Leite humano é alimento padrão ouro

A amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida oferece inúmeros benefícios à saúde da mãe e do bebê

Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável

Momento de maior interação entre mãe e bebê, a amamentação é mais que um ato de amor. O leite materno é considerado ‘padrão ouro’ do ponto de vista nutricional e exerce papel fundamental na promoção da saúde, pois oferece todas as vitaminas, proteínas, água e demais substâncias necessárias para o pleno desenvolvimento da criança, além de anticorpos e microrganismos essenciais para formar o sistema imune e o microbioma, respectivamente. Por ser um importante aliado no combate à mortalidade infantil, incentivar o aleitamento tem sido prioridade e um grande desafio para a Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem orientado massivamente especialistas e mães sobre a importância da amamentação por meio de campanhas desenvolvidas em todo o planeta. A meta global é que, até 2025, pelo menos 50% das crianças sejam alimentadas exclusivamente pelo leite materno até o sexto mês de vida.

Estudos apontam que a redução da mortalidade infantil está diretamente relacionada à amamentação e, a cada dia, surgem evidências científicas sobre novos benefícios. Segundo a pediatra Vanessa Guimarães, especializada em cardiopediatria e terapia intensiva pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor‑

HCFMUSP), o leite humano contém todas as necessidades calóricas e proteicas que contribuem para a formação do sistema imunológico do bebê. “O alimento influencia no desenvolvimento emocional, cognitivo e intelectual da criança; diminui as chances de alergia e doenças como diabetes, infecções respiratórias, do trato urinário e causadas por parasitas; reduz o risco de desnutrição, diarreia, cáries, infecções, doenças crônico-degenerativas ou não transmissíveis”, aponta. Além disso, com a presença de ômega 3 – que varia de mulher para mulher –, atua no desenvolvimento e crescimento do bebê prematuro e, graças à molécula denominada PSTI, responsável por reparar e proteger o intestino do bebê, previne as cólicas intestinais.

A amamentação melhora a saúde, o desenvolvimento e a sobrevivência dos bebês porque o leite materno é composto de proteínas, gorduras e carboidratos em quantidade e qualidade equilibradas. O médico pediatra Marcus Renato de Carvalho, consultor internacional em amamentação, professor doutor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e editor do portal www.aleitamento.com, acentua que o leite materno é um imunomodulador que contém leucócitos, fundamentais para o sistema imune; interferon, glicoproteínas que participam do controle e da replicação celular e são modificadoras da resposta imunológica, com efeito antiviral, antiproliferativo e imunomodulador; hormônios, célulastronco, enzimas digestivas e vários tipos de carboidratos não absorvíveis, como os prebióticos, que promovem o crescimento das bactérias benéficas que compõem a microbiota intestinal, não permitindo o crescimento de patógenos. “O leite materno é mais que um conjunto de nutrientes. É um superalimento que, quando exclusivo, reforça o sistema de defesa por se tratar de um líquido vivo, com células vivas, principalmente glóbulos brancos e várias espécies de lactobacilos, como L. reuteri, L. fermentum e L. salivarium”, ensina.

Reflexos Positivos

Os benefícios da amamentação exclusiva se estendem à saúde bucal do bebê. Os movimentos corretos da sucção e ordenha fazem com que todos os músculos da maxila e mandíbula trabalhem em equilíbrio, ajudam a posicionar os dentes e previnem distúrbios da fala e problemas de má oclusão. Ao satisfazer o reflexo de sucção, a criança também fica menos propensa a adquirir hábitos nocivos, como chupar o dedo ou a chupeta. Segundo a odontopediatra e psicanalista Patrícia Valéria Cunha Georgevich, membro da Câmara Técnica de Odontopediatria do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), o ato de mamar proporciona desenvolvimento e crescimento adequados, ajuda nas funções de mastigação, deglutição, fala e respiração, e não contribui para a formação de cáries. “O que causa esse tipo de infecção é o açúcar presente nas fórmulas artificiais e, principalmente, a falta de higiene bucal do bebê, mesmo antes dos primeiros dentes”, afirma. Gengivas, bochechas e língua devem ser limpas com gaze úmida, pelo menos duas vezes ao dia, especialmente antes de o bebê dormir. A partir da erupção dos dentes é aconselhável limpar com escova própria, macia e com a cabeça pequena. Com esses hábitos, o resultado será um bebê saudável, bem nutrido, com peso adequado e dentes bem formados.

Orientação e apoio são essenciais para a adesão

Os profissionais da saúde sabem que a melhor opção é o leite materno, entretanto, ainda persiste certa dificuldade de convencer algumas mulheres de que esses benefícios têm de estar acima das dificuldades para que a amamentação tenha sucesso. Para as mulheres, a amamentação diminui os riscos de hemorragia, anemia pós-parto, diabetes e câncer de mama, ovário e endométrio, principalmente devido à queda do estrogênio durante a amamentação, e ajuda na perda de peso, entre outras vantagens. Por trás das causas do desmame precoce estão o desconhecimento sobre os benefícios, a desinformação sobre as técnicas da lactação, uso de mamadeiras, chupetas e intermediários de silicone, o despreparo médico na orientação às mulheres, assim como a falta de apoio familiar e o trabalho sem licença adequada. “Alegações como ‘pouco leite’, ‘leite fraco’ e aborrecimentos que ‘secam o leite’ não são verdadeiras, pois, potencialmente, toda mulher é capaz de amamentar desde que este seja o seu desejo e esteja informada e apoiada”, assegura o médico Marcus Renato de Carvalho, ao ressaltar que até a mulher que adota é capaz de produzir leite.

Para o especialista, o fato é que nem todos propagam os benefícios da amamentação que, por vezes, é uma questão interdisciplinar que exige apoio de clínico de lactação, fonoaudiólogo, psicólogo, enfermeiro e fisioterapeuta. “A maioria dos profissionais da saúde é formada em um modelo biomédico, medicalizador, hospitalocêntrico e centrado em doenças, com pouca ênfase na promoção da saúde e na humanização da atenção. Mas, obviamente, não são os únicos responsáveis pelo baixo índice de aleitamento materno, que no Brasil equivale a 41% segundo dados da OMS”, ressalta. Outro fator determinante para o desmame precoce ou não aleitamento é o marketing agressivo das indústrias de fórmulas infantis. A pediatra Vanessa Guimarães lamenta que mães em condições econômicas mais baixas sejam as que primeiro gastam com as fórmulas. Por isso, considera essencial o estímulo ao aleitamento nas maternidades, na primeira hora de vida do bebê, o que determinará o maior sucesso no processo da amamentação.