Superbactérias ameaçam a saúde

Uso excessivo ou inadequado de antibióticos pode levar à morte cerca de 10 milhões de pessoas por ano até 2050

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a resistência antimicrobiana uma das mais graves ameaças à saúde global e, por isso, o tema integra a lista das 10 prioridades da entidade para 2019. Segundo a OMS, se nada for feito, até 2050 o número de mortes provocadas por bactérias multirresistentes (superbactérias) poderá chegar a 10 milhões por ano – atualmente, são aproximadamente 700 mil –, superando os óbitos por câncer e com custo de aproximadamente US$ 84 trilhões para a economia mundial. Especialistas afirmam que, dependendo do tipo e das condições ambientais, as bactérias têm a capacidade de se duplicar a cada 30 minutos, enquanto que as descobertas terapêuticas são cada vez mais lentas, levando de 10 a 15 anos para que cheguem ao mercado. Uso indiscriminado de antibióticos, automedicação, interrupção de medicamentos sem avaliação médica, prescrições incorretas e falta de protocolos e de salubridade nos ambientes hospitalares, aliados ao uso excessivo de antibióticos na agricultura, pecuária e no meio ambiente, estão entre os fatores que contribuem para produzir cada vez mais bactérias multirresistentes.

Para enfrentar o problema, a OMS lançou o Plano de Ação Global em Resistência aos Antimicrobianos, em 2015, em conjunto com a Organização Mundial da Saúde Animal (OIE) e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). O documento tem recomendações para que os países consigam combater esse problema de saúde pública envolvendo todas as esferas governamentais e a sociedade. Considerado um dos países mais atrasados no desenvolvimento dessas estratégias, o Brasil divulgou, no fim de 2018, o Plano de Ação Nacional para Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos (PAN-BR), com vigência de cinco anos, elaborado em convergência com os objetivos definidos pela aliança tripartite das organizações mundiais. A medida visa garantir que se mantenha a capacidade de tratar e prevenir doenças infecciosas com medicamentos seguros e eficazes, que sejam utilizados de forma responsável e acessível a todos, além do aprimoramento de formação e capacitação dos profissionais e gestores com atuação nas áreas da saúde humana, animal e ambiental. O plano prevê, ainda, construir e estabelecer o sistema nacional de vigilância e monitoramento integrado da resistência aos antimicrobianos.

A coordenadora do Comitê de Resistência Antimicrobiana da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Ana Gales, professora doutora da disciplina de Infectologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPMUnifesp), afirma que iniciativas isoladas sempre existiram, mas só há pouco tempo começaram a surgir esforços coordenados para uma gestão que precisa levar em consideração as especificidades de cada país, região, comunidade e ambiente hospitalar. Para a médica, que pesquisa o tema há mais de 20 anos, no Brasil a resistência antimicrobiana deixou, muitas vezes, de ser reconhecida como um problema de saúde pública em detrimento do surgimento de doenças como dengue, zika e de novos casos de febre amarela e hepatite A. “No entanto, é uma situação que afeta toda a sociedade, porque um paciente com infecção bacteriana resistente tem maior probabilidade de ficar hospitalizado e, consequentemente, isso aumenta os custos. Também corremos o risco de não ter terapias compatíveis para o tratamento, contribuindo para a alta taxa de mortalidade, entre outros fatores. Por isso, espero que toda a sociedade, incluindo a não científica, se organize para combater a resistência antimicrobiana”, enfatiza. À frente do comitê da SBI, a docente pretende fazer uma campanha dirigida principalmente a médicos não infectologistas – mas também ao público em geral – para que tenham a percepção real do nível de ameaça das superbactérias para a saúde.

Como parte dos esforços no enfrentamento da crescente resistência antimicrobiana em nível mundial e visando orientar e promover a pesquisa e o desenvolvimento de novos antibióticos, a OMS divulgou, há dois anos, a primeira lista de agentes patogênicos prioritários com 12 famílias de bactérias resistentes aos antibióticos que ameaçam os sistemas de saúde de todo o mundo. A lista foi dividida em três grupos de acordo com a prioridade (crítica, alta ou média), seguindo critérios como letalidade das infecções, frequência com que as cepas resistentes são identificadas e quantas opções de tratamento existem. O grupo mais crítico inclui bactérias multirresistentes particularmente perigosas em hospitais, casas de repouso e entre pacientes cujos cuidados exigem uso de dispositivos como ventiladores mecânicos e cateteres intravenosos.

Acinetobacter spp., Pseudomonas spp. e diversas Enterobacteriaceae estão entre as espécies que podem causar infecções graves e levar à morte. Essas bactérias tornaram-se resistentes a um grande número de antibióticos, incluindo carbapenemas e cefalosporinas de terceira geração – os melhores disponíveis para tratamento de bactérias multirresistentes atualmente.

O segundo e o terceiro níveis da lista ficam com outros tipos de microrganismos, cada vez mais resistentes aos fármacos e que provocam doenças comuns, como gonorreia ou intoxicação alimentar causada por Salmonella. Outro alerta é a ameaça de bactérias gram-negativas resistentes a múltiplos antibióticos, que têm capacidades inatas de encontrar novas formas de resistir ao tratamento e podem transmitir material genético que permite a outras bactérias se tornarem também resistentes aos fármacos. A professora doutora Tatiana de Castro Abreu Pinto, do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta que o crescimento e a velocidade com que ocorre a resistência antimicrobiana ameaçam o mundo a retroceder a uma época em que não era possível tratar infecções como pneumonia, tuberculose, gonorreia e salmonelose. “A resistência em bactérias sempre existiu na natureza, mas, o aumento do uso de antibióticos de forma indiscriminada e inapropriada, seja na medicina humana, veterinária, agropecuária ou na indústria de alimentos, tem levado à disseminação desses marcadores que carregam a resistência a antibióticos entre as bactérias de forma muito mais rápida e fácil”, acentua.

Relatório de 2017 da OMS já alertava que o contato direto entre bactérias ambientais sensíveis aos antibióticos e bactérias resistentes descartadas no ambiente, além do contato de espécies ambientais sensíveis com substâncias antimicrobianas despejadas em canais de esgoto de casas, hospitais e indústrias farmacêuticas – bem como por meio de estruturas de escoamento agrícola – está impulsionando a evolução dos microrganismos e provocando o aparecimento de linhagens mais resistentes. Como resultado, os medicamentos tornam-se ineficazes e as infecções têm sido mais persistentes, aumentando o risco de propagação.

Sinal de alerta

As superbactérias ganharam destaque primeiro nos hospitais, onde as taxas de resistência geralmente são maiores porque encontram condições favoráveis à seleção e ao crescimento. Isso ocorre devido a uma combinação de fatores que inclui pacientes debilitados pela doença de base, antibióticos que matam bactérias mais sensíveis e favorecem as mais resistentes, e uso de medicamentos imunossupressores. “A transmissão é facilitada pela falta de aderência às medidas de controle de infecção hospitalar, como higienização das mãos”, ressalta a médica Ana Gales. A resistência aos medicamentos contra a tuberculose, por exemplo, é um grande obstáculo para combater a enfermidade, que acomete quase 10 milhões de indivíduos e causa 1,6 milhão de óbitos todos os anos. Em 2017, cerca de 600 mil casos foram diagnosticados como resistentes à rifampicina – droga de primeira linha – e 82% dos pacientes apresentavam tuberculose multirresistente. No Brasil, também há amostras da Neisseria gonorrhoeae – conhecida como gonococo – multirresistentes para os tratamentos de primeira e segunda geração. Com isso a doença, até então considerada simples, agora está ameaçada a não ter alternativas terapêuticas disponíveis para combatê-la. A pesquisadora Tatiana de Castro Abreu Pinto lembra que os antibióticos surgiram como uma ferramenta poderosa, principalmente entre 1940 e 1970, e os pesquisadores não previram que esse fenômeno de resistência – que deveria levar muitas décadas – ocorresse tão precocemente. Outra questão é que, depois da década de 1980, período conhecido como ‘era de ouro dos antibióticos’, poucos medicamentos novos foram lançados e, desde então, os laboratórios têm majoritariamente modificado a estrutura química dos já existentes, para que tenham atividade aprimorada no combate aos patógenos. 

Por causa deste cenário, o conceito One Health (saúde única) vem ganhando destaque em todo o mundo ao reforçar que a saúde da população está conectada à saúde animal e do meio ambiente, e somente levando em consideração todas essas esferas em conjunto será possível garantir a prevenção adequada de diversas doenças importantes, incluindo infecções por superbactérias. “É fundamental criar estratégias de curto, médio e longo prazo para mudar essa cultura e minimizar a disseminação de uso inadequado ou superdosagens de antimicrobianos e suas consequências na sociedade. O desenvolvimento de antibióticos e vacinas, aliado às condições de saneamento básico, impulsionou a expectativa de vida. Para preservar o benefício desses avanços é preciso fazer uso dos medicamentos com cautela em todas as suas aplicações”, reforça a infectologista Ana Gales.

Rede RM monitora as bactérias multirresistentes

Com o objetivo de identificar os mecanismos de resistência antimicrobiana e monitorar a disseminação de bactérias multirresistentes circulantes no Brasil, o Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz

(IOC/Fiocruz) atua como Centro Colaborador da Rede de Resistência Microbiana Hospitalar (Rede RM), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desenvolvendo estudos epidemiológicos para o estabelecimento de parâmetros para análise de similaridade entre as amostras encaminhadas pelos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) dos estados. Desta forma, é possível caracterizar surtos de infecções, avaliar possíveis fontes de transmissão e aquisição dos patógenos, bem como determinar a prevalência de grupos clonais dentro de uma população bacteriana. A partir deste ano, o laboratório inicia projeto de sequenciamento do genoma total das bactérias. “Vamos avaliar mais rapidamente os mecanismos de resistência que as amostras possuem e verificar, por exemplo, se dentro de cada espécie todas são iguais ou possuem diferenças. Assim, conseguiremos compartilhar com a Anvisa mais informações precisas para aumentar os dados de vigilância e monitoramento no Brasil”, explica a microbiologista Ana Paula Assef, pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do IOC/Fiocruz.

O laboratório recebe principalmente bactérias gram-negativas multirresistentes de origem hospitalar e, dentro deste grupo, as mais prevalentes são Klebsiella pneumoniae, produtora de carbapenemase do tipo KPC, e Acinetobacter baumannii, produtora de oxacilinases. Ambas são resistentes a praticamente todos os antibióticos betalactâmicos, o que inclui a penicilina e seus derivados. “O que tem sido feito para o controle dessas bactérias é o aumento da vigilância e de medidas de atuação nos hospitais para diminuição das taxas de infecção. Existem duas câmaras técnicas da Anvisa, e faço parte de uma delas, das quais participam especialistas que discutem e elaboram notas técnicas, manuais e recomendações para a melhoria do diagnóstico dessas bactérias e o controle das infecções”, explica a pesquisadora do IOC/Fiocruz. Em 2013, por exemplo, foi detectada pela primeira vez no País a ocorrência da New Delhi Metalobetalactamase

(NDM) em espécies bacterianas hospitalares colonizadas em cinco pacientes internados no Rio Grande do Sul. Consideradas altamente resistentes a antibióticos, as bactérias produtoras de NDM foram descritas pela primeira vez em 2008, na Índia.

Semelhante à carbapenemase KPC, a NDM está associada principalmente a bactérias de origem hospitalar, causando infecção especialmente em pacientes com imunidade baixa, com alguma doença de base ou que sofreram procedimentos invasivos, como cateteres, drenos e ventilação mecânica. O Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar é responsável, ainda, pela curadoria da Coleção de Culturas de Bactérias de Origem Hospitalar (CCBH), na qual são preservadas amostras bacterianas representativas de diferentes espécies associadas a infecções hospitalares de várias regiões do Brasil. Além dos trabalhos de vigilância epidemiológica, o laboratório atua em conjunto com o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz (Bio-Manguinhos) na busca por novos alvos terapêuticos, como o desenvolvimento de anticorpos de imunoterapia para tratamento de infecções, e desenvolve um projeto de modelagem matemática – em parceria com outras unidades da Fiocruz e universidades – em que, por meio da análise computacional, é possível descobrir novos alvos dessas bactérias para a produção de antibióticos mais eficazes.

O retorno das polimixinas como possibilidade terapêutica

O crescimento dos casos de infecções hospitalares causadas por bactérias multirresistentes, especialmente nas unidades de terapia intensiva, levou à reintrodução de antibióticos da classe das polimixinas (B e E), considerados como último recurso no tratamento de infecções produzidas por bactérias que não respondem a outras drogas. Recentemente, foi detectada a presença de um novo gene – mcr-1 –, que causa resistência a essa classe de antibióticos, inclusive em cepas de bactérias multirresistentes. No Brasil, um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICBUSP) foi responsável pela identificação do gene pela primeira vez, em 2016, em cepas de Escherichia coli de animais de produção provenientes da região sul e sudeste e, na sequência, em um paciente de hospital de alta complexidade em Natal, no Rio Grande do Norte. “Como o gene mcr-1 foi encontrado tanto em amostras de animais de produção como em seres humanos, levantou-se a suspeita sobre a existência de uma cadeia na disseminação da resistência à polimixina E a partir do uso exacerbado do antibiótico nesses animais, como promotor de crescimento”, afirma a biomédica Quézia Moura, pós-doutoranda no Departamento de Microbiologia do ICB-USP e integrante do grupo de pesquisa. Na época, foi emitido alerta para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que, no mesmo ano, fez uma modificação na legislação e proibiu, em todo o território nacional, a importação e fabricação da substância antimicrobiana com a finalidade de aditivo zootécnico melhorador de desempenho na alimentação animal.

Uma das maiores preocupações dos pesquisadores e das agências de saúde deve-se ao fato de o gene mcr-1 ser facilmente transferível entre diferentes espécies bacterianas, por estar presente em um elemento genético móvel: o plasmídeo. Desta forma, cepas portadoras de outros genes de resistência antimicrobiana, ao adquirirem o mcr-1, poderiam ficar resistentes a múltiplos antibióticos, reduzindo as opções terapêuticas para o tratamento de determinada infecção. Depois dos primeiros casos notificados, o grupo do ICB-USP também encontrou o gene em pinguins, na água do mar no litoral paulista, em mangue no nordeste, em alimentos e em pacientes hospitalizados em São Paulo. “Continuamos com os estudos de vigilância epidemiológica em amostras de origem humana, animal e ambiental para avaliar se está ocorrendo ou não uma diminuição da presença do mcr-1.

Nossa expectativa é que a mudança de legislação tenha o efeito esperado ao longo dos anos”, ressalta a biomédica Quézia Moura.

Descobertas nos anos 1950, o uso das polimixinas foi reduzido na década de 1970, sobretudo por serem neurotóxicas e nefrotóxicas, ficando restrito ao uso veterinário. Com isso, as bactérias ‘esqueceram’ que esses medicamentos existiam. No início do século 21, as polimixinas foram reintroduzidas na área da saúde como última alternativa terapêutica no tratamento de infecções produzidas por bactérias multirresistentes, principalmente associadas a surtos de infecção hospitalar. “Quando começamos um estudo sobre o tema, em 2014, 100% das bactérias eram sensíveis às polimixinas. Atualmente, 4% estão resistentes, o que indica que começaram a desenvolver mecanismos de resistência para combater essa classe de antibiótico. O que preocupa, além dos efeitos adversos, é que não existe outro antimicrobiano para tratamento de determinadas infecções”, adverte a pesquisadora Patricia Moriel, farmacêutica clínica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (FCF-Unicamp). Na instituição, professores também se dedicam a pesquisas na área de modificação molecular para desenvolvimento de novos medicamentos no futuro.

Prescrição adequada e precisão no diagnóstico ajudam

Um estudo publicado na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), em 2018, revelou um aumento de 65% no uso de antibióticos entre os anos 2000 e 2015, ao analisar as vendas de medicamentos em 76 países. No mesmo ano, o relatório Vigilância do Consumo de Antibióticos, divulgado pela Organização Mundial da Saúde, mostrou que a quantidade de doses de antibióticos consumida no Brasil estava entre as maiores do mundo, ocupando o 19º lugar entre as 65 nações pesquisadas em 2015. O indicador foi o número de doses diárias definidas (DDD) consumidas para cada mil habitantes – no País, ficou em 22,75 DDD. Um levantamento publicado em 2019 no The British Medical Journal apontou que, nos Estados Unidos, uma em cada quatro prescrições de antibióticos é inadequada. O dado foi apurado após o cruzamento do diagnóstico de quase 20 milhões de pacientes e 15 milhões de prescrições feitas por médicos durante o ano de 2016. Deste montante, chama a atenção que 28,5% das recomendações não estavam associadas a nenhum diagnóstico, um indício de que poderiam ser reedição de antigas receitas. 

Consciente do problema, desde 2010 a Anvisa preconiza a venda de antibióticos atrelada à retenção da prescrição médica. A infectologista Ana Gales reforça que os profissionais da saúde têm papel fundamental na prescrição e orientação dos pacientes sobre o uso racional e consciente de medicamentos e, para isso, também é fundamental o aprimoramento constante do conhecimento e a atualização epidemiológica da região ou do hospital em que atuam. “Os médicos também precisam de ferramentas diagnósticas e laboratoriais mais rápidas e precisas, que os auxiliem e informem com segurança se os sintomas descritos pelo paciente estão relacionados ou não a uma infecção bacteriana, para tirar a subjetividade na tomada de decisão e prescrição. Em caso de sepse, por exemplo, a cada hora de atraso do uso de antibiótico aumenta em 7,6% a taxa de mortalidade. Além disso, se o paciente apresenta uma infecção resistente e o médico não tem esse conhecimento, poderá prescrever uma terapia inadequada e, dependendo da gravidade do caso, levar ao aumento da mortalidade”, alerta a professora da EPM-Unifesp. 

Outro desafio está em conscientizar a população sobre a importância de respeitar as orientações médicas sobre a dosagem e o período de uso dos medicamentos, bem como alertar sobre os perigos da automedicação e das consultas na internet. A professora reforça, ainda, que mais do que contribuir para diminuir a resistência antimicrobiana, o médico precisa ressaltar que o uso equivocado de antibióticos pode acarretar diversos problemas para o organismo, assim como mascarar sintomas de doenças mais graves. “O antibiótico não é salvador; não pode prevenir que uma gripe se torne uma pneumonia bacteriana. Portanto, é preciso reforçar para o paciente, por exemplo, que toda vez que toma um antibiótico ocorre uma alteração na microbiota intestinal, responsável pela imunidade do organismo, e há casos em que não é possível restaurar completamente esse equilíbrio, dependendo do medicamento. Por isso, antibióticos devem ser usados de forma racional e necessária, sempre com orientação médica”, enfatiza a médica Ana Gales.

A farmacêutica clínica Patricia Moriel, pesquisadora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, acrescenta que médico e farmacêutico precisam atuar de maneira conjunta, sem se sentirem pressionados pelos pacientes. “No Brasil, muitas pessoas têm a visão de que médico bom é aquele que pede vários exames e prescreve medicamentos. Mas, na verdade, médico bom é aquele que preza, primordialmente, por uma anamnese adequada durante a consulta. Após esse cuidado e feita a prescrição, entra a responsabilidade do farmacêutico clínico, que deve orientar e esclarecer as dúvidas do paciente sobre a maneira correta de ingerir o medicamento em casa”, ressalta. Outro cuidado simples é manter aventais e jalecos sempre limpos e só usá-los no hospital ou nos consultórios, porque concentram bactérias que podem ficar por seis meses no tecido. Para inibir o crescimento das bactérias no ambiente hospitalar, além do monitoramento constante, muitas instituições de saúde possuem grupos de segurança do paciente e protocolos de higienização das mãos.

Gestão racional dos medicamentos

Nos últimos anos, evidências mundiais demonstraram que programas hospitalares focados em gerenciar o uso de antimicrobianos são uma abordagem efetiva no combate à resistência bacteriana. Denominadas de Antimicrobial Stewardship, essas práticas são destinadas a desenvolver e monitorar, por meio de equipe multidisciplinar, ações para melhorar a utilização de antibióticos levando em consideração o perfil de sensibilidade, diretrizes e protocolos de indicação ou uso de antimicrobianos, assim como estratégias do ciclo de uso nos serviços de saúde e hospitais. Os elementos centrais do programa incluem a liderança sênior da gestão hospitalar focada na sistematização do uso de antimicrobianos, por meio do monitoramento do uso em tempo real, que fornecerá relatórios validando as atividades e responsabilidades das equipes focadas no uso de antimicrobianos, principalmente antibióticos. Além disso, são mantidos e interligados o gerenciamento de infecções, a educação e o treinamento prático de equipes multidisciplinares, o monitoramento e a vigilância antimicrobiana baseada na microbiota dos diversos setores da instituição de saúde/hospital. Todos os resultados de relatórios das atividades da equipe de uso de antimicrobianos e feedbacks servem de base para os planos contínuos de melhorias, com foco no controle da multirresistência antimicrobiana, em especial a bacteriana.

As experiências do Reino Unido, baseadas em um programa de Stewardship apoiado pelo National Health System (NHS), constituem um caso de sucesso. Isso porque, todo uso de antimicrobianos é sistematizado e acompanhado pelas equipes multidisciplinares junto ao infectologista e farmacêutico clínico, com objetivos previamente definidos e validados nacionalmente pelos diversos envolvidos com o processo de prescrições. Integrante do programa Antimicrobial Stewardship, a infectologista Sylvia Lemos Hinrichsen, professora titular do Departamento de Medicina Tropical da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e consultora de Projetos Estratégicos em Riscos de Adoecimentos & Controle de Infecções/Multirresistência Antimicrobiana, vem treinando equipes de hospitais pelo País para adequar o uso de antibióticos baseado em programas de gestão da Escócia (Universidade de Dundee). “A receptividade é ótima, mas o que dificulta são as políticas institucionais, a falta de planos estratégicos e de equipes específicas trabalhando de forma focada nos programas de gerenciamento do uso de antimicrobianos, segundo os elementos centrais definidos que auxiliem na obtenção das metas esperadas para um controle de multirresistência antimicrobiana. Durante minhas consultorias, sempre ressalto que todos são capazes de implantar um conjunto de estratégias essenciais do Stewardship, mas é preciso fazer isso de acordo com a estrutura e a realidade de cada local, começando com o mais simples e o mais fácil”, ressalta a médica, que trabalha há mais de 20 anos com o tema em hospitais da rede privada e pública de Recife.

Futuro

A infectologista acredita que, nos próximos anos, um programa de Stewardship será uma exigência e uma prioridade na segurança assistencial prestada pelos serviços de saúde/hospitais, inclusive incorporada aos diversos processos de melhoria da qualidade baseado em padrões nacionais e internacionais, que exigirão indicadores que permitam monitorar e sinalizar as oportunidades de melhorias da multirresistência antimicrobiana por meio da sistematização dos processos assistenciais. “Para isso, é preciso que ocorra uma mudança de cultura relacionada ao uso de antimicrobianos, investimentos nos profissionais, formação de equipes multidisciplinares capacitadas e dedicadas para essa atividade, e outros recursos em prol da qualidade e segurança do ambiente hospitalar. Também será necessário envolver a sociedade, pois o uso de antimicrobianos tem grande impacto na resistência dos microrganismos. Não dá para mensurar o custo para a implantação do programa, mas o valor passa a ser pequeno diante dos riscos imensuráveis da resistência antimicrobiana”, ressalta.

Atenção aos anti-inflamatórios

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revela que o uso excessivo ou inadequado de anti-inflamatórios pode atrasar a recuperação tecidual do órgão afetado, entre outras complicações, principalmente quando a dosagem e o tempo de uso dos medicamentos são feitos de forma incorreta. O perigo por trás da automedicação de antiinflamatórios foi desvendado após três anos de experimentos com camundongos no laboratório da instituição, demonstrando que o uso desse tipo de medicamento deve ser controlado de acordo com o estágio em que se encontra a doença. “O mesmo medicamento que pode evitar dores, mal-estar e perda de função do órgão, se usado continuamente no auge do processo inflamatório, pode atrasar a reparação tecidual”, alerta o professor doutor Gustavo Menezes, do Departamento de Morfologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), e coordenador da equipe do Center for Gastrointestinal Biology da UFMG. Embora o estudo tenha sido realizado com modelos de lesão hepática, também pode ser válido para outros órgãos, pois as células do sistema imunológico são muito parecidas nos diversos tecidos e órgãos do corpo.

Vendidos sem prescrição médica, os anti-inflamatórios são, na maioria das vezes, medicamentos que tratam apenas sintomas, com exceção de doenças nas quais a causa principal é o próprio processo inflamatório – como artrite e fibrose pulmonar. No entanto, muitos pacientes continuam a tomar o medicamento mesmo sem dor ou inchaço, por precaução ou comodismo, e é isso que pode acarretar malefícios. “Medicamentos são substâncias capazes de mudar comportamentos no organismo, portanto, a decisão de prescrever ou não deve ser sempre resultado de uma equação entre o quanto de malefício e de benefício vão trazer. E só quem pode fazer isso é o médico”, ressalta. O professor Gustavo Menezes lembra que o processo inflamatório é um recurso do organismo que, no interesse de se restabelecer, fomenta o combate aos invasores gerando sintomas como dor, edema e febre.

“Os neutrófilos, células de defesa que chegam rapidamente ao tecido inflamado, precisam acabar de digerir os tecidos mortos para que o órgão possa se reconstituir. Bloquear sua ação completamente, e por longos períodos, impede que o tecido se repare corretamente”, detalha. O processo inflamatório também ocorre em condições normais do organismo, como ovulação e filtração da urina, por isso, o uso abusivo de anti-inflamatórios pode comprometer a formação da urina, o sistema nervoso central, a circulação sanguínea e o metabolismo hepático. Há 20 anos à frente da pesquisa, o docente afirma que os estudos continuam na busca pelo entendimento da resposta inflamatória – com momentos de destruição e outros de reparação de tecidos –, de como esse processo pode ser importante para o organismo e como programar essas células inflamatórias para que possam agir somente a favor do paciente, sem causar sintomas que levem à necessidade de medicamentos. O grupo tem vários trabalhos publicados nesta linha e uma patente de dois medicamentos que podem reduzir a resposta inflamatória. A pesquisa foi publicada no periódico suíço Cells.