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 Intolerências merecem mais atenção

 Consumo de leite e glúten pode causar desconfortos  e, em alguns casos, sérios problemas à saúde
 
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
 
Distensão abdominal, flatulências ou diarreia alternada com episódios de constipação intestinal são alguns dos sintomas de quem convive com a intolerância alimentar. A condição é caracterizada pela manifestação de sintomas digestivos que são atribuídos aos alimentos pelos pacientes, ou pela ação nociva de certos componentes da dieta à integridade do revestimento do intestino ou ao seu funcionamento. Diferentemente da alergia alimentar, em que ocorre uma resposta imediata do sistema imunológico, na intolerância há uma reação que pode ser intensa desencadeando sintomas no sistema gastrointestinal. Com sinais que variam de acordo com cada organismo, as intolerâncias à lactose e ao glúten (doença celíaca) são as mais prevalentes e merecem maior atenção.

Um simples copo de leite ou iogurte pode provocar sintomas em pessoas mais intolerantes à lactose, condição identificada pela deficiência na produção da lactase, enzima que quebra e digere a lactose em dois monossacarídeos: a glicose e a galactose. “Quando há ausência da lactase, a lactose se torna fonte de energia para microrganismos do cólon, é fermentada e cria desconforto intestinal”, descreve a professora adjunta de Endocrinologia e Metabologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), Célia Regina Nogueira. A intolerância pode ser classificada em congênita ou genética – tipo mais comum desenvolvido na infância; e secundária, devido à perda transitória da lactase decorrente de lesões causadas por alguma doença, que volta a ser produzida assim que o intestino se recupera.

Para o professor Carlos Fernando Francisconi, titular do Departamento de Medicina Interna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é preciso tomar cuidado com diagnósticos errados, que ocorrem quando o paciente aponta sintomas nem sempre associados à intolerância e que coincidem com manifestações funcionais do aparelho digestivo. “A intolerância à lactose é secundária a um fator genético que se expressa precocemente e, portanto, não é uma condição que se manifeste na fase adulta”, ensina. O especialista recomenda prudência na realização de exames laboratoriais que avaliem a deficiência da lactase. Além do teste de tolerância oral à lactose (mais acessível), existe a alternativa de teste genético, coletado em material biológico como sangue e saliva. Também pode ser realizado, em alguns centros, o teste de hidrogênio expirado, padrão ouro de diagnóstico não invasivo e de grande sensibilidade, que avalia precisamente a causa dos sintomas.

A intolerância à lactose é uma carência do organismo que pode ser controlada com dieta, garantindo uma vida saudável e sem riscos à saúde mesmo com a ingestão de leite e derivados. “Não é preciso eliminar o consumo desses alimentos. O controle da dieta depende dos limites que cada um suporta, sem que sintomas adversos se manifestem”, orienta a gastroenterologista Thaisa de Moraes Ribeiro Espírito Santo, do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes da Universidade Federal do Espírito Santo (HUCAM-UFES). Desta forma, é possível manter a oferta de cálcio, fundamental para a massa óssea e para a manutenção de várias funções do organismo. Além disso, suplementos com lactase e produtos sem ou com baixo teor de lactose podem auxiliar no aporte de cálcio, quando a ingestão de leite for insuficiente.
 
Doença celíaca – Ao contrário da lactose, pacientes com doença celíaca, que se caracteriza pela intolerância ao glúten – proteína presente no trigo, cevada, centeio, malte e seus derivados – precisam de uma dieta mais rigorosa, em que a restrição desses alimentos se faz necessária para garantir a plena saúde. Essa doença autoimune, que acomete cerca de 1% da população ocidental, é caracterizada por um processo inflamatório que envolve a mucosa do intestino delgado, levando à atrofia das vilosidades intestinais e gerando diminuição da absorção de nutrientes como, por exemplo, ferro e cálcio. “É grave porque, se não for tratada, pode causar alta taxa de morbimortalidade”, adverte a professora Célia Regina Nogueira.

Mais observados na infância, os sintomas clássicos da doença celíaca são baixa estatura para a idade, reduzido ganho de peso e reações como diarreia, barriga distendida, anemia e vômito. Já nos quadros denominados não clássicos, os pacientes apresentam sinais isolados. “Em geral, o celíaco manifesta os primeiros sintomas da intolerância assim que começa a ingerir alimentos sólidos com a proteína, entre 1 e 3 anos de idade”, observa a gastroenterologista Thaisa de Moraes Ribeiro Espírito Santo. O diagnóstico mais seguro é feito pela dosagem no sangue dos anticorpos contra o glúten, mas o exame mais importante é a biópsia do intestino, para verificar se há alterações de inflamação e atrofia das vilosidades.

Apesar de se manifestar precocemente, a doença celíaca também acomete adultos de ambos os sexos. “Muitas vezes, a intolerância não é detectada pela manifestação de sintomas percebidos após a ingestão dos alimentos, mas por causa de outros problemas. Por exemplo, uma mulher jovem com osteoporose como consequência de má absorção de algum nutriente”, relata o professor Carlos Fernando Francisconi. Além da descoberta tardia, a intolerância pode vir acompanhada de outras doenças autoimunes, como tireoidite, diabetes e manifestações hepáticas, o que certamente contribui para a queda na qualidade de vida.

Sem cura, a doença celíaca só é controlada com o rigor de uma dieta absolutamente restrita e com a retirada total do glúten. “Por menor que seja a quantidade ingerida, isso pode contribuir para as lesões intestinais, que costumam se manifestar como anemia ferropriva, dor ou desconforto abdominal frequentes, osteoporose precoce, perda de peso, desnutrição, déficit importante de desenvolvimento e crescimento, infertilidade e até neoplasia do trato intestinal”, enumera o professor da UFRGS. Na presença de sintomas recorrentes, após a ingestão de alimentos com glúten, é importante buscar auxílio de um especialista para o diagnóstico preciso.