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 Práticas visam o bem-estar

 Técnicas de Educação Somática podem  auxiliar na plena manutenção da saúde

Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
 
Um conjunto de práticas corporais formuladas independentemente, que têm em comum a valorização da pessoa como unidade psicofísica e a ênfase da percepção das sensações corporais durante a realização de movimentos. Assim se caracteriza a Educação Somática, um campo teórico-prático cuja essência é o movimento do corpo como uma via de transformação de desequilíbrios, sejam mecânico, fisiológico, neurológico, cognitivo e/ou afetivo. Dentro deste processo de aprendizado, destaca-se o desenvolvimento da consciência corporal, a prevenção de doenças musculoesqueléticas, o alívio de dores crônicas, a reeducação postural e a evolução do po­tencial expressivo do corpo.

Originárias da Europa e dos Estados Unidos e difundidas no Brasil no século XX, as técnicas de Educação Somática surgiram a partir do trabalho de pesquisadores com formações diversas, inclusive profissionais de dança – que tiveram algum impedimento para exercer suas práticas. “Como não encontravam na medicina tradicional soluções para seus problemas, estudaram a fisiologia do corpo, quais causas levavam a determinadas lesões e, individualmente, buscaram mudanças de hábito que resultaram em técnicas corporais próprias”, esclarece a professora Márcia Maria Strazzacappa Hernândez, livre docente do Departamento de Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FE-Unicamp), ao acentuar que as técnicas só passaram a ser disseminadas após a certificação dessas metodologias de trabalho.

A Educação Somática engloba conhecimentos nos quais os fatores sensorial, cognitivo, motor e afetivo se misturam com ênfases distintas. Exercícios e vivências não estão direcionados para o condicionamento físico, pois o foco não é a melhora da força ou flexibilidade, do equilíbrio ou da capacidade cardiorrespiratória. “Na verdade, busca-se o domínio e a experimentação do movimento, com a melhora do autoconhecimento”, explica a professora Adriane Vieira, do Departamento de Educação Física, Fisioterapia e Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Por resultar na maior percepção das causas do esgotamento físico e mental, e em maneiras de administrar os problemas de saúde, as técnicas podem ser utilizadas, ainda, como recursos alternativos no tratamento de lesões no sistema nervoso central, dores crônicas e distúrbios alimentares.

Ritmo cardíaco acelerado, respiração curta e agitação são alguns indícios que caracterizam a ansiedade e podem ser minimizados com o auxílio da Educação Somática. “Diminuir a angústia, o desequilíbrio e o estresse por meio das técnicas é possível, pois apresentamos­ ao aluno sensações como leveza, relaxamento, respiração e percepções que colaboram para diminuir o estado de ansiedade”, acentua a antropóloga e mestre em dança pela Université de Montréal, Educadora Somática e Pesquisadora, Débora Pereira Bolsanello. Embora a Educação Somática não trate ou cure, por exemplo, a depressão, os exercícios propostos pelos métodos podem exercer um papel crucial no processo de autonomia, na medida em que o indivíduo aprende a reconhecer as relações entre corpo e mente. Segundo os métodos de Educação Somática, a maneira com que o indivíduo se movimenta, se desloca, gesticula e faz a gestão de sua postura em pé está diretamente ligada à forma como lida com seus processos internos e com o meio.   



 
 
Mais cumplicidade entre corpo e mente

Cada método de Educação Somática possui técnicas próprias, mas, no geral, os exercícios têm por objetivo o despertar da consciência corporal, a liberação da respiração, o aumento do vocabulário gestual, o desenvolvimento de coordenação motora, equilíbrio e postura, fazendo com que emoções, pensamentos e valores caracterizem a cumplicidade entre corpo e mente. Entre as várias técnicas já consagradas, os métodos mais conhecidos no Brasil são a Técnica Alexander, Eutonia, Método Feldenkrais, Body-Mind Centering, Ginástica Holística, Antiginástica, Bartenieff e Continuum, entre outros. “Independentemente do método no qual é diplomado, o educador somático é um alquimista que cria estratégias pedagógicas para proporcionar ao aluno um ponto neutro, de onde pode (re)descobrir os limites e o potencial do seu próprio corpo”, acrescenta Débora Bolsanello.

Existem propostas variadas de exercícios nas diferentes práticas corporais, e algumas trabalham o foco na percepção e organização corporal, enquanto outras são direcionadas para a experiência do movimento de forma ampla e subjetiva. Diferentemente das práticas corporais que visam o condicionamento físico, na Educação Somática os exercícios desenvolvem a sutileza perceptiva em um terreno de autoconhecimento. “Certamente, a característica comum entre as abordagens é a atenção às sensações que emergem com os movimentos e a respiração, que permitem maior conexão e entendimento dos processos internos e das relações estabelecidas com o meio circundante”, avalia a professora Adriane Vieira.

Dançarinos, desportistas, artistas plásticos, músicos, fisioterapeutas, dentistas, indivíduos que trabalham muito tempo em pé ou deslocando cargas e profissionais que passam muitas horas diante do computador podem usar aplicações diversas e específicas de acordo com seus hábitos de vida. “Não há um protocolo para aliviar, por exemplo, uma dor lombar. O que se propõe é a diversidade de técnicas de acordo com as necessidades de cada um, a consciência pelo movimento, a forma como o corpo reage a cada demanda, o respeito às limitações e à individualidade”, enumera a professora Márcia Maria S. Hernândez. Débora Bolsanello acentua que, já nas primeiras aulas, o aluno pode experimentar um alívio para tensões excessivas e um ganho de vitalidade que permitem vislumbrar a possibilidade de viver sem dor, caso continue se engajando nas aulas. Como resultados, em curto e médio prazo observa-se a diminuição do esgotamento físico e mental, melhores hábitos alimentares, sono tranquilo, equilíbrio e, consequentemente, a promoção da saúde.