Dieta como auxiliar nos transtornos mentais

Nutrientes podem ser coadjuvantes do tratamento medicamentoso

Caracterizados por uma combinação de pensamentos, percepções, emoções e comportamentos anormais, os transtornos mentais geram impactos significativos sobre a saúde, além de trazer consequências sociais e profissionais aos pacientes, como afastamento do convívio familiar e do trabalho. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão, considerada o transtorno mais comum, afeta 322 milhões de pessoas – 4,4% da população mundial –, enquanto o transtorno bipolar atinge 60 milhões e a demência 50 milhões de indivíduos. O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking dos países mais deprimidos e ansiosos da América Latina e tem a maior taxa de ansiedade global, que atinge 9,3% da população. Os transtornos mentais também geram custos de tratamento e comorbidades de saúde da ordem de US$ 1 trilhão anualmente. Em todo o mundo, o tratamento das doenças mentais tem como base o uso contínuo de medicamentos que atuam em neurotransmissores, como serotonina e dopamina. No entanto, alguns especialistas defendem que a alimentação também pode influenciar, de forma positiva ou negativa, na saúde mental.

Pesquisas têm demonstrado que alimentos fontes de nutrientes como zinco, magnésio, vitaminas B e D3 e ômega-3 podem ajudar a melhorar o humor, aliviar a ansiedade e a depressão, além de melhorar a capacidade mental de indivíduos com mal de Alzheimer. A nutricionista Carla Mourilhe, coordenadora do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GOTA-UFRJ), lembra que o cérebro humano precisa de uma ingestão adequada de nutrientes essenciais, como os ácidos graxos poliinsaturados ômega-3, aminoácidos essenciais, vitaminas do grupo B (B12 e folato), vitamina D e minerais como zinco, magnésio e ferro. “Por exemplo, o ômega-3 presente nos peixes mostra‑se um grande auxiliar nos tratamentos contra depressão. Já a carência de selênio, um micronutriente encontrado principalmente nas castanhas, tem relação com a depressão e a ansiedade”, pontua.

Dietas balanceadas, como a do Mediterrâneo, fornecem os nutrientes essenciais e devem incluir frutas, legumes, verduras, iogurte, azeite, oleaginosas, carnes magras e peixes de águas frias. Esses alimentos são os que mais se destacam como benéficos devido à presença de antioxidantes que combatem a inflamação crônica, comum nos pacientes com transtornos mentais, e ao alto índice de fibras, que favorece o equilíbrio da microbiota intestinal, de grande importância para o adequado funcionamento do eixo intestino-cérebro. “A microbiota intestinal tem papel importante no tratamento e na prevenção de desordens mentais, e estudos já conseguiram mostrar que indivíduos com depressão apresentam diferenças nos padrões de microbiota fecal”, explica a nutricionista Natália Lopes, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e integrante do Ganep Nutrição Humana.

Mais que fornecer os nutrientes necessários para o bom funcionamento do corpo e do cérebro, a alimentação adequada é fundamental para evitar os transtornos alimentares comuns nesses pacientes. O médico nutrólogo José Alves Lara Neto, vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), enfatiza que os indivíduos com transtornos mentais são mais sensíveis a qualquer estímulo – positivo ou negativo – e sofrem com a alternância de fases. No transtorno bipolar e na depressão, por exemplo, os pacientes podem ter períodos marcados por cansaço, desânimo e falta de apetite, como também passam por momentos de fome excessiva. “É grande a relação entre distúrbios mentais e transtornos alimentares. De 60% a 68% dos pacientes depressivos são obesos, assim como muitos obesos são depressivos, e pacientes com transtornos alimentares têm comorbidades com diversos distúrbios mentais, como ansiedade, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtorno bipolar”, alerta.

Outro ponto importante está no fato de os medicamentos utilizados por pacientes psiquiátricos interferirem no apetite e no metabolismo da glicose e dos lipídios, aumentando as chances de obesidade e diabetes. A alimentação também é decisiva para a capacidade do indivíduo de manter-se em equilíbrio, uma vez que os pacientes psiquiátricos possuem o perfil de se descuidar da saúde geral e, muitas vezes, ignoram os bons hábitos alimentares. A médica psiquiatra Fátima Vasconcellos, diretora da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e presidente da Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), enfatiza que indivíduos com transtornos mentais mais graves tendem a ingerir alimentos calóricos, aumentando o risco de inflamação e o comprometimento mental. “A depressão, por exemplo, está ligada a quadros inflamatórios e tem o risco aumentado com uma dieta desregulada”, assegura.

Psiquiatria nutricional

A Sociedade Internacional para Pesquisa em Psiquiatria Nutricional sugere uma nova estrutura de conceitos que considere fatores nutricionais fundamentais no tratamento de transtornos mentais. O objetivo é apoiar pesquisas cientificamente rigorosas sobre abordagens nutricionais para prevenção e tratamento dos transtornos e suas comorbidades, com maior atenção aos alimentos.

Pesquisas reforçam o papel da nutrição

A importância da nutrição para a manutenção da saúde mental tem sido destacada por pesquisas recentes. Uma delas é a revisão científica realizada por membros da International Society for Nutritional Psychiatry Research (ISNPR) envolvendo a Faculdade de Medicina e Odontologia da Universidade de Valência, na Espanha. Publicado na revista The Lancet Psychiatry, o estudo aponta que a nutrição tornou-se fator-chave para a alta prevalência e incidência de doenças mentais, como a depressão, e os pesquisadores defendem que uma dieta balanceada é tão importante na Psiquiatria quanto em outras especialidades. Um estudo do Japão sugere que uma dieta alimentar adequada pode estar associada ao menor risco de suicídio. A conclusão é fruto de análise realizada com cerca de 90 mil homens e mulheres com padrão alimentar caracterizado pela alta ingestão de vegetais, frutas, batatas, produtos de soja, cogumelos, algas e peixes. Pesquisadores australianos também analisaram 21 pesquisas que abordam a associação entre padrões alimentares e depressão, e os resultados sugerem que o consumo elevado de frutas, legumes, peixes e grãos integrais pode estar associado a um risco reduzido para a doença.

Outro estudo na Austrália comprovou que a dieta cetogênica, rica em gordura, como queijos e peixes, e com baixo teor de carboidratos, poderia melhorar o prognóstico e os sintomas da esquizofrenia. Além disso, equipe de pesquisadores de universidades do Reino Unido, da Bélgica e da Austrália analisaram 28 artigos que envolviam 2.612 participantes e verificaram que indivíduos com esquizofrenia crônica tinham baixos níveis de nutrientes, como folato e vitaminas B12, C, E e D. O grupo constatou que os baixos níveis dos nutrientes pareciam estar presentes desde o início da doença e estavam associados ao agravamento dos quadros. O que mais chamou a atenção foi a diferença nos níveis de vitamina D entre o primeiro episódio de psicose e os grupos controles. Um único ensaio clínico randomizado em pacientes que experimentaram o primeiro tratamento antipsicótico demonstrou que 500mg de vitamina C por dia diminuiu significativamente os sintomas psiquiátricos.