menos uma delas. “A maratona é padrão ouro quando se fala de estudos com corredores, por ser um exercício prolongado e exaustivo, em que todos são submetidos ao mesmo desafio, no mesmo tempo e sob as mesmas condições. Durante a maratona, os atletas também ficam submetidos à mesma carga de estresse e ansiedade, porque querem melhorar o tempo e o desempenho. Por isso, é uma prova que favorece a avaliação da resposta imunológica”, explica o professor doutor André Bachi, pesquisador do Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa em Imunologia Pulmonar e do Exercício (Ibepipe) e professor visitante da Unifesp, que desenvolveu o estudo em conjunto com o professor doutor Mauro Vaisberg, do Departamento de Otorrinolaringologia da Unifesp.
Os voluntários tinham média de 39 anos de idade, foram submetidos a exames clínicos e cardiopulmonares para caracterizar a capacidade cardiorrespiratória e passaram por análise da composição corporal por meio da absorciometria bifotônica por raios-X duplo (DEXA) – método que mede com alta precisão a massa dos tecidos muscular, ósseo e adiposo do corpo inteiro ou de membros separadamente. Com esses dados, em conjunto com o último registro de corrida de cada voluntário, os maratonistas foram divididos em dois grupos – 22 no grupo controle e 20 no grupo LcS. Todos foram instruídos a manter a dieta e os horários habituais de treinamento e de exercício físico, além de relatar a ocorrência e a duração de sintomas respiratórios superiores ou distúrbios gastrointestinais que pudessem ocorrer durante o estudo. O trabalho também envolveu cinco coletas de sangue, saliva, células e lavagens em jejum da mucosa nasal, que permitem obter moléculas presentes no trato respiratório superior. As coletas começaram 30 dias e 24 horas antes da competição (pós-ingestão), imediatamente, 72 horas e 14 dias depois da maratona. A última sessão de treinamento foi realizada 24 horas antes da coleta das amostras.
Os participantes foram orientados a ingerir um frasco de 80g de leite fermentado com 40×109 unidades formadoras de colônias (UFC) de Lactobacillus casei Shirota (grupo LcS), e leite fermentado sem o probiótico, mas com igual sabor, cor e pH (grupo placebo) por 30 dias antes da SPCity, tradicional maratona de 42km realizada na cidade de São Paulo. Os frascos foram cedidos pela Yakult do Brasil e identificados pelo fabricante com as letras A e B, e a informação sobre a presença ou ausência de L. casei Shirota nos frascos foi fornecida pela Yakult somente após o término do estudo. “A prova na qual os maratonistas foram avaliados constitui um grande desafio, tanto do ponto de vista físico quanto emocional, e o resultado mostrou que o Lactobacillus casei Shirota modulou a resposta inflamatória imunológica. Embora não tenhamos medido o padrão cognitivo dos maratonistas, pelo fato de o organismo funcionar de maneira integrada é possível que também tenha havido algum efeito positivo”, comenta o professor Mauro Vaisberg, ao justificar a hipótese devido aos mais de 400 artigos científicos que mostram uma relação entre probióticos e cognição.
Parceria
O estudo ‘Daily intake of fermented milk containing Lactobacillus casei Shirota (LcS) modulates systemic and upper airways imune/inflammatory responses in marathon runners’ envolveu vários pesquisadores de diversas instituições do Estado de São Paulo, entre as quais os departamentos de Fisiologia, Morfologia, Patologia Experimental, Ortopedia e Traumatologia, Ciências Humanas e do Movimento da Unifesp; dos programas de Pós-graduação em Bioengenharia e Engenharia Médica da Universidade Brasil, e do programa de Pós-graduação interdisciplinar em Ciências da Saúde da Universidade Cruzeiro do Sul. Todos os experimentos foram realizados no Instituto de Atividade Física, Ciência e Esportes da Universidade Cruzeiro do Sul e no Departamento de Otorrinolaringologia da Unifesp. O estudo científico, que estava de acordo com a Declaração de Helsinque, também foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Cruzeiro do Sul e pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) sob o número CAAE: 67318317.3.0000.8084. O artigo, publicado na revista on-line Nutrients em edição especial sobre Lactobacillus, é aberto e está disponível on-line no https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31336570.
Resultados confirmam ação imunomoduladora
Durante os 30 dias do experimento, os pesquisadores mantiveram contato diário com os voluntários com objetivo de obter a máxima informação sobre o estado de saúde de cada um e, segundo os relatos, nenhum sintoma foi relatado antes da prova. Depois do término da maratona, oito voluntários do grupo placebo (36,37%) relataram coriza, espirros, coceira e sensação de queimação no nariz, congestão nasal, garganta seca, dor de garganta, resfriado e gripe, que começaram no primeiro dia após a competição e se estenderam por até 10 dias. No grupo LcS, apenas três voluntários (15%) relataram tosse, nariz congestionado e ressecado, assim como lesão herpética. Neste grupo, entretanto, os sintomas duraram até cinco dias após a maratona. Os testes estatísticos não mostraram diferenças significativas tanto na proporção (p=0,076) quanto na duração (p=0,089) dos sintomas de infecções do trato respiratório superior entre os voluntários dos dois grupos.
“Embora o perfil imunológico dos grupos tenha se mostrado diferente em relação ao efeito da maratona, quem ingeriu o produto com Lactobacillus casei Shirota teve melhor modulação e controle inflamatório-imunológico. O número de indivíduos que apresentou doença depois da prova e o tempo em que permaneceram doentes também foi menor. Isso mostra a modulação que o probiótico proporcionou para não ficarem doentes e se curaram mais rápido”, detalha o professor André Bachi. Além disso, uma análise estatística de sobrevida indicou que 25% dos atletas do grupo placebo que adoeceram tiveram manifestação e severidade da doença que os colocavam em risco, inclusive de um desfecho muito ruim. Nos que ingeriram o leite fermentado com Lactobacillus casei Shirota, ao contrário, tanto a manifestação quanto a severidade da doença não causavam qualquer risco aos atletas. Os resultados também mostraram que, após a maratona, o L. casei Shirota manteve os níveis salivares de imunoglobulina A (sIgA) – anticorpo que desempenha papel crucial na função imunitária das membranas das mucosas –, e de peptídeos antimicrobianos; aumentou os níveis de interleucina 10 (IL-10) nasal, uma citocina anti-inflamatória clássica que levou à maior relação IL-10 / IL-12p70 nasal no grupo LcS imediatamente após a maratona; reduziu os níveis nasais de citocinas pró-inflamatórias e diminuiu a infiltração de neutrófilos nas mucosas nasais, demonstrando um efeito anti-inflamatório induzido pelo probiótico nas vias aéreas superiores.
Apesar de não terem avaliado as vias aéreas inferiores, os pesquisadores acreditam que existe uma grande chance de o L. casei Shirota também ter efeito benéfico nessa região, que inclui traqueia, pulmões, brônquios, bronquíolos e alvéolos pulmonares. “O probiótico tem ação intestinal, portanto, podemos considerar que todo o ajuste que a cepa pode ter feito no intestino repercutiu sistemicamente. Só não conseguimos medir os dados da célula NK, mas a modulação que aparentemente ocorreu na circulação e na área sistêmica pode ter influenciado para uma melhor atividade dessas células de defesa também”, argumenta o professor André Bachi. Outro dado interessante é que, nos 30 dias de ingestão do leite fermentado com Lactobacillus casei Shirota, nenhum dos atletas reportou qualquer alteração evidente ou um efeito que pudesse ter causado prejuízo. Entretanto, no momento da prova intensa, o probiótico teve o efeito esperado e mostrou que tem capacidade de modular a resposta inflamatória imunológica. Por isso, provavelmente também pode ajudar aqueles indivíduos que praticam atividade física regular e, eventualmente, têm um treino com maior intensidade.
Agora, o grupo de pesquisa está avaliando se os maratonistas que ingeriram Lactobacillus casei Shirota ou placebo modularam de alguma maneira o desempenho na prova. Embora a média de tempo dos dois grupos na maratona tenha sido muito semelhante, o que sugere que o Lactobacillus casei Shirota não interferiu no desempenho, a análise vai avaliar o tempo de maratona de cada atleta e comparar com os dados do teste cardiorrespiratório realizado no começo do estudo. Com esse teste será possível predizer qual seria a faixa de tempo de cada atleta na competição e comparar com a faixa de tempo real para analisar se houve perda, ganho ou se ficou dentro do tempo previsto. “Para o atleta, saber que não vai ficar doente depois da maratona é importante, mas, se ele souber que vai melhorar o desempenho ou, no mínimo, que não vai perder performance se passar a ingerir Lactobacillus casei Shirota, será excelente. E é isso que estamos querendo descobrir”, ressalta o professor Mauro Vaisberg. Esse novo estudo deve ficar pronto até o fim de 2019. Em outro trabalho, o grupo quer confirmar o efeito do L. casei Shirota na proteção da mucosa.
Efeito sistêmico
O professor Mauro Vaisberg lembra que o sistema imune sistêmico visa proteger o organismo de forma geral, enquanto todo o sistema imune de mucosa é feito para tolerar situações extremas a que o ser humano é submetido, a exemplo da poluição. “Desde que nasce, o indivíduo precisa respirar e o sistema imune da mucosa vai criando condições de proteger o organismo dos agentes externos. Embora o sistema imunológico sistêmico e o de mucosa sejam separados por uma estrutura anatômica, ambos têm funções de proteção; têm respostas separadas, mas trabalham em conjunto. Tanto é assim que o leite fermentado com Lactobacillus casei Shirota foi ingerido e a resposta que se viu foi na via aérea. Isso quer dizer que o probiótico melhora o indivíduo do ponto de vista sistêmico”, avalia. O pesquisador acredita que, para qualquer indivíduo que inflame, seja atleta de alta performance ou praticante de atividade física regular, a ingestão de probiótico pode ser um fator de proteção da via aérea, especialmente se o indivíduo viver em grandes cidades com índices elevados de poluição.