Vacina para combater o tumor cerebral

Tratamento promissor busca ativar resposta mais eficaz do sistema de defesa de pacientes diagnosticados com a doença

O câncer do sistema nervoso central está entre os 10 tipos de maior incidência no Brasil e representa de 1,4% a 1,8% de todos os tumores malignos na população mundial. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam 5,8 mil e 5,5 mil novos casos para homens e mulheres, respectivamente, para cada ano do biênio 2018-2019 no País. O glioblastoma (o tipo mais agressivo dos gliomas) representa 15% dos tumores intracranianos e cerca de 50% dos malignos. Classificado com grau IV e o mais comum no cérebro, o glioblastoma é agressivo por ser muito infiltrativo e de intensa proliferação celular, com sobrevida mediana dos pacientes de um ano após o diagnóstico. Embora as pesquisas para novos tratamentos já durem décadas, houve pouco progresso nos índices de mortalidade e no ganho de qualidade de vida dos pacientes.
Em busca de novas terapias, o Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), em parceria com o Hospital do Coração (HCor), desenvolveu uma vacina que traz perspectivas promissoras para combater o tumor cerebral. A vacina utiliza células dendríticas in vitro – componentes do sistema imunológico responsáveis principalmente pela identificação e captura de agentes estranhos ao organismo – e fragmentos de células tumorais retirados durante o procedimento cirúrgico, que são fundidos à base de uma corrente elétrica, transformando-se em células híbridas com o propósito de ‘ensinar’ o organismo a ativar uma resposta mais eficaz do sistema de defesa no combate ao tumor. O professor doutor José Alexandre Marzagão Barbuto, do Departamento de Imunologia do ICB-USP, explica que o princípio da vacina é terapêutico e o objetivo é ‘avisar’ o sistema imune que o tumor é um elemento estranho ao corpo, estimulando a ação efetiva das células de defesa.
“O glioblastoma é muito agressivo e, embora raramente provoque metástase, tem forte tendência de recidiva após a retirada, a despeito do tratamento adjuvante. A vacina é um complemento personalizado ao tratamento convencional e tem como foco induzir uma resposta imune que contribua para o controle da doença”, afirma o pesquisador, que desenvolveu a terapia em parceria com o professor doutor Guilherme Lepski, neurocirurgião do HCor e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Os estudos clínicos começaram no fim de 2018 e a previsão é recrutar 20 pacientes para aplicar de duas a quatro doses da vacina intradérmica. O objetivo primário é avaliar a taxa de sobrevida em 6 e 12 meses depois do diagnóstico, na tentativa de aumentar a expectativa de vida mediana. Em caso de interesse em participar da pesquisa, o paciente deve se apresentar assim que receber o diagnóstico de tumor intracraniano, antes da primeira cirurgia, pois a vacina é feita com tumor vivo extraído durante o procedimento cirúrgico.

Células dendríticas
O professor José Alexandre Marzagão Barbuto, que pesquisa a vacina terapêutica desde 2000, acredita que a chave para desenvolver novos tratamentos para diferentes tipos de câncer está nas células dendríticas, devido ao potencial único de ativar a resposta imune. Os primeiros estudos clínicos foram publicados em 2004 e envolveram pacientes com melanoma e câncer de rim em estágio terminal – 70% tiveram benefício clínico com a vacina. O professor conta que, quando definiu essas neoplasias, não havia muitas alternativas para os dois tipos, muito agressivos. “Ninguém foi curado, mas a doença parou de progredir por um período razoável, considerando o estágio de cada paciente. A expectativa mediana de vida naquele momento era de menos de um ano e a maior parte dos pacientes teve estabilidade da doença por sete meses, período em que o tumor não progrediu. Todos já tinham realizado os tratamentos disponíveis na época, sem sucesso”, acrescenta. Como é um tratamento experimental, para definir as estratégias de desenvolvimento da vacina é considerado o tipo de câncer cujas condições de tratamento são insuficientes. Atualmente, o grupo está desenvolvendo vacina contra o neuroblastoma, comum em crianças, e aguarda avaliação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) para um protocolo em câncer de colo de útero. A ideia também é explorar a célula dendrítica como indutora de resposta imune em diversas áreas médicas.