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 Mais saúde do que prosperidade

 Conhecida pelos efeitos anti-inflamatório e antioxidante, a romã tem importante composição nutricional

Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
 
Fruta do amor e símbolo da prosperidade, a romã proporciona muito mais do que felicidade e sucesso para quem a consome. Considerada um alimento multifuncional, da fruta tudo se aproveita: sementes, polpa e casca que, juntas, apresentam importante composição nutricional contendo vitamina C, sódio, potássio, cálcio, ferro, fibras e outros micronutrientes. Conhecida por seu efeito anti-inflamatório e como potente antioxidante, o consumo regular da romã oferece inúmeros benefícios à saúde, mostrando-se promissor no controle dos níveis de colesterol e na prevenção de várias enfermidades. Ainda pouco inserida na alimentação dos brasileiros, tanto pela baixa produção nacional quanto pela falta de tradição no emprego dietético e culinário da polpa e outras partes, a fruta é muito flexível e pode ser consumida in natura, em forma de suco, infusões, nas saladas ou como ingrediente de molhos.

O uso da romã como alimento contendo propriedades favoráveis à saúde data de muitos séculos. Esses benefícios de conhecimento empírico vêm sendo comprovados por meio de inúmeros estudos com modelos experimentais em animais e cultura de célula. “Esses experimentos associam os benefícios às propriedades nutricionais e à presença de compostos bioativos, cuja constituição pode variar entre cultivares, solo e condições climáticas, fatores que influenciam a concentração dessas substâncias nas diferentes partes do fruto”, descreve a professora doutora em Nutrição, Rosângela Maria Neves Bezerra, da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (FCA-Unicamp).

Considerada uma planta medicinal completa, com fruto, folhas, flores, caule e raiz, o consumo regular da romã pode auxiliar no tratamento de diabetes mellitus, reduzindo a glicose sanguínea; problemas gastrointestinais, como diarreia crônica e verminoses; e odontológicos, a exemplo de gengivite e fungos causados pelo uso de próteses dentárias. “Além disso, há comprovações de seus benefícios na prevenção e no tratamento de câncer a partir da inibição de células tumorais, e da aterosclerose, pela redução da peroxidação lipídica. A fruta também apresenta propriedade antifúngica, anti-inflamatória, vermífuga, cicatrizante, antibacteriana, antioxidante e antitumoral”, elenca a nutricionista Juliana Pires Civitate, mestre em Fisiopatologia em Clínica Médica pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP).

A romã possui quantidade significativa de flavonoides, que protegem a planta contra danos oxidativos; taninos, compostos pigmentados que proporcionam o sabor adstringente da polpa e casca; e antocianinas que conferem a cor púrpura. Juntas, essas substâncias podem combater o estresse oxidativo causado pelo excesso de radicais livres no organismo e, com isso, são aliadas na redução de riscos e na prevenção de doenças crônicas. “O equilíbrio dos compostos bioativos presentes no fruto é que conferem o benefício do poder antioxidante”, descreve o professor do curso de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Gilberto Simeone.

Todas as partes da romãzeira contêm nutrientes. Porém, a polpa, o pericarpo e as sementes possuem maior variedade e riqueza dessas substâncias. “Na casca existem principalmente taninos e outros compostos, que podem ser ingeridos como suco ou infusão”, ressalta a nutricionista Juliana Pires Civitate. Mas a infusão não pode ser feita com água fervente, pois os antioxidantes são compostos instáveis ao calor. A casca cozida ou in natura serve para tratar inflamações na boca e na garganta, por meio de gargarejo ou bochechos, e também pode ser mascada crua. Tais benefícios ocorrem porque a casca da romã tem ação anti-inflamatória.

A romã deve fazer parte das 4 a 5 porções de frutas consumidas diariamente, in natura, suco ou infusão, conforme indica o Guia Alimentar Brasileiro. A professora Rosângela Maria Neves Bezerra enfatiza que, mesmo com todos os benefícios da romã, não existe um único alimento que contribuirá para a prevenção de enfermidades, mas o conjunto de ações que culminam com bons hábitos de vida. “Além das frutas, é importante frisar que o consumo de vegetais, gorduras, alimentos fontes de carboidratos e açúcares simples, nas porções indicadas na Pirâmide Alimentar, a ingestão de água e a prática regular de atividade física é que propiciam uma condição favorável para reduzir os riscos de alterações fisiopatológicas”, completa.
 
Casca da romã e prevenção de Alzheimer

Estudos realizados pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP) e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo indicam que a casca da romã é rica em substâncias que auxiliam na prevenção do Alzheimer. Desde 2010, a pesquisadora Maressa Caldeira Morzelle, doutora em Ciência e Tecnologia de Alimentos e docente da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) trabalha com objetivo de verificar se a romã, especialmente sua casca, apresenta efeito neuroprotetor.

“Nos primeiros anos, realizamos testes químicos e, em seguida, foi feito estudo com modelos animais para a doença de Alzheimer. Constatamos que o consumo do extrato, produzido por processo de microencapsulação em spray dryer – equivalente a 800mg/kg/animal/dia –, reduziu os marcadores de estresse oxidativo e os níveis de marcadores inflamatórios”, conta. O consumo da casca de romã foi capaz de inibir a atividade da enzima acetilcolinesterase em até 77%. Além disso, os animais tratados apresentaram níveis elevados de substâncias que favorecem a sobrevivência dos neurônios, conhecidos como neurotrofinas, e foram capazes de reduzir o acúmulo de placas amiloides em torno de 11%, uma das principais características do Alzheimer.

Os resultados dos testes indicaram que o tratamento auxiliou na manutenção da memória espacial dos animais, cuja formação e recuperação dependem de áreas do cérebro que, normalmente, são as mais atingidas pela doença, atestando o efeito neuroprotetor. Além disso, a casca da romã apresenta níveis 10 vezes mais elevados de compostos fenólicos que a polpa, destacando-se como importante fonte de antioxidantes. “Apesar dos excelentes resultados, há ainda um longo caminho para que o extrato seja testado em humanos”, avalia. A pesquisa foi publicada na revista Plos One.