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 Leite Fermentado beneficia idosos

Resultados de estudo sugerem que o consumo prolongado de produto com LcS pode ser útil para diminuir os riscos de infecção
 
Kan Shida, Tadashi Sato, Ryoko Iizuka, Kouji Miyazaki, Masanobu Nanno e Fumiyasu Ishikawa, Instituto Central Yakult; Ryotaro Hoshi, Osamu Watanabe e Tomoki Igarashi, Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, Yakult Honsha, Tóquio, Japão
 
Funções fisiológicas, orgânicas, imunocompetência e deglutição declinam em idosos e resultam em vários problemas de saúde, especialmente em casas de repouso. Constipação e diarreia reduzem a qualidade de vida desses indivíduos e requerem grande esforço dos funcionários dos estabelecimentos que prestam suporte. Os idosos também são altamente susceptíveis a infecções, com doenças infecciosas sendo intratáveis e propensas a aumentar a severidade. Além disso, infecções por Staphylococcus aureus resistente à meticilina podem espalhar dentro do estabelecimento através do contato dos funcionários e transmissores da doença. Assim, é importante que os funcionários evitem tornarem-se transmissores de bactérias patógenas para controlar infecções nosocomiais. 

O Lactobacillus casei Shirota (LcS) é um probiótico que tem sido reconhecido pelos muitos efeitos benéficos em humanos, incluindo efeitos imunoestimulante, preventivo contra complicações infecciosas pós-operatórias e inibidor contra câncer e alergias. A administração de probióticos em idosos tem sido reportada para reduzir constipação e diarreia, por meio da melhora da regulação intestinal, aumento da imunidade e regulação do ambiente intestinal. Espera-se que os probióticos sejam úteis na regulação intestinal e prevenção de doenças infecciosas, incluindo doenças intestinais e virais, mas há poucos estudos controlados e randomizados que auxiliam essas alegações.

Realizamos o estudo ‘Eficácia de leite fermentado contendo Lactobacillus no controle de infecções entre os idosos de clínica de repouso: um estudo duplo cego, randomizado, placebo controlado’, com a intenção de esclarecer a utilidade do leite fermentado contendo Lactobacillus casei Shirota na regulação da evacuação e melhora no controle de infecção em idosos e funcionários de uma clínica de repouso. O estudo foi conduzido com o objetivo de controlar o risco de doenças infecciosas entre os idosos na clínica de repouso do Hospital Sousen, um estabelecimento para cuidado especial aos idosos que não conseguem exercitar-se por conta própria e necessitam de assistência geral para viver, a partir de 1° de setembro de 2009. O consumo do leite fermentado em longo prazo resultou na diminuição do período de febre durante a gastroenterite provocada por norovírus, além de diminuição da febre geral, constipação e diarreia, melhora da microbiota intestinal e do ambiente entérico.

O estudo incluiu 88 idosos do Hospital Sousen, que foram registrados e divididos aleatoriamente em dois grupos: leite fermentado-LcS (YIT 9029) e placebo, para que não houvesse influência de sexo, idade ou índice de massa corpórea. O protocolo do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Estudos Humanos da Universidade de Juntendo. De acordo com a versão revisada da Declaração de Helsinki (última revisão: outubro de 2000; com nota no rodapé em 2002 e 2004), os participantes receberam explicações suficientes em relação ao conteúdo e metodologia da análise, e foi obtido termo de livre consentimento. Vinte e dois funcionários também foram divididos aleatoriamente em dois grupos: leite fermentado-LcS e placebo, e registrados no mesmo estudo. Este projeto foi registrado na UMIN Clinical Trial Registry (http://www.umin.ac.jp/ctr/) através do número de registro UMIN000005183, e foi necessário selecionar um limite superior de 100 devido ao número limitado de participantes que continuaram a residir na enfermaria durante o período de teste.

As amostras teste foram o leite fermentado-LcS (nome do produto Yakult 400, Yakult Honsha Co. Ltd) e placebo (80ml/frasco). O leite fermentado-LcS era composto por leite desnatado, xarope de milho com frutose e aromas. A composição de cada frasco de 80ml foi a seguinte: 62kcal de valor energético, 1,0g de proteína, 0,1g de lipídeos, 14,4g de carboidratos e 15mg de sódio. O número de células de LcS foi 4x1010 ou mais no momento da ingestão. O placebo não continha LcS, mas o valor energético e a doçura foram ajustados com xarope de milho com frutose para ficar idêntico ao leite fermentado-LcS. Os demais ingredientes e a aparência foram basicamente iguais ao do leite fermentado-LcS. O sabor também foi ajustado para ficar igual ao do leite fermentado-LcS.
 
Cronograma e ingestão de leite fermentado

Foi realizado teste com dois grupos duplo-cego randomizado paralelo de setembro de 2009 a abril de 2010. Após um pré-período de três semanas de restrição de consumo de bebidas lácteas fermentadas, o leite fermentado-LcS ou placebo foram consumidos diariamente por seis semanas. Os participantes consumiram o leite fermentado ou placebo uma vez ao dia, depois do almoço, e não alteraram seus estilos de vida, como hábitos alimentares e exercícios, com exceção do consumo da amostra teste todos os dias em horários fixos. Além disso, durante o período de teste não foi permitido consumir outro tipo de leite fermentado ou oligossacarídeos. As enfermeiras do Hospital Sousen registraram diariamente, em um prontuário médico, temperatura do corpo, frequência de evacuações e uso de agentes antimicrobianos ou laxantes durante o período do estudo. A constipação foi definida como condição na qual o indivíduo teve menos de três evacuações por semana. Sobre todas as observações, na segunda semana de ingestão do leite fermentado-LcS e depois de 1, 3 e 6 meses de ingestão das amostras teste, as estatísticas do prontuário médico foram utilizadas para análise.

Amostras de fezes foram coletadas antes do consumo de qualquer amostra teste e depois de 1, 3 e 6 meses. No Hospital Sousen, aproximadamente 0,5g de amostras de fezes foram coletadas e armazenadas em tubos para análise da microbiota fecal, contendo 2ml de RNAlater (Ambion Inc., Austin, Tex., EUA) e um tubo vazio foi usado para análise de ácidos orgânicos. Após a incubação em temperatura ambiente por 10 minutos, as amostras foram congeladas a -20°C e encaminhadas para o Instituto Central Yakult. A contagem bacteriana foi determinada utilizando o Yakult Intestinal Flora-SCAN (YIF-SCAN®), de acordo com a técnica de PCR quantitativo em tempo real. A especificidade do ensaio de PCR quantitativo em tempo real, do grupo espécie, gene do Staphylococcus spa e o primer do gene específico do Staphylococcus mecA foram determinados como descritos anteriormente.

Para quantificação da concentração de ácidos orgânicos nas fezes e pH, uma porção de fezes homogeneizada foi isolada, pesada e misturada com 0,15M de ácido perclórico em um volume quatro vezes maior e incubado a 48°C por 12 horas. Depois, a mistura foi centrifugada a 20.000g a uma temperatura de 48°C por 10 minutos, e o sobrenadante filtrado em membrana (Millipore Japan, Tóquio, Japão) e esterilizado. A concentração de ácido orgânico nesta amostra foi medida utilizando o sistema de HPLC da Waters (Waters 432 Conductive Detector; Water Corporation, Milford, Mass., EUA) e coluna Shodex Rspack KC-811 (Showa Denko, Tóquio, Japão). O pH das fezes foi medido diretamente nas fezes homogeneizadas, utilizando pHmetro D-51 com eletrodo de vidro (Horiba Seisakusho Co., Ltd., Tóquio, Japão).
 
Análises estatísticas e resultados

Para a análise estatística dos itens do prontuário médico foram adotados resultados gerais do período de duas semanas antes da ingestão de leite fermentado (26 de setembro a 9 de outubro de 2009) e depois de 1, 3 e 6 meses de ingestão (24 de outubro a 6 de novembro/2009; 25 de dezembro/ 2009 a 7 de janeiro/2010; 12 a 25 março/2010, respectivamente). Para a análise da microbiota fecal, níveis de ácido orgânico e pH foram utilizados resultados antes da ingestão e após 1, 3 e 6 meses de ingestão. O teste t de Student (para dias com febre, frequência de constipação, dias com diarreia, dias de utilização de antibiótico/laxante e pH fecal) e o teste U de Mann-Whitney (microbiota fecal e níveis de ácido orgânico) foram utilizados para comparação entre os grupos.

O teste pareado paramétrico para dias com febre, frequência de constipação, dias com diarreia, dias de antibiótico/laxante e pH fecal, e o teste não paramétrico também foram usados. O teste de Wilcoxon (para microbiota fecal e níveis de ácido orgânico) foi utilizado para comparar os itens antes e depois da ingestão. Todas as análises estatísticas foram realizadas utilizando o programa SPSS (versão 11, SPSS Japan Inc., Tóquio Japão). O nível de significância em ambos os lados foi estabelecido em 5% em todos os testes. Um total de 72 idosos completou o estudo: grupo leite fermentado-LcS (n=36) e placebo (n=36). Todos os 20 funcionários selecionados para o estudo (10 no grupo leite fermentado-LcS e 10 no placebo) completaram o estudo.

A média dos ‘dias com febre’ (dias em que a temperatura corporal foi ≥ 37°C) nos grupos leite fermentado-LcS e placebo, antes do consumo das amostras teste, foram de 1,6 dias (2 semanas/pessoa) e 1,9 dias, respectivamente. Após 3 e 6 meses de ingestão do leite fermentado-LcS, as médias de dias com febre no grupo leite fermentado-LcS foi 1,2 e 1,1 dias, respectivamente. Em contrapartida, no grupo placebo foram 2,7 e 2,5 dias, respectivamente. A diferença entre os dois grupos foram estatisticamente significativas (p < 0,05 cada). O índice médio de constipação do grupo LcS após o consumo foi 0,6 vezes, significativamente menor em relação a 1,0 vez do grupo placebo (p < 0,05). Enquanto isso, a média de incidência de diarreia no grupo leite fermentado após três meses de consumo foi de 0,3 dias, menor em relação a 0,7 dias do grupo placebo (p < 0,05).

Quanto à duração do antibiótico e uso de laxante durante o período de seis meses, a média (± SD) do grupo leite fermentado foi de 5,1 dias ± 11,6 dias, enquanto que no placebo foi de 8,3 ± 16,8 dias. A média do período de uso de laxante no grupo leite fermentado-LcS foi 73,2 ± 82,1 dias, enquanto no placebo foi de 82,7 ± 79,7 dias. As diferenças entre os dois grupos não foi estatisticamente significativa. Ao medir a influência do consumo do leite fermentado em longo prazo na microbiota fecal dos idosos, constatamos que, após 1, 3 e 6 meses de ingestão, o número de Bifidobacterium nas fezes foi significativamente mais alto no grupo leite fermentado-LcS em comparação ao placebo (p < 0,05).

Além disso, o número aumentou significativamente no 1° e 6° meses de ingestão, em comparação com o período que antecedeu o consumo (p < 0,01 e p < 0,05, respectivamente). No grupo leite fermentado-LcS, o número total de Lactobacillus aumentou significativamente após 1, 3 e 6 meses de ingestão em relação ao período que antecede o consumo (p < 0,01, p < 0,05 e p < 0,05, respectivamente). As contagens das seguintes bactérias presentes nas fezes foram significativamente menores no grupo leite fermentado nos 1°, 3° e 6° meses após ingestão do leite fermentado: Clostridium difficile, C. perfringens, Enteribacteriaceae, Staphylococcus e Pseudomonas, também em relação ao placebo. O LcS foi recuperado das fezes de todos os participantes do grupo leite fermentado-LcS em níveis de 108 UFC/g ao longo do período de ingestão.

O número de Bifidobacterium nas fezes foi mais alto no grupo leite fermentado dos funcionários da clínica, em relação ao placebo. Os números das seguintes bactérias presentes nas fezes foram significativamente menores no grupo leite fermentado no 1°, 3° e 6° meses após ingestão: Clostridium difficile, C. perfringens e Enteribacteriaceae (p < 0,05, respectivamente). No grupo placebo, o número de C. difficile foi maior após 3 e 6 meses de ingestão, e o de Enterobacteriaceae aumentou no 6° mês (p < 0,05, respectivamente). O LcS foi recuperado das fezes de todos os participantes do grupo leite fermentado em níveis de 108 UFC/g ao longo do período de ingestão. Nos idosos, o nível de ácido acético nas amostras de fezes foi significativamente maior no grupo leite fermentado após 3 e 6 meses de ingestão (p < 0,01, respectivamente). Além disso, o pH fecal foi baixo no grupo leite fermentado em relação ao placebo. Nos funcionários da clínica, os níveis de ácidos orgânicos totais e ácido acético nas amostras de fezes foram maiores (p < 0,05) e o pH foi mais baixo (p < 0,05) no grupo leite fermentado após seis meses de ingestão.
 
Discussão cita estudos recentes

A febre é um parâmetro da gravidade em doenças infecciosas, e houve redução acentuada dos dias com febre do grupo leite fermentado-LcS em comparação ao placebo. Os idosos que consumiram leite fermentado apresentaram melhoras no funcionamento intestinal, como aumento da concentração de ácido acético e diminuição do pH fecal. Ácidos graxos de cadeia curta, como ácido acético, não estão apenas envolvidos na absorção de água, sais e motilidade gastrointestinal, mas também são importantes como principais substratos energéticos para células epiteliais do intestino, além de agirem como fonte de energia para o corpo. Por outro lado, o ácido acético possui atividade bacteriana in vitro.

Um recente estudo utilizando ratos livres de germes descobriu que o acetato produzido pelos probióticos melhorou a capacidade de defesa mediada pelas células epiteliais e, assim, protegeu o hospedeiro de infecções intestinais. Assim sendo, a melhoria dos nutrientes a partir do intestino que acompanha o aumento da concentração de ácido acético, na qual foi observada após um mês de consumo do leite fermentado, pode ter contribuído para uma redução de dias com febre após 3 e 6 meses de consumo do leite fermentado-LcS. Enquanto isso, em idosos e adultos saudáveis com baixa atividade NK do sangue periférico, as atividades das células NK aumentaram após consumo do leite fermentado. Mais ainda, os sintomas de espasticidade, que são peculiares em pacientes com mielopatia associada ao HTLV-1 (HAM), foram aliviados com o consumo em longo prazo do leite fermentado-LcS.

O consumo em longo prazo do leite fermentado-LcS também resultou no aumento significativo das atividades das células NK em pacientes com HAM, nos quais a atividade imunológica natural é reduzida. Portanto, é considerado que a recuperação da atividade imunológica natural contribui para aliviar seus sintomas. O controle da evacuação é muito importante para a qualidade de vida de idosos em clínica de repouso, e a melhora da microbiota intestinal e do ambiente intestinal entre os participantes deste estudo, como evidenciado pela proliferação de Bifidobacterium e aumento da concentração de ácido acético, ocorreu após o consumo do leite fermentado-LcS. O maior produto do metabolismo do Bifidobacterium é o ácido acético, que acelera a atividade dos músculos lisos do cólon humano in vitro. Portanto, os sintomas de constipação foram provavelmente aliviados pela estimulação dos movimentos peristálticos por ácidos acéticos produzidos no intestino pelo Bifidobacterium.

A contagem de C. difficile, C. perfringens, Enteribacteriaceae e Staphylococcus foi significativamente menor nas fezes do grupo leite fermentado-LcS. C. difficile, C. perfringens, Enteribacteriaceae e Staphylococcus são os principais patogênicos entre as bactérias enterocolíticas e produzem toxinas. A diminuição dos níveis de toxina produzidos no intestino, devido ao consumo do leite fermentado, pode estar envolvida na redução de incidência de diarreia. Tem sido evidenciado, por meio de experimentos animais, que o ambiente intestinal (concentração de ácido orgânico e pH) é importante para inibição do crescimento de bactérias intestinais patogênicas. Coerente com as pesquisas anteriores, este estudo demonstrou que o número de Bifidobacterium aumentou após o consumo do leite fermentado-LcS, tanto nos idosos como nos funcionários da clínica. Além disso, em relação aos pacientes em período intraoperatório, uma única administração de LcS ou uma administração combinada com B. breve Yakult ou prebióticos (simbióticos) proporciona um aumento no número de Bifidobacterium na microbiota endógena, suprime a proliferação de bactérias intestinais patogênicas e melhora o ambiente intestinal, inibindo infecções. O artigo foi publicado no Annuals of Nutrition & Metabolism (2015). doi:10.1159/000442305.