Os benefícios do LcS na qualidade do sono

Estudo mostra que cepa probiótica é capaz de diminuir os sintomas causados pelo estresse em adultos saudáveis

O sono é um momento importante para descansar e restaurar várias estruturas e funções do corpo, e o sono profundo é considerado especialmente importante para a recuperação física e a formação da memória. Enquanto uma noite bem dormida ajuda a recuperar o corpo e a mente, o sono insuficiente leva a situações de sonolência diurna e perda­ de concentração e alerta, provocando consequentemente uma diminuição da produtividade e do desempenho físico ao longo do dia. A exposição ao estresse psicológico causa distúrbios do sono, além de vários outros sintomas. Assim como a perda persistente do sono pode aumentar os riscos de doenças, como o diabetes e a hipertensão, o estresse prolongado pode provocar enfermidades cardiovasculares, gastrointestinais e psiquiátricas.

Segundo a mestre em Ciências da Saúde e pesquisadora associada sênior do Instituto Central Yakult, Mai Taka­da­­­, duas vias de resposta são ativadas em situações estressantes: o eixo hipotálamo­hipófise-adrenal (HPA), que envolve a liberação do hormônio do estresse (cortisol); e o sistema nervoso simpático, que prepara o corpo para uma resposta de ‘lutar ou fugir’. “Estes são mecanismos necessários de sobrevivência do organismo que devem ser transitórios, mas, quando o estresse se torna persistente, a atividade simpática e o nível do hormônio do estresse ficam constantemente elevados e a resposta crônica ao estresse pode causar uma ampla gama de problemas físicos e psicológicos, como hipertensão arterial, problemas digestivos, suscetibilidade a infecções, ansiedade e perturbação do sono, afetando também a qualidade de vida”, alerta.

Várias evidências científicas sugerem que microrganismos intestinais influenciam a função cerebral e o estado psicológico por meio do eixo cérebro-intestino-mi­crobiota. Experimentos com animais de laboratório têm conseguido demonstrar que probióticos como o Lactobacillus casei Shirota (LcS) – cepa exclusiva da Yakult – atenuam a resposta ao estresse, mantêm a barreira da mucosa intestinal durante situações de estresse agudo e reduzem a ansiedade e a depressão induzidas pelo estresse. Os cientistas acreditam que a comuni­cação entre cérebro­-intestino-microbiota ocorre, pelo menos em parte, através do nervo vago, que inerva grande parte do organismo. Como o L. casei Shirota se mostrou benéfico em estudos anteriores relacionados ao estresse, o grupo da pesquisadora Mai Takada levantou a hipótese de que também poderia melhorar o sono durante situações estressantes.

Para confirmação foi conduzido um estudo duplo-cego, randomizado, placebo controlado que avaliou se o ­L. casei Shirota reverteria a redução na qualidade do sono em um modelo de estresse acadêmico com adultos saudáveis. O estudo ­‘Beneficial effects of casei Shirota­ on academic­ stress-in­duced sleep disturbance­ in healthy adults: a double-­blind­, randomized,­ placebo ­controlled trial’ consistiu em dois conjuntos de ensaios clínicos envolvendo 94 estudantes saudáveis do 4º ano de Medicina da Universidade de Tokushima, no Japão – 48 indivíduos no grupo LcS e 46 no grupo controle.

Os estudantes, que estavam se preparando para um importante exame de qualificação nacional – obrigatório para todos os graduandos de Medicina no Japão – e vivenciavam momentos de forte estresse, foram instruídos a consumir leite fermentado com L. casei Shirota ou leite placebo todos os dias e evitar o consumo de outros probióticos e prebióticos, incluindo bebidas à base de iogurte e ácido lático. O experimento foi repetido durante dois anos consecutivos ao longo do semestre de outono/inverno e, depois, os dados foram agrupados. Os participantes foram excluídos se apresentassem as seguintes condições: mais de 30 anos de idade, diagnóstico de doença física ou mental, uso de medicação, se fosse fumante ou tivesse alergia a leite ou a outros alimentos.

O experimento obteve resultados semelhantes, embora algumas diferenças entre os grupos não tenham alcançado significância estatística até que fossem combinados os resultados dos dois ensaios. A cientista Mai Takada explica que o Lactobacillus casei Shirota é conhecido por ter vários benefícios para a saúde, incluindo modulações gastrointestinais e imunológicas. Desta vez, além desses benefícios bem conhecidos, os resultados sugeriram que a cepa também poderia prevenir o aparecimento de sintomas induzidos pelo estresse na qualidade do sono. “Até onde sabemos, este foi o primeiro relato a mostrar os efeitos benéficos de cepas probióticas no sono usando medidas subjetivas e objetivas”, detalha. Os resultados do estudo foram publicados na Beneficial Microbes (2017, 8 (2): 153-162,  e apresentados pela pesquisadora sênior Mai Takada no Ganepão 2019.

Ensaios clínicos duraram 13 semanas

O modelo de estresse acadêmico foi empregado para examinar os efeitos do L. casei Shirota no declínio da qualidade do sono induzido pelo estresse. Os ensaios consistiram de um período de triagem seguido por um período pré-intervenção de duas semanas e 11 semanas de intervenção. O exame nacional foi realizado no final da oitava semana. Durante o período de intervenção, os participantes receberam uma dose diária de 100ml (1,0×109 UFC/ml) de leite fermentado com a cepa L. casei Shirota obtida do Laboratório de Pesquisa de Coleta de Cultura do Instituto Central Yakult (grupo LcS) ou leite placebo não fermentado (grupo placebo). Ambos tinham a mesma aparência, o mesmo sabor, pH e conteúdo nutricional. Os participantes ingeriram os produtos a partir de oito semanas antes de fazer o exame, e a qualidade do sono durante a intervenção foi comparada entre os dois grupos.

Durante os ensaios, os cientistas avaliaram o nível de ansiedade IDATE (Inventário de Ansiedade Traço-Estado), a pontuação de Oguri-Shi­rakawa-Azumi (OSA) da qualidade do sono subjetivo (sonolência ao acordar, início e manutenção do sono, sonho, recuperação da fadiga e duração do sono) e dados de eletroencefalograma (EEG) com os indicadores latência de sono, tempo total de sono, eficiência do sono, porcentagem de vigília após o início do sono (WASO), porcentagem de sono no estágio 3 não-REM e onda delta durante o primeiro ciclo do sono.

O nível de ansiedade do estado de STAI foi avaliado na triagem, oito semanas antes do exame (linha de base), duas semanas antes do exame (seis semanas após a intervenção), no dia anterior, imediatamente após o exame, no mesmo dia e duas semanas após o exame nacional. O estado de ansiedade de ambos os grupos aumentou significativamente com a proximidade do exame e retornou a um nível baixo após o exame. O inventário OSA foi realizado durante o período de triagem, durante a segunda semana do período pré-intervenção (linha de base) e durante a 6ª, 8ª, 9ª e 11ª semanas do período de intervenção. Embora houvesse uma tendência para a qualidade subjetiva do sono diminuir antes do exame nos grupos L. casei Shirota e placebo, houve um efeito positivo significativo do tratamento probiótico nas pontuações autoavaliadas para ‘vigília pela manhã’ e ‘duração do sono’. Os dados do sono EEG foram registrados no mesmo período do inventário OSA. “As gravações eletroencefalográficas noturnas mostraram que os índices de sono profundo foram mantidos mais elevados no grupo LcS em comparação ao grupo placebo durante a intervenção, o que pode ter contribuído para uma maior satisfação percebida no sono no grupo que recebeu o probiótico”, relata a pesquisadora Mai Takada. O estudo foi conduzido de acordo com as diretrizes estabelecidas na Declaração de Helsinque e todos os procedimentos envolvendo humanos foram aprovados pelo Institutional Review Board do Hospital Universitário de Tokushima. O protocolo do estudo foi registrado com a Rede de Informação Médica do Hospital Universitário (UMIN 000015295, UMIN 000019116).

Resultados mostram ação positiva da cepa

No inventário de sono OSA, pontuações mais altas indicam melhor qualidade de sono e pontuações mais baixas indicam pior qualidade do sono. No estudo, os parâmetros subjetivos de qualidade do sono tenderam a diminuir próximo ao exame e se recuperar após, mas, no grupo LcS, a diminuição foi mais leve e a recuperação mais rápida em relação ao placebo. O consumo diário de L. casei Shirota reduziu significativamente a sonolência ao levantar (P<0,05 versus­ placebo) e aumentou significativamente o tempo de sono subjetivo (P<0,01 versus placebo). A iniciação e a manutenção do sono, o sonhar e a recuperação pós-fadiga não foram afetados pela intervenção com a cepa probiótica. A análise do EEG revelou que a latência do sono tendeu a aumentar à medida que o exame se aproximou no grupo placebo, enquanto o consumo diário de L. casei Shirota inibiu o prolongamento da latência do sono. Mudanças no tempo total e na eficácia do sono foram similares nos dois grupos.

Quanto à quantidade de sono profundo, a ingestão de L. casei Shirota preveniu completamente a redução no estágio 3 não-REM e esse efeito foi significativo quando comparado com o grupo placebo (P<0,01 versus placebo). Além disso, o consumo diário de L. casei­ Shirota aumentou a quantidade de onda delta em mais de 20% assim que o exame se aproximou. Esse efeito foi significativo (P<0,05) quando comparado com o grupo placebo, no qual a atividade de onda delta não mudou durante a intervenção. “Juntamente com o aumento do sono profundo observado por meio do eletroencefalograma concluímos que o L. casei Shirota melhorou os sentimentos subjetivos ao melhorar a qualidade do sono”, explica a pesquisadora Mai Takada. Os achados sugerem que o consumo de L. casei Shirota pode ajudar a manter a percepção de qualidade do sono durante um período de estresse crescente, impedindo uma diminuição na percentagem de sono estágio 3 não-REM e aumentando a potência delta. A pesquisadora acentua que, devido à complexidade das interações entre probióticos e hospedeiro, os mecanismos completos de ação do L. casei Shirota permanecem desconhecidos e mais estudos são necessários para esclarecer os mecanismos subjacentes aos efeitos da cepa na manutenção da qualidade do sono sob condições de estresse.

“Apesar dos bons resultados, é importante lembrar que o L. casei Shirota­ é usado como alimento funcional e não como medicamento, por isso, deve ajudar a manter a qualidade de vida de pessoas saudáveis e prevenir o aparecimento de doenças, em vez de curar doenças preexistentes”, orienta. Devido aos resultados favoráveis, o grupo da pesquisadora planeja continuar os estudos clínicos usando outros modelos experimentais diferentes do modelo de estresse acadêmico. “Se fôssemos fazer pesquisas semelhantes no futuro, poderíamos considerar a realização de ensaios em outras faixas etárias. Não temos nenhum plano específico neste momento, mas ainda estamos interessados em esclarecer a interação entre a microbiota intestinal, o sistema nervoso central e os efeitos dos probióticos na saúde mental”, argumenta a cientista.

Outras comprovações

Estudos anteriores sugeriram que o L. brevis amplifica ritmos diurnos do sono em camundon­gos (­Miyazaki et al., 2014) e que o L. helveticus melhora o sono em idosos saudáveis (Yamamura et al., 2009). Nos últimos anos, os cientistas da Yakult têm trabalhado com um modelo de estresse acadêmico para investigar os efeitos benéficos da cepa L. casei­ Shirota­ sobre a responsividade ao estresse em estudantes de Medicina saudáveis. Os resultados desses experimentos mostraram que o consumo diário de Lactobacillus casei Shirota atenua o aumento do cortisol salivar indu­zi­do pelo estresse (Takada­ et al., 2016) e preserva a diversidade da microbiota­ intestinal (Kato-Ka­taoka et al., 2016).

Além disso, o consumo do Lactobacillus casei Shirota impediu o aparecimento de vários sintomas físicos – incluindo sintomas abdominais, gripes e resfriados – que tenderam a aumentar à medida que o dia do exame se aproximava no grupo placebo. A única avaliação anterior a esse estudo sobre o sono, usando o Pittsburgh­ Sleep Quality Index, não revelou mudanças dependentes do tempo ou diferenças intergrupos nos parâmetros crônicos relacionados ao sono (Kato-Kataoka et al., 2016). Ainda assim, tensão e estresse são considerados os principais preditores da má qualidade do sono.