LcS reduz risco de hipertensão em idosos

Estudo envolveu 352 voluntários japoneses com idade entre 65 e 93 anos

A microbiota intestinal exerce um papel importante na manutenção da saúde humana e o consumo de produtos lácteos fermentados contendo bactéria ácido-lática pode trazer uma contribuição favorável para este processo. O Lactobacillus casei Shirota (LcS) tem sido utilizado na produção de leite fermentado nos últimos 80 anos e produtos contendo LcS continuam muito populares, tanto no Japão quanto no mundo, com respectivo consumo médio de 8 e 30 milhões de frascos por dia durante o período de 2009-2014 (Yakult Honsha Co. Ltd. official website). Ensaios clínicos mostram que o LcS possui muitos efeitos benéficos, incluindo regulação da motilidade intestinal, proteção contra infecção, imunorregulação, prevenção de carcinogênese e controle da pressão sanguínea. Além disso, alguns estudos de caso-controle demonstraram que o consumo de LcS reduziu o risco de câncer de bexiga e de mama. Entretanto, o impacto do Lactobacillus casei Shirota nas doenças relacionadas ao estilo de vida é menos claramente definido e são necessários mais estudos epidemiológicos.

A hipertensão é amplamente prevalente em todo o mundo, mas é particularmente comum no Japão, onde em torno de 43 milhões de adultos têm sido diagnosticados. Apesar de a hipertensão normalmente não apresentar sintomas, se permanecer sem tratamento pode trazer consequências para a saúde, incluindo doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardíaca, doença arterial periférica, perda da visão e doença renal crônica. A prevenção e o controle da hipertensão podem, assim, ser uma importante contribuição para a melhoria da saúde da população. O objetivo do estudo ‘Consumo habitual de produtos lácteos fermentados contendo Lactobacillus casei Shirota (LcS) e redução no risco de hipertensão em idosos’ foi relacionar o consumo habitual de produtos lácteos fermentados contendo LcS com a probabilidade de a hipertensão ser desenvolvida em idosos que eram inicialmente normotensos.

Os participantes foram 352 voluntários japoneses de vidalivre (125 homens e 227 mulheres) com idade entre 65 e 93 anos, que foram recrutados para o Estudo Nakanojo. Os critérios para o recrutamento incluíram vontade de participar, comparecimento em exame médico anual, nenhum histórico de hipertensão, independência funcional e ausência de condições crônicas ou progressivas que poderiam limitar a atividade física ou ter um efeito maior na qualidade de vida (por exemplo, câncer, artrite, mal de Parkinson, Alzheimer, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica e demência).

Os participantes entregaram os termos de consentimento livre e esclarecido (TCLE) preenchidos para participar do estudo conforme aprovado pelo Comitê de Revisão Ética do Tokyo Metropolitan Institute of Gerontology e, após o protocolo, o estresse e a possibilidade de riscos foram detalhadamente explicados aos voluntários.

A frequência de consumo de produtos lácteos fermentados com LcS foi estimada por um nutricionista qualificado durante entrevista que utilizou imagens de uma série de produtos lácteos fermentados com LcS, incluindo ‘Yakult’, ‘Joie’, ‘Soful’ e ‘Pretio’ (Yakult Honsha Co. Ltd., Tóquio, Japão), cada um contendo 0,9 – 40×109 LcS vivos por frasco. Os avaliadores perguntaram aos participantes quantas vezes produtos deste tipo foram consumidos por semana nos últimos cinco anos (2009-2014) e a frequência de consumo dos produtos lácteos fermentados em geral, tais como iogurtes (incluindo os produtos da Yakult Honsha Co. Ltd. mencionados). Os participantes foram classificados como consumidores de um frasco de produto duas vezes ou menos (denominados como ‘grupo L’) ou três vezes ou mais por semana (denominados como ‘grupo H’), como classificado no Framingham Heart Study.

O histórico alimentar dos participantes foi avaliado pelo nutricionista ao longo de uma semana, utilizando modelos alimentares, fotografias e a versão 3,5 do Questionário de Frequência Alimentar baseado nos Grupos de Alimentos (Kenpakusha Co. Ltd., Tóquio, Japão), o último sendo um questionário de 20 itens considerando 29 grupos de alimentos e 10 métodos de preparação. Baseado nas respostas do questionário, o consumo diário de energia, nutrientes e grupos alimentares foi estimado para o período de 1-2 meses antes do início do estudo. Os nutrientes estimados incluíram proteínas, lipídeos, carboidratos, fibras alimentares, ácidos graxos saturados, ácidos graxos monoinsaturados, ácidos graxos poli-insaturados, colesterol, sódio, potássio, cálcio, magnésio, ferro e vitamina C.

Pressão sanguínea

Antes de registrar a pressão sanguínea, os participantes ficaram sentados calmamente por cinco minutos, e todas as medidas foram feitas utilizando um monitor de pressão sanguínea automático (BP-103iII; Colin Medical Technology Co. Ltd., Komaki, Aichi, Japão). Pelo menos duas verificações foram realizadas se a primeira leitura sugerisse que o participante havia se tornado hipertenso. O uso de medicação anti-hipertensiva durante o período de acompanhamento foi determinado por meio de relato próprio elicitado pelo médico. Os participantes eram diagnosticados com hipertensão se os seguintes critérios fossem atendidos: pressão sistólica ≥ 140mm Hg e/ou pressão diastólica ≥ 90mm Hg, e/ou diagnóstico de um médico e/ou consumo atual de medicamento anti-hipertensivo prescrito por um médico.

Características e perfil

As características físicas de cada participante (incluindo idade, peso, massa corporal, índice de massa corporal (IMC), circunferência abdominal, índice de gordura corporal, massa gorda, massa livre de gordura e massa muscular) foram determinadas por técnicas antropométricas padrão. O perfil bioquímico de cada participante (concentrações de triglicérides, colesterol lipoproteico de alta densidade, colesterol lipoproteico de baixa densidade, hemoglobina glicada A1c, glicose no sangue em jejum, transaminase glutâmico oxalacética, transaminase pirúvica glutâmica, γ-glutamil transpeptidase, albumina, creatinina, ácido úrico e taxa de filtração glomerular estimada) foi medido por métodos padrão, de acordo com instruções do fabricante (Health Sciences Research Institute Inc., Yokohama, Kanagawa, Japão).

Atividade física e saúde

Os padrões de atividade física foram medidos 24 horas/dia por um mês, com sensor de aceleração uniaxial (Lifecorder; Suzuken Co. Ltd., Nagoia, Aichi, Japão). O número médio de passos e a duração de exercício de moderada intensidade diária acumulada (mais de três equivalentes metabólicos [METs]) foram calculados para os participantes. As velocidades de caminhada desejável e máxima foram definidas sobre uma distância de 5m, com cronômetro (SVAE101, Seiko Corp., Minato, Tóquio, Japão). Cada participante completou dois testes para velocidade de caminhada desejável e para a máxima; a média e a maior velocidade foram registradas. O pico da força manual foi avaliado para a mão dominante, com dinamômetro Smedley (ES-100, Evernew Co. Ltd., Koto, Tóquio, Japão). Dois testes foram realizados e o maior resultado foi registrado. Medidas de ultrassom quantitativo do índice osteossônico para o calcâneo foram realizadas com densitômetro ultrassônico de osso Achilles (AOS-100, Aloka Co. Ltd., Mitaka, Tóquio, Japão).

Análises estatísticas

Os participantes foram divididos em dois grupos, baseados na frequência de consumo de produtos lácteos fermentados (<3 e ≥3 vezes/semana: grupos L e H, respectivamente). A análise de covariância avaliou diferenças independentes entre os grupos com relação a variáveis antropométricas, atividade física, aptidão física, calcânea, nutricional e sanguínea, após limitar os dados para idade e/ou sexo. Teste de Qui-Quadrado avaliou diferenças na proporção masculino/feminino e incidência de hipertensão. A análise de regressão de perigo proporcional de Cox avaliou a relação independente entre consumo de produtos lácteos fermentados e risco estimado de hipertensão ao longo de cinco anos, após limitar idade, sexo, IMC, tabagismo e consumo de álcool. O gráfico Kaplan-Meier analisou mudanças na proporção de participantes sem hipertensão em cada grupo, por cinco anos, e o teste log‑rank analisou a significância das diferenças entre as duas curvas. Diferenças estatísticas tiveram nível de significância de 0,05.

Resultados mostram considerável vantagem para o grupo LcS

Dos 352 participantes, 98 consumiram produtos lácteos fermentados contendo LcS três ou mais vezes por semana e, em termos de produtos lácteos fermentados em geral, o número correspondente foi 223/352. O impacto sobre o desenvolvimento de hipertensão foi similar para os dois métodos de classificação das amostras, e foram principalmente discutidos os resultados em relação ao produto lácteo fermentado com Lactobacillus casei Shirota. Inicialmente, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos

L e H com relação a quaisquer variáveis analisadas, exceto pelo hábito de atividade física, uma vez que os usuários frequentes foram menos ativos do que seus pares. Fumantes atuais foram 15 de 254 no grupo L, e 6 de 98 no grupo H; 80 dos 254 participantes no grupo L e 30 dos 98 participantes do grupo H eram consumidores moderados de álcool, com o restante não consumindo quantidade de álcool significativa.

Nenhum dos participantes, tanto do grupo H quanto L, era inicialmente hipertenso. Entretanto, quanto ao consumo de Lactobacillus casei Shirota, 36/254 (14,2%) do grupo L e 6/98 (6,1%) do grupo H desenvolveram hipertensão ao longo dos cinco anos de observação (diagnosticada por medida da pressão sanguínea de 10/42, por diagnóstico médico de 42/42 e/ou uso de medicamento anti-hipertensivo de 38/42). O teste Qui-Quadrado mostrou que essa diferença de 8% na incidência foi estatisticamente significativa (P=0,037). Por outro lado, em relação ao consumo geral de produtos lácteos fermentados, a diferença correspondente de 7% na incidência (21/129 [16,3%] do grupo L vs. 21/223 [9,4%] do grupo H) não foi estatisticamente significativa (P=0,056).

Quanto aos produtos lácteos fermentados contendo Lactobacillus casei Shirota, um ajuste multivariado do modelo de perigo proporcional de Cox indicou o desenvolvimento de uma diferença intergrupos estatisticamente significativa na incidência de hipertensão ao longo do intervalo de cinco anos, com uma considerável vantagem para o grupo H (risco relativo [95% de intervalo de confiança] de 0,398 [0,167-0,948]) em relação ao grupo L (P=0,037). Por outro lado, em termos de produtos lácteos fermentados em geral, os valores correspondentes não significativos estatisticamente (P=0,087) foram 0,584 (0,316-1,080). No que diz respeito aos produtos lácteos fermentados contendo Lactobacillus casei Shirota, o gráfico Kaplan-Meier com teste log-rank mostrou diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos em relação à proporção de participantes que permaneceram sem hipertensão ao longo do acompanhamento de cinco anos (P=0,038), embora uma pequena proporção de indivíduos que consumiram produtos lácteos com LcS ≥3 vezes por semana também tenha desenvolvido hipertensão durante esse tempo. Em contrapartida, quanto aos produtos lácteos fermentados em geral, a diferença entre as duas curvas não foi estatisticamente significativa (P=0,053).

Outros estudos também confirmam benefícios

Este estudo epidemiológico retrospectivo confirma outras observações animais e clínicas demonstrando uma associação entre o consumo frequente de LcS e um risco menor de desenvolvimento de hipertensão na população japonesa. Os novos dados epidemiológicos demonstram que, em idosos com pressão sanguínea inicialmente normal, a probabilidade de a hipertensão surgir ao longo de cinco anos é menor com o consumo frequente de produtos lácteos fermentados com Lactobacillus casei Shirota. Um estudo com 2.636 membros do Framingham Heart Study Offspring Cohort indicou que o consumo diário, como parte de uma dieta padrão nutritiva e balanceada, pode beneficiar o controle da pressão sanguínea e prevenir ou atrasar o surgimento da hipertensão, embora nesta investigação tais possíveis benefícios de um alto consumo de produtos lácteos fermentados em geral não tenham atingido significância estatística.

Outros pesquisadores relataram que um extrato autólogo lisado de LcS induz à redução da pressão sanguínea em ratos espontaneamente hipertensos, sendo a substância ativa um complexo polissacarídeo-glicopeptídeo (SG-1) na parede celular. O efeito anti-hipertensivo do SG-1 resulta de um aprimoramento da biossíntese de prostaglandina I2 e a subsequente redução na resistência vascular periférica. Além disso, dois estudos clínicos mostraram que o autólogo lisado de LcS diminuiu a pressão sanguínea em pacientes hipertensos. A dose do autólogo lisado de LcS administrado nos estudos clínicos foi de 50mg/dia ou 80mg/dia. Essas foram as maiores doses (correspondente a 4 ou 64 frascos/dia de produtos lácteos fermentados com LcS, respectivamente), mas foram administradas somente por dois ou três meses. Portanto, o aparente efeito anti-hipertensivo observado neste estudo pode ser reflexo de uma resposta paralela a uma dose utilizada muito menor durante um longo período.

Estudos prévios mostraram que, após ajuste de possíveis incertezas, a saúde geral dos idosos como visto nos dados mentais, psicossociais, físicos e metabólicos está associada tanto com a quantidade (contagem de passos diários) quanto com a qualidade (duração diária em intensidade >3METs) de atividade física habitual. Neste estudo, houve diferença significativa na atividade física entre os dois grupos de participantes que consumiram produtos lácteos fermentados com Lactobacillus casei Shirota. Os participantes que consumiram mais produtos com LcS foram, surpreendentemente, os indivíduos menos ativos. Há algumas limitações para esta investigação. O desenho foi retrospectivo e observacional ao invés de prospectivo e experimental, então, a causa não pode ser determinada. A frequência de consumo estimada de produtos lácteos fermentados com LcS foi baseada em entrevista conduzida por um nutricionista qualificado. Além disso, o possível surgimento da hipertensão nos participantes foi avaliado regularmente, utilizando uma metodologia padronizada como parte do Estudo Nakanojo. Estes fatos podem reforçar a significância prática da relação observada entre a frequência de consumo de leite fermentado com LcS e o risco de desenvolvimento de hipertensão.

Por outro lado, o consumo individual de leite fermentado ≥3 vezes/semana pode diferir de seus pares em termos de um maior interesse geral no estilo de vida saudável, incluindo outras facetas de comportamento que podem reduzir o risco de hipertensão. Muitas covariáveis de comportamento foram avaliadas e, com exceção de um menor hábito de atividade física naqueles que ingeriram leite fermentado ≥3 vezes/semana, os dois grupos pareceram bem adequados. Os mais importantes determinantes de estilo de vida foram covariados para hipertensão (idade, sexo, índice de massa corporal, tabagismo e consumo de álcool), embora o ajuste estatístico para esses fatores possa ter sido incompleto. Além disso, embora as pessoas normalmente tomem o frasco todo, a quantidade de leite fermentado com LcS ingerida não está necessariamente relacionada com a frequência de sua ingestão. Inclusive, o risco de desenvolvimento de hipertensão está ligado a muitos outros aspectos do alimento que é ingerido. Em particular, o consumo de sal e a resposta ao consumo frequente de leite fermentado com LcS podem ser muito diferentes na população na qual a dieta difere do Japão rural. A etiologia da hipertensão também difere entre jovens e idosos, então, há uma necessidade de este estudo ser reproduzido em populações de várias idades e consumo de várias dietas.

Conclusão

Após ajuste para possíveis incertezas, o risco de desenvolvimento de hipertensão em idosos é inversamente associado com o consumo frequente de produtos lácteos contendo Lactobacillus casei Shirota. Ao longo de um acompanhamento de cinco anos, o risco de hipertensão é consideravelmente menor para as pessoas mais velhas que consumiram tais produtos pelo menos três vezes por semana. Contudo, mais estudos intervencionais são necessários para determinar se há uma relação de causa e efeito. O estudo ‘Consumo habitual de produtos lácteos fermentados contendo Lactobacillus casei Shirota (LcS) e redução no risco de hipertensão em idosos’ foi publicado no Beneficial Microbes 2017, 8(1): 23-29 doi: 10.3920/BM2016.0135 (www.wageningenacademic.com/doi/pdf/10.3920/BM2016.0135).