Pomada criada no instituto butantan combate veneno da perigosa aranha-marrom

De acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, em 2017 foram registrados 8.079 casos de picadas de aranha-marrom. Embora seja um animal pequeno, a picada pode causar necrose da pele, falência renal e até a morte, por isso, cientistas do Instituto Butantan desenvolveram uma pomada à base de tetraciclina, cujos efeitos curativos foram comprovados em testes realizados em cultura celular e com animais. Agora, os testes estão sendo feitos com humanos para comprovação da eficácia da pomada nas vítimas da aranha. Em outubro de 2018 foi iniciado, no Estado de Santa Catarina  – com apoio do Centro de Informações Toxicológicas de Santa Catarina e do Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) – um ensaio clínico duplo-cego randomizado com o uso de pomada ativa e de placebo. A pesquisa contempla 10 dias de tratamento tradicional, uso da pomada e acompanhamento periódico. Até o momento, 80 pessoas participaram do estudo e a meta é chegar a 240, metade testada com placebo. Os cientistas esperam que, até o começo de 2020, sejam concluídos os testes em número necessário para uma análise estatística robusta para, então, abrir os resultados.

A aranha-marrom tem tamanho que varia de 0,6mm a 2cm e é comum no Brasil, com maior ocorrência de acidentes na região Sul – entre 70% e 80% dos casos. A maioria das vítimas da picada desenvolve lesão no local, que se transforma em uma necrose e pode ser de diferentes tamanhos, de difícil cura e precisa de meses para a cicatrização. Na forma sistêmica, que pode ser branda ou grave, o envenenamento pode acometer o organismo como um todo e gerar hemólise intravascular, agregação plaquetária, inflamação e falência renal que pode levar ao óbito. Cerca de 16% dos indivíduos atingidos desenvolvem a forma sistêmica na América Latina e alguns pacientes desenvolvem as duas formas.

O Brasil tem como tradição o uso de antiveneno, um tipo de soro produzido em cavalos imunizados com veneno da aranha-marrom e preparado em locais especializados, como o Instituto Butantan. Segundo a pesquisadora Denise  V. Tambourgi, diretora do Laboratório de Imunoquímica e vice-diretora da Divisão de Desenvolvimento e Inovação do Instituto Butantan, pacientes vitimados pela aranha-marrom recebem uma conduta médica orientada pelo Ministério da Saúde, que é administrar o antiveneno associado a anti-inflamatórios para amenizar a reação. Nos casos mais graves, o paciente pode precisar de internação.

No entanto, o protocolo não é efetivo para todas as vítimas da aranha, por isso a necessidade de mais estudos e de desenvolver terapias complementares que, associadas ao antiveneno, ofereçam uma maior eficácia ao tratamento. “Nosso estudo começou analisando o veneno da aranha-marrom 25 anos atrás, na tentativa de entendermos porque poderia levar ao óbito e à dermonecrose, e para conhecermos bem os componentes presentes no veneno. Com isso, descobrimos que a toxina responsável pela gravidade é uma proteína chamada esfingomielinase D, molécula capaz de digerir alguns lipídios presentes na superfície da célula”, detalha a pesquisadora.

Como a quantidade de veneno presente em uma única aranha é de cerca de 10 microgramas seriam necessárias milhares de aranhas para o estudo dessa proteína. Então, o grupo inseriu um gene da aranha na bactéria Escherichia­ coli criando, assim, uma biofábrica da esfingo­mielinase D. Isso permitiu testar inibidores do veneno e chegar ao desenvolvimento da pomada à base de tetraciclina. “Percebemos que a tetraciclina em concentrações ideais poderia controlar a morte de células da pele em cultura e a morte das células em modelo experimental animal com lesão semelhante aos humanos. É um tratamento que promove a cura acelerada. Com os resultados e a permissão da Comissão de Ética em Pesquisa Humana passamos a usar a pomada à base de tetraciclina em pacientes para confirmação da eficácia”, afirma.