Desvendando o Autismo

Pesquisadores buscam entender as causas e os fatores de risco para obter um diagnóstico mais preciso e tratamentos específicos para o TEA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma em cada 160 crianças tem transtorno do espectro autista (TEA), embora algu­mas pesquisas mostrem números significativamente mais elevados. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) do governo dos Estados Unidos revelam que a prevalência é de 1 para cada 59 crianças (referente a dados de 2014, divulgados em 2018) – um aumento de 15% comparado ao indicador anterior de 1 para 68 (dados de 2012, divulgados em 2016). Já no Brasil, como não há dados epidemiológicos, considera-se que 1% da população tenha o transtorno, o que corresponde a aproximadamente 2 milhões de indivíduos. Mesmo com poucas estatísticas sobre a incidência do TEA e apesar de as pesquisas na área terem sido intensificadas nos últimos 10 anos, o desafio da medicina ainda é entender o mecanismo do autismo, as causas genéticas – que atingem cerca de 70% a 80% dos casos – e possíveis fatores ambientais que favoreçam a pre­disposição desse distúrbio do neu­rodesenvolvimento que afeta prin­cipal­mente a capacidade­ de in­te­­­ração social, a comunicação e o comportamento.

A mudança e a expansão dos critérios diagnósticos, o aprimoramento das informações e o aumento da conscientização sobre o TEA são algumas explicações possíveis por trás do aumento do número de casos registrados nos últimos anos. Na metade dos anos 1990, o transtorno passou a ser considerado um déficit na qualidade da interação social e da comunicação (que inclui movimentos repetitivos ou estereotipados), o que aumentou em muito a prevalência dos casos de autismo. “Mesmo com muitos desafios ainda pela frente, hoje existe um conhecimento maior do espectro por parte da comunidade médica e da população em geral. Além disso, a paternidade em idade avançada pode influenciar em alterações genéticas. No entanto, há um aumento de aproximadamente 30% na prevalência que não pode ser explicado por nenhuma razão”, afirma o neuropediatra Carlos Gadia, diretor associado do Miami Children’s Hospital Dan Marino Center, nos Estados Unidos, professor assistente do Departamento de Neurologia da University of Miami e da Florida International University e docente do Departamento de Pediatria da Nova Southeastern University.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças norte-americano afirma que o TEA é uma questão de saúde pública, por isso, é primordial que se determine estratégias para ajudar a identificar o problema precocemente e determinar os possíveis fatores de risco, assim como ampliar as possibilidades de tratamento de forma precoce. Mais do que isso, o órgão ressalta que é preciso ter iniciativas que atendam às necessidades comportamentais, educacionais, residenciais, ocupacionais e até mesmo trabalhistas – considerando as capacidades específicas – para a inclusão dessa população de forma a quebrar os paradigmas e o preconceito sobre o transtorno. O médico Carlos Gadia, que vive há 38 anos fora do País, ressalta que a pesquisa brasileira sobre o autismo é de alta qualidade apesar das dificuldades de recursos, e há excelentes profissionais. “Assim como ocorre em todo o mundo, a questão é que o número de especialistas capacitados não é suficiente para atender a demanda. Além disso, há  centralização desses profissionais especializados em TEA nos grandes centros urbanos, o que dificulta o acesso da população que, muitas vezes, não consegue ter atendimento ou encontrar a especialidade no Sistema Único de Saúde (SUS)”, ­comenta.

Como ainda não há um marcador biológico e nem é possível identificar geneticamente as causas do autismo – já foram relacionados mais de 1.000 genes –, o diagnóstico é clínico e sujeito à subje­tividade observacional do profissional frente aos sintomas do paciente. Em geral, o diagnóstico costuma ser fechado por volta dos 3 anos de idade, pois a variabilidade do desenvolvimento neurotípico da criança pode se confundir com os sintomas do TEA. No entanto, um estudo publicado na revista científica JAMA

Pediatrics, em maio deste ano, revela que é possível fazer o diagnóstico a partir dos 14 meses. “Na realidade, hoje em dia existe uma série de estudos que sugerem que o diagnóstico pode ser até feito antes, a partir de sinais de alerta que aumentam, em muito, a possibilidade de a criança ser diagnosticada com autismo. A ideia é identificar esses sinais precocemente e começar com intervenções específicas antes que o diagnóstico seja feito, de forma que seria quase uma prevenção”, ressalta o neuropediatra. Entre os sinais estão a falta de resposta da criança ao ser chamada pelo nome, o estabelecimento de pouco ou nenhum contato visual com pais e familiares, a ausência de palavras aos 12 meses de idade, comportamentos repetitivos ou restritos e qualquer regressão, tanto de interação social como de comunicação. Essas crianças também podem apresentar uma série de comorbidades associadas, como problemas gastrointestinais, baixa resistência  imunológica, convulsões e epilepsia, entre outros.

O médico Carlos Gadia acentua que os profissionais da saúde precisam entender que cada criança dentro do espectro é diferente, portanto, diagnosticar e tratar não é como um ‘livro de receitas’ em que recomendações podem ser aplicadas para todos. O TEA atinge mais meninos – quatro para cada menina – porque o cromossomo XX tem um efeito protetor contra o desencadeamento do autismo. Desde 2013, com o lançamento do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-5, na sigla em inglês), o TEA ganhou nova nomenclatura para os níveis de severidade – antes eram leve, moderado e severo e passaram a ser definidos como 1, 2 e 3. No nível 1 estão crianças bastante funcionais; no nível 3 as crianças muito pouco funcionais, e o nível 2 engloba todas as outras que têm diferentes níveis de funcionalidade. O grande grupo do autismo é o nível 2 que, no passado, era chamado de moderado. “Frente a essa especificidade de cada caso o trabalho da equipe multidisciplinar é primordial, embora requeira uma coordenação para esse acompanhamento que garanta uma sintonia na comunicação entre todos os especialistas. Além disso, os pais precisam ser acolhidos, orientados e capacitados para que compreendam que a evolução e a qualidade de vida dos filhos também dependem do estímulo que é feito em casa”, ensina.

Reprogramação celular em minicérebros criados em laboratório

Pioneiro em pesquisas que buscam desvendar qual é a base e os mecanismos biológicos do TEA, bem como para desenvolver medicamentos específicos e eficazes para o tratamento, o professor de Medicina Alysson Muotri, diretor do Programa de Células-tronco da University of California, em San Diego, Estados Unidos, recria em laboratório ‘minicérebros’ para a realização de estudos por meio da reprogramação celular. A técnica transforma células somáticas (da pele, da polpa do dente, do sangue) em células-tronco pluripotentes semelhantes à célula do embrião, que podem se transformar em qualquer célula do corpo, inclusive em neurônios funcionais. Essas células se auto-organizam em estruturas parecidas com o cérebro humano embrionário e evoluem com o tempo. Os ‘minicérebros’ não são vascularizados e, portanto, param de crescer quando atingem 0,5cm de diâmetro, mas podem ficar vivos por vários anos. “Meu laboratório criou protocolos para induzir essas células a se especializarem no sistema nervoso em quatro dimensões. Como mantêm a identidade genética do doador das células originais, podemos criar ‘minicérebros’ com autismo e neurotípicos e compará-los usando diversas ferramentas moleculares e celulares. Encontramos, por exemplo, alterações na dinâmica das redes nervosas causadas por uma diminuição da atividade sináptica (comunicação entre os neurônios). Surpreendentemente, essas alterações não são permanentes, mas podem ser reversíveis com tratamentos farmacológicos ou genéticos”, afirma.

No laboratório são feitas, ainda, mutações em diferentes genes relacionados ao autismo para que os cientistas observem o que ocorre com os ‘minicérebros’. Em muitos casos, conseguem observar alterações claras e, quando isso ocorre, o próximo passo é tentar descobrir drogas que façam a reversão do quadro. Também há áreas ou subtipos que estão mais avançados, em que se tem conhecimento de medicamentos que possam auxiliar os ‘minicérebros’ autistas e, para testá-los, já estão sendo realizados ensaios clínicos controlados. Nesses ensaios será possível identificar se os medicamentos são realmente eficientes e se teriam alguma toxicidade ou efeito colateral que não pode ser previsto nos modelos pré-clínicos. Um dos mais recentes estudos em parceria com o laboratório na Califórnia – publicado na revista científica Nature Translational Psychiatry, em janeiro – mostra a relação entre um defeito genético e o autismo. “Quando há apenas uma cópia do gene Setd5 ocorrem alterações nas conexões entre neurônios, levando a comportamentos típicos do autismo. O que se descobriu é que, quando a célula tem apenas uma cópia funcional desse gene, não é capaz de modular todos os outros durante o desenvolvimento”, ressalta. O pesquisador explica que existe uma causalidade entre mutações nesse gene e o comportamento autista. Entretanto, ainda não é possível saber como o Setd5 altera neurônios e circuitos cerebrais para afetar o comportamento, mas, possivelmente, seja porque o gene é um regulador máster no sistema nervoso. O objetivo das pesquisas do biólogo é que, no futuro, existam tratamentos personalizados guiados pela informação genética. Atualmente, o sequenciamento genético tem custo muito alto, no entanto, a tendência é que seja barateado com o tempo e, em breve, seja obrigatório para todos os indivíduos com TEA.

Inflamação em células nervosas pode ser uma das causas

Dentes de leite doados por famílias de crianças com e sem autismo estão ajudando os pesquisadores do projeto A Fada do Dente, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (ICB-USP), a conhecer melhor os mecanismos biológicos envolvidos no TEA. Criada em 2008 em parceria com a University­ of California, em San Diego, a iniciativa já recebeu cerca de 1.000 doações que foram essenciais para a descoberta de que uma inflamação em células nervosas pode ser uma das causas do transtorno. Os cientistas chegaram a essa conclusão após identificarem uma relação inédita entre os neurônios e os astrócitos – responsáveis por sustentar e nutrir os neurônios, participar da barreira hematoencefálica e regular os neurotransmissores que fazem a comunicação química entre as células cerebrais. No estudo, as células do recheio dos dentes de leite foram usadas para reprogramação, produzindo células semelhantes às células embrionárias que, depois, foram usadas para desenvolver neurônios e astrócitos in vitro, preservando a gené­tica dos doadores.

A neurocientista Patrícia Beltrão Braga, coordenadora do projeto e do­cente do ICB-USP, conta que foi realizada uma série de combinações nas quais observou­-se que os astróci­tos gerados a partir de células de crianças­ com TEA tinham uma produção­ elevada de interleucina 6 (IL-­6), acar­­retando em uma neuroinflamação e com­prometendo as atividades do siste­ma nervoso. “Os astrócitos inflama­dos­ prejudicam o desenvolvimento dos neurônios, que apresentam menos rami­ficações e conexões com outras células tornando-se menos ativos, o que pode ajudar a explicar o comporta­mento autista. Quando os neurônios neurotípicos foram relacio­nados com astrócitos autistas suas ramificações diminuíram, mas, quando o neurônio autista era combinado com astrócito neurotítpico, essas ramificações foram recuperadas”, relata.

Os pesquisadores, então, utilizaram uma molécula para bloquear a ação do excesso de IL-6 e obtiveram resultado inesperado: a recuperação do funciona­mento dos neurônios. “A dificuldade para que isso se transforme em tratamento espe­cífico para o autismo é que a molécula usada para bloquear essa ação é muito grande e, por isso, não consegue quebrar a barreira hematoencefálica para chegar ao cérebro do indivíduo com o transtorno. O desafio é encontrar uma maneira para que isso possa ser feito e, assim,  transformar nosso experimento em uma pesquisa clínica”, enfatiza a docente. Outra linha de estudo do grupo é desvendar o que causa essa neuroinflamação. A cientista acredita que pode estar relacionada ao período gestacional, devido a algum insulto causado por um patógeno que induziu a uma alteração epigenética nas células do sistema nervoso do bebê, fazendo com que a interleucina 6 fosse produzida em excesso e ocasionasse esse perfil de neuroinflamação no nascimento. A pesqui­sa com os astrócitos foi realizada em parce­ria com o professor doutor Alysson Muotri, que tem uma explicação alternativa para o fenômeno. Segundo o biólogo, a inflamação seria causada por agentes intracelulares, sugerindo que certos tipos de autismo tenham um componente autoimune, o que possibilita uma nova janela terapêutica.

Inteligência artificial

Para identificar o TEA a partir de diferenças no funcionamento do cérebro, um grupo de pesquisa do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) utilizou técnicas de inteligência artificial – deep learning. O objetivo é desenvolver algoritmo capaz de analisar neuroimagens e classificar estados mentais ou grupos clínicos a partir de diferenças no funcionamento do cérebro. Foram avaliadas cerca de 3,5 mil imagens do cérebro de 1.000 indivíduos (500 com TEA e 500 controles) de diferentes regiões dos Estados Unidos, armazenados no banco de dados do projeto Autism Imaging Data Exchange, cujo algoritmo identificou corretamente, com mais de 70% de acurácia, os indivíduos com transtorno do espectro autista. Os resultados do estudo foram publicados na revista NeuroImage­: Clinical,­ em 2018. O estudo mostra, como em pesquisas anteriores, que há uma menor sincronização entre o funcionamento de áreas anteriores e posteriores do cérebro no autismo – nos indivíduos do grupo controle essas áreas estão mais sincronizadas –, o que reflete uma diferença neurobiológica como consequência do TEA. “Foi essa diferença que mais ajudou a classificar se o cérebro era de um paciente com TEA ou não. Mas essa classificação ainda não tem valor clínico”, afirma o professor da Escola de Ciências da Saúde e pesquisador do Instituto do Cérebro, Augusto Buchweitz, que é um dos coordenadores do estudo. A pesquisa teve interesse puramente científico, porque o objetivo era entender quais foram os padrões de funcionamento que o algoritmo de inteligência artificial utilizou para diferenciar os dois grupos, quais são os mecanismos dessa rede e quais conexões não estão funcionando ou funcionam de forma diferente no cérebro da criança com TEA. Para o professor, essas informações ajudam a avançar no entendimento neurobiológico como consequência do autismo.

Tratamento baseado na análise do comportamento

Atualmente, as medicações usadas no tratamento do autismo servem apenas para diminuir ou controlar uma série de características comportamentais ou comorbidades associadas ao transtorno, como epilepsia, déficit de atenção e ansiedade. O tratamento mais indicado é feito a partir de intervenções intensivas e precoces pautadas na Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior­ Analysis – ABA), de acordo com recomendações desenvolvidas por meio de estudos científicos nos Estados Unidos, com cerca de 80% dos casos com boa ou excelente evolução. Isso quer dizer que essas pessoas suprem significativamente seus déficits e reduzem certos comportamentos característicos do transtorno. A ABA se caracteriza por uma avaliação inicial minuciosa do comportamento da criança, que leva à identificação dos comportamentos que estão em déficit (em geral relacionados à interação social e à linguagem) e em excesso (comportamento estereotipado, interesse exageradamente restrito a certos temas ou objetos, apego excessivo a rotinas, comportamento autolesivo e agressivo). A intensidade da intervenção, principalmente no caso de terapias comportamentais, deve ser preferencialmente diária e com uma carga que varia de 10 a 40 horas semanais.

Mesmo com resultados significativos, a oferta pelo tratamento ainda é um desafio frente à demanda, principalmente no SUS. “O programa de ensino deve ser individualizado e delineado a partir de uma avaliação cuidadosa das habilidades e dificuldades da criança. Na Fundação Panda, o trabalho é feito no horário invertido da escola, todos os dias e com uma carga de 15 horas semanais. Nessas três horas por dia, a criança vai ser colocada em situações que a ajudem a desenvolver as habilidades com questões relacionadas à linguagem, ao brincar e até mesmo à rotina diária, como ir ao banheiro e lavar as mãos, que vão se tornando mais complexas de acordo com a evolução”, relata a coordenadora da Fundação Panda, Maria Carolina Martone, analista do comportamento e professora do curso de pós-graduação lato sensu Transtorno do Espectro Autista e Análise do Comportamento Aplicada (ABA) do Instituto LAHMIEI (Laboratório de Aprendizagem Humana Multimídia Interativa e Ensino Informatizado) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

A intervenção é mais eficaz se for precoce, intensiva, duradoura e abrangente – incluindo a família, a escola e a equipe médica multidisciplinar. Por isso, a Fundação Panda oferece curso para capacitação de profissionais da saúde e educadores, assim como cursos de orientações para pais e cuidadores. “Quanto mais cedo os familiares e os profissionais observarem sinais, mesmo sem ter o diagnóstico fechado, mais precocemente será possível iniciar um programa de estimulação global da criança para que tenha uma melhora e redução do risco de expansão desses sintomas. Além disso, o envolvimento dos familiares faz parte do processo, ao criarem um ambiente estimulador em casa que complemente todo o nosso trabalho”, orienta. Outra intervenção, que deve ser desenvolvida em conjunto com os demais profissionais da saúde, é o trabalho com fonoaudiólogo para o desenvolvimento da linguagem da criança.

Política de inclusão

No Brasil, foi criada a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista por meio da Lei Federal nº 12.764/2012, estabelecendo que crianças com diagnóstico comprovado tenham direito a todas as políticas de inclusão. A legislação garante que crianças com autismo possam frequentar escolas regulares e, se necessário, solicitar acompanhamento individual. No entanto, para os especialistas ainda há uma grande distância entre o papel e a realidade vivenciada pelas famílias e pelos indivíduos com TEA. “Temos uma lei que ampara, mas as conquistas ainda estão sendo adquiridas. Ainda há muito a melhorar e reivindicar no País em termos gerais mas, por outro lado, existem associações e movimentos de familiares cada vez mais consolidados, que têm  lutado cada vez mais pelos direitos e pelo respeito da sociedade de modo geral”, ressalta a professora Maria Carolina Martone.

O possível efeito do uso de canabinoides

Nos últimos anos, o uso medicinal de canabinoides – substâncias encontradas na cannabis que ativam receptores específicos no cérebro humano – tem sido regulamentado em países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Israel e Peru. Essa quebra de paradigmas vai ao encontro de pesquisas e estudos clínicos que têm identificado benefícios terapêuticos para o tratamento de diversos transtornos e doenças e, mais recentemente, para o autismo. Entre as comprovações estão estudos desenvolvidos na Universidade Ben Gurion e no Soroka Medical Center, em Israel. Em um estudo, pesquisadores acompanharam 188 menores de 18 anos tratados com canabinoides entre 2015 e 2017 – a maior parte do tratamento foi baseada no uso do óleo de cannabis contendo 30% de canabidiol (CBD) e 1,5% de tetrahidrocanabinol (THC). Após seis meses de uso, 82,4% dos pacientes relataram avanços significativos ou moderados em aspectos comportamentais como melhora do humor e níveis de ansiedade, na concentração e qualidade do sono, assim como maior facilidade para realizar tarefas do cotidiano. Antes da intervenção, apenas um terço dos participantes afirmou ter boa qualidade de vida e, após o tratamento, esse índice dobrou. Apesar dos resultados, o biólogo Alysson Muotri afirma que, por ser um estudo retrospectivo e sem análise quantitativa, não é possível provar que foi o CBD o agente causador da melhora de vida desses indivíduos. “O único ensaio clínico controlado e específico para o TEA usando CBD puro

no mundo está sendo feito no nosso laboratório e os resultados saem em dois anos”, enfatiza o pesquisador.

No Brasil, um estudo observacional rea­lizado pela Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA+ME) com 15 crianças e adolescentes com TEA demonstrou avanços significativos ao fazer uso de extrato rico em CBD como terapia complementar. Após nove meses de acompanhamento, 76,5% dos pais relataram melhora expressiva em relação ao déficit de atenção e concentração dos filhos; o comportamento repetitivo com estereotipia teve redução expressiva em 72% dos pacientes e 64% tiveram a suspensão da medicação neuropsiquiátrica. No Brasil, a prescrição dos medicamentos à base de cannabis foi liberada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em outubro de 2014 e, atualmente, aproximadamente 4,2 mil pacientes possuem autorização concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importar remédios de alto custo que utilizam a planta na composição para uso terapêutico de diversas enfermidades.

“Os resultados são promissores, o que mostra que os canabinoides têm potencial de modular a ativação dos neurônios e diminuir a resposta inflamatória no sistema nervoso central, proporcionando um ganho de qualidade de vida. No entanto, ainda precisamos vencer o preconceito e as barreiras de regulamentação do Brasil para que as famílias consigam, assim como em outros países, ter acesso a esses tratamentos”, enfatiza o cirurgião oncológico e presidente da AMA+ME, Leandro Ramires, um dos autores do estudo. Pai de um menino de 11 anos com TEA, o médico começou a fazer uso do extrato da cannabis com acompanhamento do neuropediatra e seu filho deixou de tomar cinco medicamentos: quatro anticonvulsivantes e um antipsicótico.

Os canabinoides oferecem eficácia te­ra­pêutica para o ser humano devido à semelhança com substâncias produzidas pelo próprio organismo – chamadas endocanabinoides – que ativam receptores específicos no cérebro, mantendo a ordem e o funcionamento correto do corpo ao impedir o excesso de atividade neuronal e proteger os neurônios contra danos causados por inflamação ou isquemia. Hoje, já se sabe que pessoas com TEA têm uma produção baixa de canabinoides e que isso pode explicar vários dos sintomas, como hiperatividade, hipersensibilidade, dificuldade de coordenação motora, ansiedade e excesso de reação emocional. “O potencial terapêutico dos canabinoides diminui os sintomas, em uma função paliativa, e restabelece condições orgânicas para o sistema funcionar, diminuindo o excesso de atividade neuronal. Com isso, pode tornar­-se um tratamento que leve à estabilidade dos sintomas do transtorno, permitindo aos pacientes melhorar a comunicação e interação social e absorver melhor os benefícios dos tratamentos terapêuticos e educacionais, por exemplo”, reforça o neurocientista Renato Malcher, professor da Universidade de Brasília (UnB), pesquisador do uso terapêutico de cannabis há mais de 10 anos e um dos autores do estudo da AMA+ME.

 

Princípios ativos

O canabidiol, que não é psicoativo, eleva os canabinoides endógenos produzidos pelo organismo e reduz o exces­so de ativação dos neurônios, evitando, por exemplo, convulsões e ansiedade. Já o tetrahidrocanabinol é usado para combater dor, enjoos e crises de epilepsia, no entanto, dependendo da quantidade, a substância pode causar o efeito da psicose tóxica. De maneira geral, o canabidiol e o THC sozinhos ou combinados são versáteis e úteis para vários tipos de aplicação. “Existe uma tendência inevitável, do ponto de vista científico, de que nos próximos anos existam comprovações muito mais contundentes da eficácia do uso de canabinoides para o TEA. Isso deverá alavancar a consciência da sociedade e os próprios familiares vão cobrar um posicionamento dos médicos, que terão de se informar e, quem sabe, se interessem em participar do processo científico de forma que o Brasil avance”, ressalta o neurocientista.

Vacina não apresenta risco

Estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, cruzou registros de vacinação de 657.461 crianças e chegou à mesma conclusão de evidências científicas publicadas anteriormente: a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola (MMR ou tríplice viral) não aumenta o risco para o autismo, não desencadeia o transtorno em crianças com fatores de risco e nem está associada ao agrupamento de casos de TEA após vacinação. A pesquisa publicada no Annals of Internal Medicine, em abril, examinou dados de crianças nascidas de1999 a 2010 (acompanhadas até 2013) e comparou o número de diagnosticados entre as crianças vacinadas e as não imunizadas, não encontrando diferença.

O trabalho desmistifica a associação entre imunização e TEA, que ganhou força em 1998 depois de um estudo com 12 crianças mostrar vínculo entre a tríplice viral e o autismo. Após ser publicado, descobriu-se que o autor havia falsificado os resultados e que o estudo não tinha comprovação científica de fato. Mesmo assim, o assunto continuou a ser sustentado por ativistas do movimento antivacinas, embora a comunidade científica já tenha publicado, desde então, diversos estudos com milhares de crianças reforçando que não há nenhuma relação. Esse tipo de movimento começou nos Estados Unidos há 10 anos e, no Brasil, tem se intensificado nos últimos dois anos, principalmente com a disseminação de informações na internet. Com isso, doenças até então erradicadas têm voltado a ser diagnosticadas, como o sarampo, porque os pais têm medo de imunizar os filhos.

“O que preocupa ainda mais é que há crianças que não podem ser vacinadas por vários motivos e dependem exclusi­vamente de uma barreira, que é feita com a imunização das demais para se protegerem contra diversas doenças. Esse cenário reforça que as fake news e o que é compartilhado nas redes sociais, com a rápida velocidade da informação, têm sido vistos como verdade pela população, enquanto que o canal de conhecimento é o profissional da saúde”, ressalta a professora associada do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Daniela Santoro Rosa, que é membro da Comissão de Ensino da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI). Como forma de combater informações equivocadas, a SBI prepara um curso on-line de Imunologia cujo tópi­co central é a imunização. A ideia é esclarecer mitos e verdades e conscientizar os profissionais da saúde sobre a importância da orientação adequada e do compartilhamento do conhecimento durante as consultas.