Topo Super Saudável


 Cepas no controle da acne

 Pesquisadoras desenvolvem no Brasil produtos tópicos para combater o problema

Adenilde Bringel

Muito comum na adolescência e com probabilidade de persistir em até 30% dos indivíduos na fase adulta, a acne vai muito além da estética e pode provocar impacto psicológico e social, com possibilidade de levar à ansiedade e à depressão. Doença do folículo pilossebáceo, a acne tem como características fundamentais a hiperprodução sebácea, hiperqueratinização folicular, processo inflamatório, oclusão do orifício folicular e aumento da colonização bacteriana pelo Propionibacterium acnes, bactéria que faz parte da microbiota residente da pele. Quando a doença atinge as fases mais graves – 3 e 4 – surgem os nódulos, abcessos, cistos purulentos e cicatrizes. Nesta fase, geralmente o tratamento é feito com uso da substância isotretinoína, um retinoide de uso oral que reduz a diferenciação sebácea, diminui a colonização pelo P. acnes e possui atividade anti-inflamatória. No entanto, pesquisadores buscam novas alternativas de tratamento com o uso de cepas probióticas, que são mais seguras e não trazem as reações adversas comuns ao medicamento.

Os estudos com probióticos para controle da acne não são novos. O primeiro experimento clínico oficial foi realizado em 1961 pelo médico Robert H. Siver, em Baltimore, nos Estados Unidos, que selecionou 300 pacientes com acne e utilizou uma formulação contendo L. acidophilus e L. bulgaricus. Os pacientes ingeriram os probióticos por dois períodos de oito dias, separados por uma pausa de duas semanas, e 80% apresentaram algum grau de melhora clínica, principalmente nos casos de acne inflamatória. Embora a maioria dos estudos tenha mostrado que probióticos consumidos por via oral podem reduzir marcadores sistêmicos da inflamação e do estresse oxidativo, algumas pesquisas também apresentam resultados do uso tópico de cepas.

Em 1912, foi publicado o primeiro relato do uso de pro­­­­bióticos diretamente na pele. A cepa Lactobacillus bulgaricus mostrou ser útil no tratamento da acne e seborreia, e os pesquisadores demonstraram que bactérias produtoras de ácido láctico, como Streptococcus thermophilus, podem aumentar a produção de ceramidas quando aplicadas sobre a pele por sete dias, na forma de creme. Em 2013, um estudo da Divisão de Dermatologia da Universidade da Califórnia, em San Diego, Estados Unidos, constatou que a interferência bacteriana cria uma competição ecológica entre bactérias comensais e patogênicas na pele. Além disso, demonstrou que o uso inadequado de antibióticos pode eliminar as bactérias comensais da pele, tornando mais difícil a luta contra a infecção por patógenos.

“Muitos estudos têm conseguido com­provar a ação benéfica de algumas cepas probióticas para o controle e a cura da acne, embora ainda sejam insuficientes para que os probióticos se transformem em opção ao tratamento convencional”, informa a farmacêutica Audrey Alesandra Stinghen Garcia Lonni, professora doutora de Cosmetologia do curso de Farmácia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. Parte desses estudos foi descrita no trabalho de conclusão de curso na forma de revisão bibliográfica ‘Probióticos no Tratamento de Dermatite Atópica e Acne’, da aluna de graduação da UEL, Camyle Zavatto Berbel, em parceria com as nutricionistas Luciana Stinghen Garcia Sampaio e Karina Fernandes Ruiz Ferreira, e a professora Clísia Mara Carreira, sob a orientação da professora Audrey Lonni. O trabalho teve como objetivo elucidar o conceito de probióticos, bem como apresentar estudos clínicos que comprovam a eficácia no tratamento de dermatites atópicas e acne.

Teste prático – Convencida da importância dos probióticos no combate à acne e interessada em ajudar o filho de 17 anos a livrar-se do problema de forma definitiva, sem uso dos medicamentos convencionais que não apresentavam resultados significativos, a professora desenvolveu, em 2015, uma fórmula para tratamento tópico. A formulação foi composta de acriloildimetiltaurato amônio, copolímero de vinilpirrolidona (1,0%), glicerina (3,0%), propilenoglicol (3,0%), Lactobacillus acidophillus (1 bilhão de unidades formadoras de colônia – UFC), Bifidobacterium longum (1 bilhão UFC), Streptococcus thermophilus (1 bilhão UFC), conservante e água destilada (qsp 100,0 g). O gel creme foi aplicado pela manhã e à noite por três meses, e o jovem ingeriu um frasco de Leite Fermentado Yakult diariamente.

O adolescente já havia testado alguns antibióticos, sem resultados efetivos, e a mãe não queria introduzir a isotretinoína. Ao final de três meses, a formulação promoveu resultado significativo na pele, com poder secativo, anti-inflamatório e bactericida. No entanto, durante a manipulação em laboratório as cepas probióticas apresentaram instabilidade, o que levou a pesquisadora a não ampliar as amostras. “Mais estudos serão necessários para tornar esta formulação uma alternativa eficaz no tratamento tópico da acne”, afirma a professora, que pretende retomar o experimento em breve.

Estudo envolveu mulheres jovens
A engenheira química com doutorado na área de probióticos Fátima Fonseca, pesquisadora do Laboratório de Probióticos e Fitoterápicos de Pernambuco (LPF-PE) e do Grupo de Fermentação Industrial e Probióticos da Universidade de Cádiz (Espanha), desenvolveu um produto à base de extratos bioativos probióticos com mais de 60 cepas (leveduras e bactérias), juntamente com argilas, óleos vegetais e óleos essenciais com ação anti­bacteriana e calmante da pele, chamado Blend facial Acnis. O produto, cuja pesquisa foi subvencionada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia por intermédio da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), foi utilizado em mais de 100 jovens atendidos pelo Programa de Saúde da Família em Recife, Pernambuco, com resultados considerados excelentes.

O estudo avaliou a eficácia do produto sobre a acne vulgar inflamatória e não inflamatória em condições reais de uso e foi realizado sob coordenação do dermatologista Djalma Marques, com apoio de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Além da aplicação do blend, os voluntários foram orientados a evitar o consumo de leite e derivados lácteos não fermentados, refrigerantes e chocolate durante o estudo, e ingerir probióticos em forma de cápsulas diariamente. Para comprovar a eficácia e a segurança do produto, também foram realizados testes em laboratório especializado em pesquisa clínica envolvendo 25 mulheres com idades entre 18 e 30 anos, com presença de acne grau I e II na face. “O estudo seguiu protocolos rigorosos e normatizados por resoluções nacionais e internacionais”, explica a pesquisadora.

O blend facial foi aplicado em toda a área afetada pela acne, diariamente, com o rosto lavado previamente somente com água. Os voluntários foram orientados a aplicar o produto uniformemente, em forma de máscara. Depois da secagem total, deveriam lavar o rosto com água e sabonete neutro. Antes e depois do experimento, a acne foi avaliada por um técnico treinado para classificação da intensidade do quadro, determinada pelo grau e pela avaliação da hemiface, segundo critérios de número e tipo de lesões. O estudo também envolveu análise exploratória de dados (medidas resumos e gráficos), com tempos comparados por meio do teste de Wilcoxon Signedrank. O nível de confiança considerado nas análises foi de 95%.

“Desde o início da aplicação verificamos melhora na oleosidade da pele, mas, no geral, a resposta foi muito boa após 28 dias de tratamento nas voluntárias que apresentavam comedões abertos e fechados, pápulas e pústulas. Os resultados mostraram redução de 82,4% do número total de lesões”, ressalta a pesquisadora. Todas as voluntárias também apresentaram a pele menos oleosa e com uma textura suave após o uso final do produto. Depois do período de estudo, foram orientadas a continuar utilizando a formulação diariamente, apenas na área afetada ou quando surgisse uma nova espinha. Os cientistas que estudam o uso de probióticos no controle da acne acreditam que a ação positiva deve-se, principalmente, aos metabólitos antimicrobianos produzidos pelas cepas probióticas, que ajudam no equilíbrio dessa microbiota nativa.