Menor risco no câncer de cabeça e pescoço

Medicamento usado para controlar o diabetes é testado em estudo contra a neoplasia

O uso da metformina, um dos medicamentos antidiabéticos mais prescritos no mundo, foi associado a uma redução no risco de câncer de cabeça e pescoço por pesquisadores que integram o projeto  Genoma do Câncer de Cabeça e Pescoço­ (Gencapo), que reúne diversas instituições brasileiras. Realizado com cerca de 2 mil voluntários com e sem a doença (controle) em cinco hospitais do Estado de São Paulo, o estudo revelou que o uso do fármaco apresentou diminuição mais acentuada – em torno de 60% – entre os indivíduos considerados de alto risco para a doença, que são aqueles que consumiam mais de 40 gramas de álcool por dia e mais de 40 maços de cigarro em um ano.

“Estudos anteriores já mostravam associação entre diabetes, metformina e uma redução no risco de outros tipos de câncer, como pulmão, mama, endométrio, colorretal, fígado e pâncreas. No entanto, os dados existentes na literatura científica eram incipientes em  tumores de cabeça e pescoço, poucos cientistas avaliaram a associação dessa neoplasia com o diabetes e, no Brasil, ninguém havia analisado a relação com a metformina”, explica a pesquisadora Rejane Augusta de Oliveira Figueiredo, autora do estudo na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) com orientação do professor doutor Victor Wünsch Filho. Uma possível explicação é que o medicamento acelera uma enzima chamada AMPK – proteína quinase ativada por AMP – que, além de outras funções, atua na inibição da proliferação celular.

O estudo de caso-controle foi realizado com 1.021 pacientes com câncer de cabeça e pescoço com confirmação histológica de carcinoma espinocelular, e 1.063 controles sem a doença, todos recrutados entre 2011 e 2014 nos cinco hospitais. “Os pacientes com a doença foram divididos em cinco subgrupos: cavidade oral, orofaringe, hipofaringe, laringe e orofaringe/hipofaringe não especificado, enquanto no grupo controle não houve divisão”, detalha a pesquisadora. Na seleção foram eliminados 270 pacientes por apresentarem outras doenças associadas ao álcool e tabaco, diagnóstico de câncer não confirmado e tratamento prévio da enfermidade, e 52 do grupo controle, devido à alta probabilidade de estarem expostos aos mesmos fatores de risco dos pacientes, o que poderia alterar os resultados.

Análises estatísticas mostraram que no grupo de câncer a porcentagem de fumantes (68%) e de pessoas com alto consumo de álcool (53,6%) foi bem maior em relação ao grupo controle (16,3% e 43,5%, respectivamente). No total, 359 participantes foram confirmados com diabetes, sendo 150 (14,7%) com câncer e 209 (19,7%) controles. A presença de diabetes foi inversamente associada ao câncer de cabeça e pescoço em ambos os sexos, tendo resultados estatisticamente significativos apenas entre os participantes do sexo masculino (32%). “Com relação aos diferentes tipos de localização do tumor encontramos uma associação inversa entre diabetes e câncer de faringe, e aproximadamente 57% menos risco, independentemente do uso de metformina”, cita a autora do estudo. Em geral, indivíduos com diabetes que usavam o medicamento apresentaram risco 46% menor de ter o câncer, se comparados aos sem diabetes.

Segundo a pesquisadora, os resultados são promissores e apontam para a eficácia do uso de metformina em diversos tipos de câncer, fortalecendo a indicação de estudos mais aprofundados para avaliar a ação do medicamento. “É preciso entender melhor, por meio de estudos mais específicos, o mecanismo de proteção, o tempo de uso e a dosagem para avaliar a viabilidade da metformina em uma abordagem de quimioprevenção para esse tipo da doença ou, até mesmo, para prolongar a sobrevida dos pacientes com câncer”, comenta. Durante a pesquisa, só foi possível avaliar o efeito da metformina associado ao diabetes, já que os portadores da doença são os principais usuários do medicamento.

Importante

O câncer de cabeça e pescoço é um conjunto de tumores que afeta a cavidade oral (lábios, língua, assoalho da boca ou palato), os seios da face, a faringe e a laringe, além de glândulas, vasos sanguíneos, músculos e nervos da região. A neoplasia é a mais prevalente nos países em desenvolvimento, ficando em nono lugar entre os tipos de câncer mais comuns no mundo, com 700 mil novos casos anuais segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Tabagismo, consumo excessivo de bebidas alcoólicas e, atualmente, o crescente número de casos de HPV (Papilomavírus humano) estão entre os principais fatores de risco. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que a neoplasia representa 4% do total de todos os tipos no Brasil. A prevenção e o diagnóstico precoce são os principais aliados para a redução do número de casos e a eficácia dos tratamentos, pois, quando descoberto no estágio inicial, as chances de cura desse tipo de câncer aumentam em 80%.