Reencontro com a beleza

Ações resgatam a autoestima e influenciam positivamente quem passa pelo tratamento do câncer

O diagnóstico de um câncer pode ter diferentes impactos e tornar o tratamento uma tarefa das mais difíceis para os pacientes. O medo de morrer e as muitas incertezas sobre o futuro são fatores que tornam esse processo desafiador e angustiante, agravado pelos efeitos colaterais e pelas marcas que as intervenções provocam. Não bastasse toda a complexidade da doença, a rotina de exames e as visitas frequentes ao médico, o tratamento – principalmente quimioterapia e radioterapia – causa inúmeros efeitos colaterais, gerando mudanças no corpo e na aparência. Queda de cabelo, manchas na pele, enfraquecimento das unhas, ressecamento da boca, inchaços, cansaço excessivo e – no caso do câncer de mama – a própria mastectomia são fatores que colaboram para a fragilidade de  quem passa pelo tratamento, por interferir diretamente na autoestima. Porém, o aspecto psicológico pode ser amenizado quando o cuidado com a aparência ganha mais atenção, e poderá ser determinante para o enfrentamento da doença.

Consenso entre especialistas, o fato é que a valorização da autoestima por meio de cuidados estéticos melhora a qualidade de vida dos pacientes, mesmo aqueles que estão fora das alternativas terapêuticas. “Quando a mulher recupera sua vaidade e se reencontra no espelho, por exemplo, os ganhos são imensos. Não é o fato de aprender a se maquiar que importa, mas o que estar maquiada causa a cada uma”, avalia a psicóloga Kamila Panissi, do Instituto de Prevenção do Hospital de Amor Barretos, no interior de São Paulo. No hospital especializado em Oncologia, as ações voltadas ao cuidado estético já fazem parte da rotina de  pacientes que realizam exames preventivos ou tratamentos. Para as mulheres, aulas de automaquiagem, dicas para usar  lenços e dança do ventre, realizadas em parceria com voluntários, ocorrem semanalmente em encontros que oferecem bem-estar, movimento, alegria e o resgate da feminilidade.

Segundo a psicóloga, buscar o bem-estar emocional é muito mais do que tratar da estética do paciente, pois significa proporcionar autoconhecimento, autoconfiança e um resgate da beleza natural em meio a um turbilhão de emoções. “A mulher precisa de tempo para aceitar e aprender a lidar com a doença. Para isso, o apoio familiar e profissional é essencial, pois incentiva o otimismo, encoraja a lutar, a melhorar a qualidade de vida e, principalmente, ajuda a paciente a se reencontrar como mulher. Isso certamente fará toda a diferença na vida e no tratamento contribuindo, inclusive, para prevenir casos de depressão, comuns no câncer”, comenta. Além dos atendimentos individuais e dos grupos de apoio, tão importantes para a troca de experiências, a maioria dos hospitais especializados oferece uma rede de atenção formada por médicos, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos e, ainda, profissionais de estética e beleza, que trabalham conjuntamente pela recuperação dos pacientes.

Com procedimentos e terapias que podem ser realizados em conjunto ou separadamente, de acordo com tipo de tumor, localização e tamanho, entre outros fatores, o tratamento oncológico, muitas vezes, deixa consequências visíveis também na pele, causando impacto negativo sobre a autoestima e interferindo no dia a dia. Pele irritada, manchada, ressecada e queimada, unhas descoladas e uma série de reações alérgicas são as principais queixas dos pacientes que, às vezes, de tão severas prejudicam ou adiam a sequência do tratamento. “Com o atendimento dermatológico e cosmiátrico gratuito, integral e individualizado para pacientes encaminhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) conseguimos reduzir em mais de 80% o grau de sofrimento dessas pessoas, promovendo melhoras significativas na qualidade de vida e, consequentemente, na autoestima”, afirma a dermatologista Dolores Gonzalez Fabra, idealizadora e coordenadora do Ambulatório de Reabilitação Dermatocosmiátrica para Pacientes Oncológicos da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), no ABC paulista.

Criado em 2004 com a proposta pioneira de atendimento exclusivo à reabilitação dermatológica de pacientes oncológicos visando melhorar a qualidade de vida e minimizar os efeitos colaterais dos tratamentos, o Ambulatório atua com equipe multidisciplinar formada por dermatologistas e oncologistas assistentes, acadêmicos e residentes de Dermatologia. “Durante a vigência da terapia oncológica, é fundamental que o paciente receba tratamento para as consequências dermatológicas indesejadas, pois, além do impacto físico e emocional, algumas podem ser incapacitantes como a síndrome mão pé, que gera uma inflamação grave nessas regiões. Fala-se muito da queda do cabelo e de seu impacto na autoestima, mas pouco se diz da dor lancinante nas unhas que inflamam, descolam e se tornam um suplício para simples tarefas do dia a dia”, destaca. A médica  enfatiza que esses e outros efeitos colaterais graves podem ser identificados, prevenidos ou minimizados com condutas dermatológicas adequadas, mesmo durante a terapia oncológica.

Voluntários que atuam em grupos de apoio oferecem perucas, lenços (ensinam como usar com estilo), próteses mamárias externas, orientações de automaquiagem e manicure, cuidados com as roupas durante o tratamento, dicas de nutrição e micropigmentação de auréola e sobrancelhas. Profissionais de teatro e psicólogos complementam a equipe no processo de recuperação. “Esse é um trabalho desafiador que dá muita gratidão, pois conseguimos tornar menos dolorosa a vida dos pacientes, oferecendo apoio e condições para que enfrentem a doença de forma positiva, pensando em uma vida mais próxima possível do normal e na cura. Com esse trabalho esperamos inspirar outras instituições para uma atuação mais presente do dermatologista na equipe multidisciplinar oncológica, oferecendo suporte preventivo”, acentua a dermatologista.

Tatuagem solidária para mulheres mastectomizadas

O cabelo cresce, as dores desaparecem e a ansiedade é superável, mas o tempo não cura todas as marcas deixadas pelo câncer de mama que, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), atingiu 59,7 mil novos casos no Brasil em 2018, o equivalente a 29,5% do total de mulheres acometidas por todos os tipos de neoplasia. A prevenção e o diagnóstico precoce são os maiores aliados para a cura, mas as sequelas podem ser inevitáveis. Para amenizar esse quadro, o artista plástico e tatuador paulista Miro Dantas utiliza tinta, agulha, competência e muito talento para fazer a micropigmentação da auréola e do mamilo de mulheres mastectomizadas. Se não esconde as imperfeições do corpo, a técnica pelo menos possibilita resgatar a autoestima de quem passou pela mastectomia e que, mesmo com a reconstrução das mamas, ainda precisa de um auxílio para se reconhecer como mulher novamente.

Criado em 2014, o projeto social ‘Uma Tatuagem Por Uma Vida Melhor’ já atendeu gratuitamente cerca de 200 mulheres que venceram o câncer de mama. A ideia do tatuador é ser um apoio ao tratamento oncológico e contribuir para a recuperação da feminilidade e autoestima. “É incrível ver a recuperação da coragem de uma mulher que estava desacreditada. É emocionante participar desse momento e possibilitar que tenham de volta um pouco do que eram antes da doença para se sentirem mais completas. As mulheres saem do estúdio com a vida mudada, fazendo muitos planos e cheias de gratidão, o que é muito recompensador”, afirma Miro Dantas.

Desenvolvida pelo artista, a técnica consiste em tatuar o desenho da auréola na mama reconstruída para deixá-la o mais natural possível. “Fotografo e reproduzo o desenho de forma invertida e o resultado é muito satisfatório. Esse é um trabalho sério, feito com muito profissionalismo, indicado por médicos e que tem inspirado outros artistas país afora”, acentua. O tatuador atende as mulheres mastectomizadas uma vez por semana através do projeto e doa a tatuagem para uma das mulheres da longa fila de espera, selecionada a partir de uma triagem que indica se a mama pode ser tatuada. Atualmente, diversos artistas de todo o Brasil oferecem atendimentos similares e a recomendação é optar por aqueles que trabalham com arte realista, que preferencialmente tenham parceria com hospitais e projetos sociais e que, acima de tudo, valorizem as histórias de luta e superação dessas mulheres.