Discussão envolve análise da microbiota

O estudo demonstrou que, em indivíduos com ALC, o LcS aumentou significativamente o nível sérico de proteínas hepato-específicas transtirretina e reduziu o nível de h-CRP. A deterioração da microbiota intestinal induzida pelo álcool foi corrigida antes do aumento da produção de proteína pela intervenção com o probiótico. Resultados dos testes da função hepática convencional não diferiram significativamente entre os grupos Y400 e placebo, provavelmente por causa da melhoria da função hepática em ambos  devido aos cuidados médicos durante a hospitalização. Para resolver a questão, foram avaliados os níveis proteicos de rápido turnover, que refletiu tanto na função hepática fundamental (síntese de proteínas) quanto no estado nutricional do participante ao longo do tempo. Entre os tipos de proteínas, o nível sérico de transtirretina foi focado porque está bem estabelecido como um indicador nutricional aceitável por sua menor meia-vida (dois dias) do que a transferrina (sete dias), outra proteína de rápido turnover cujo nível é afetado pelo metabolismo do ferro.

O nível sérico de transtirretina foi significativamente maior no grupo Y400 do que no grupo placebo na semana 3, e este aumento foi sustentado ao longo da semana 4. A transtirretina, um fluido sérico e cérebro-espinhal transportador de tiroxina, um hormônio da tireoide e da proteína conectora do retinol (RBP) ligada ao retinol, é sintetizada e secretada pelos hepatócitos. No fígado normal, a proteína, em coordenação com RBP, exerce uma importante função no metabolismo retinoide tanto nos hepatócitos quanto nas células estreladas hepáticas, onde 70%-90% do retinoide hepático total é encontrado em animais bem alimentados. Em fígados com cirrose, entretanto, as CEHs perdem o retinoide e o transformam em células parecidas com miofibroblastos ativos que, por sua vez, contribuem para a fibrogênese. Por outro lado, as CEHs se ligam ao retinoide por responder eficientemente a uma ampla variação no estado extracelular do mesmo. O LcS é investigado por suprimir a progressão da fibrose hepática pela inativação das CEHs e, então, melhorar o metabolismo do retinoide, embora esta hipótese deva ser mais testada em um estudo subsequente em longo prazo. Os níveis séricos de albumina e transferrina também foram elevados após intervenção com Y400. Embora esses aumentos não tenham atingido significância estatística, os dados sugerem que o LcS tenha potencial em promover a produção de proteínas hepato-específicas que podem levar à melhoria na pressão osmótica do sangue e transporte de pequenas moléculas, incluindo íons, no grupo Y400.

Entre as citocinas pró-inflamatórias IL-1, IL-6 e TNF-α, a IL-6 exerce um papel central na suprarregulação da expressão do gene CRP por meio do complexo de fatores de transcrição, incluindo o ativador de transcrição 3 (STAT3). Os níveis de citocinas não diferiram significativamente entre os grupos Y400 e placebo, provavelmente porque as pessoas exibiram baixas concentrações, até no período de admissão, enquanto que uma redução significativa no h‑CRP foi observada na semana 4 no grupo Y400. A redução continuada no h‑CRP por duas semanas após o fim da intervenção com Y400 enfatizou o potente efeito anti-inflamatório deste probiótico no eixo intestino-fígado. Na verdade, o nível relativamente baixo de aspartato transaminase na semana 4 do grupo Y400 pode refletir este fenômeno. Além disso, outro aspecto do efeito antiinflamatório pode ajudar a esclarecer as razões da elevação dos níveis de transferrina sérica após o consumo de Y400. Evidências recentes revelaram que ferrocinéticos são precisamente regulados pela hepcidina, um peptídeo produtor de hepatócito envolvido na redução de absorção de ferro pelo intestino e na liberação de ferro pelos macrófagos para reaproveitamento na eritropoese homeostática. Em condições inflamatórias, a expressão de hepcidina é suprarregulada pelo sinal de IL-6/STAT3, levando a uma redução da absorção de ferro pelo intestino e aumento na retenção de ferro pelos macrófagos. Portanto, é especulado que o probiótico suprime a inflamação no intestino/fígado, reativando a ferrocinética por meio da normalização da expressão de hepcidina. O alto valor de transferrina pode ser um reflexo da melhoria na dinâmica do ferro pelo probiótico. Como este estudo não focou a ferrocinética em pacientes com ALC e um ensaio confiável para hepcidina sérica não foi desenvolvido, esta hipótese necessita ser explorada em estudos futuros.

Os números de bactérias anaeróbias estritas, como os membros do grupo

C. coccoides, subgrupo C. leptum e grupo B. fragilis, foram claramente menores nos participantes com ALC estudados do que números previamente mensurados por análises de qPCR utilizando o mesmo kit primer de 46 participantes saudáveis (10,3±0,3, 9,9±0,7 e 9,9±0,3 respectivamente). A redução na população dessas bactérias foi normalizada após duas semanas de consumo do Y400 e essa restauração foi mantida por pelo menos quatro semanas, apesar de não ser administrada intervenção adicional nas semanas 3 e 4. Além disso, o número de Enterobacteriaceae foi maior nos participantes com ALC do que em outro trabalho com 39 participantes saudáveis (7,1±0,8) previamente examinados pelo sistema qPCR. O Y400 reduziu significativamente o número de Enterobacteriaceae na semana 2 de intervenção e este efeito se tornou estatisticamente significativo em comparação com o placebo na semana 4. O número de bactérias não mudou significativamente nos indivíduos saudáveis que consumiram o probiótico. Esses dados sugerem fortemente que o LcS tem potencial para melhorar a microbiota intestinal prejudicada de pacientes com ALC.

A análise bacteriana sugere que a melhora da microbiota intestinal pelo LcS promoveu a síntese de proteína hepato-específica pelo aumento de Clostridium e redução de Enterobacteriaceae. Foi notório que a síntese de tais proteínas hepato-específicas foi contínua por um tempo considerável após cessar o consumo de Y400. Isso pode significar que a síntese de proteínas hepáticas não foi por causa da ação direta do LcS, mas por seus efeitos indiretos de restauração da microbiota. Como os ácidos graxos de cadeia curta (ácido lático e ácido propiônico) produzidos pela microbiota intestinal são fonte de energia para as células epiteliais e ajudam a restaurar a permeabilidade alterada da barreira celular, a inflamação hepática atenuada pode ser resultado de, no mínimo, restauração da estrutura epitelial e função do intestino em pacientes com ALC com consumo de Y400. Este estudo de coorte utilizou a técnica emergente de análise bacteriana baseada em qPCR para descobrir o efeito benéfico preciso do LcS, não somente no ambiente bacteriano deteriorado, mas também na produção de proteína hepato-específica em pacientes com ALC, fornecendo perspectivas para o tratamento de doenças crônicas do fígado. Como o estudo incluiu somente participantes com ALC compensado, os benefícios do L. casei Shirota também deveriam ser validados em participantes com ALC descompensado. Além disso, para superar as limitações associadas com o estudo de pequeno e curto prazo, é necessário um estudo maior, em longo prazo e multicêntrico, para avaliar se o probiótico contribui para um melhor prognóstico de pacientes com cirrose.

Resultados mostram aumento de espécies bacterianas

Em concordância com o aumento da produção de proteína, os níveis de albumina tiveram aumento similar nas semanas 3 e 4, sugerindo que o LcS pode elevar a produção de proteínas hepato-específicas. Outros testes convencionais de função do fígado, incluindo níveis séricos de alanina transaminase, aspartato transaminase, γ-glutamil transpeptidase e bilirrubina total, assim como a concentração de ferritina, um marcador de metabolismo do ferro, não diferiu significativamente entre os grupos. Os níveis séricos de h-CRP, um marcador anti-inflamatório altamente sensível, foi significativamente maior no grupo placebo na semana 4. Os níveis de IL-6, indutor de CRP via sinal transdutor e STAT3, também foram consistentemente maiores no grupo placebo, embora as diferenças não tenham sido significativas. Os números de bactérias anaeróbias estritas, como as do grupo

Clostridium coccoides, subgrupo C. leptum e grupo Bacteroides fragilis, foram significativamente maiores no grupo com ALC que consumiu Y400 nas semanas 2 e 4 do que no início do estudo. O número de Enterobacteriaceae foi menor após duas semanas de intervenção. A população do grupo B. fragilis aumentou nas semanas 2 e 4 no grupo placebo, com o número na semana 4 significativamente maior em relação à semana 2. Comparado com o grupo placebo, o grupo Y400 exibiu contagens significativamente maiores das espécies C. coccoides (semana 2) e Eubacterium cylindroides (semanas 2 e 4) e redução da população de Enterobacteriaceae (semana 4). As quantidades de outros grupos de bactérias estudados não diferiram estatisticamente entre os grupos. Tanto o Y400 quanto o placebo foram administrados com segurança e nenhum efeito adverso foi observado durante o período de estudo. O artigo foi publicado na revista Hepatology International 2013, 7(2): 767-774 – DOI: 10.1007/s12072-012-9408-x.