Aliados contra o câncer colorretal

Estudos sugerem que probióticos e prebióticos poderiam beneficiar pacientes para a prevenção e o tratamento da neoplasia

Adenilde Bringel

As estimativas do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) indicam que deverão ocorrer 36.360 novos casos de câncer colorretal no Brasil para cada ano do biênio 2018-2019. As mulheres deverão ser as mais atingidas, com 18.980 novos casos, enquanto nos homens as projeções são de 17.380, com risco estimado para 15.415 óbitos: 8.024 e 7.387, respectivamente. Dos 10 tipos de câncer mais incidentes no Brasil, com exceção de pele não melanoma, o colorretal ocupa a terceira posição no sexo masculino e a segunda no sexo feminino, com maior ocorrência na região sudeste. Por ser uma neoplasia silenciosa e que demora cerca de 10 anos para dar algum sinal, em geral o diagnóstico é tardio, o que justifica a alta mortalidade. Uma vez que a ciência já demonstrou que a microbiota intestinal tem papel fundamental na prevenção de doenças, especialmente as intestinais, pesquisadores têm investigado até que ponto o uso de probióticos e prebióticos (simbióticos) poderia contribuir para diminuir os riscos.

Vários artigos de revisão bibliográfica, com base em estudos científicos desenvolvidos desde 2003, indicam que o consumo de probióticos e prebióticos pode diminuir o risco de câncer de cólon. Entre os possíveis mecanismos de ação estão redução da resposta inflamatória, inibição de formação de células tumorais e da conversão de substâncias pré-carcinogênicas em carcinogênicas, alteração das atividades metabólicas e da composição da microbiota intestinal, alteração de condições físico-químicas no cólon, produção de compostos antitumorigênicos ou antimutagênicos e modulação da resposta imune. “Publicamos alguns artigos relacionados ao câncer de cólon e os probióticos realmente se mostraram eficazes na prevenção da indução da carcinogênese. Vários outros experimentos mostraram que o probiótico, aliado a uma alimentação saudável e à prática regular de exercício físico por, no mínimo, 150 minutos semanais, pode ser um agente de prevenção da neoplasia. Mas o ideal é que seja um hábito de vida de longo prazo”, afirma a professora doutora Katia Sivieri, docente do Departamento de Alimentos e Nutrição da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (FCF-UNESP) – campus Araraquara.

Em um dos estudos, pesquisadores da FCF-UNESP induziram carcinogênese química em modelo animal e avaliaram a ação do probiótico Enterococcus faecium CRL 183 em grupos com ingestão do probiótico uma semana antes da indução química, depois e durante a indução, em paralelo ao grupo controle. Os cientistas também separaram os animais que faziam atividade física moderada e intensa, assim como os sedentários. “Os resultados mostraram que, no período de iniciação da carcinogênese, o probiótico foi bem efetivo nos animais que fizeram atividade física moderada. Nos que realizaram atividade física intensa o resultado foi o mesmo dos sedentários e dos controles que não tomaram probióticos. A conclusão é que o probiótico, aliado à atividade física moderada, reduz o risco de início do processo de carcinogênese, mesmo que exista algum dano celular”, informa.

Os estudos também demonstram que os probióticos podem ser importantes aliados no pós-operatório de tumor de cólon, porque ajudam na modulação da microbiota intestinal, principalmente quando se retira parte do intestino. “Probióticos podem ser muito interessantes tanto para prevenir o dano celular e a carcinôgene quanto para repor a microbiota e evitar uma recidiva, porque ajudam na melhora do sistema imune. E, nessa linha, a Yakult tem inúmeros estudos com o Lactobacillus casei Shirota mostrando bem esse papel de estimulação do sistema imune”, ressalta a professora Katia

Sivieri. Partindo desse princípio, o setor de Nutrição Clínica do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo, utiliza probióticos e prebióticos para a regularização da microbiota intestinal de pacientes operados ou tratados com quimioterapia e radioterapia. A nutricionista Thais Manfrinato, líder da área de Nutrição Clínica do hospital – referência no tratamento de câncer na América Latina – conta que o objetivo é tentar manter o hábito intestinal regular, diminuir

efeitos colaterais do tratamento e reforçar a imunidade.

Segundo a nutricionista, há muitos estudos que mostram benefícios dos probióticos para pacientes tratados com radioterapia, inclusive em outros tipos de câncer, como colo do útero e próstata. Para comprovar os resultados, o A.C.Camargo Cancer Center pretende iniciar um estudo com uso de probióticos envolvendo pacientes com neoplasia de reto em tratamento radioterápico. Entretanto, ainda pairam dúvidas sobre a eficiência dos probióticos em pacientes submetidos ao tratamento quimioterápico, principalmente porque muitos ficam com a imunidade baixa e, consequentemente, têm maior risco de translocação bacteriana. “Neste caso, usamos prebióticos para auxiliar no controle da diarreia, especialmente frutooligossacarídeos. No entanto, se o indivíduo estiver com a imunidade adequada, medida pelo número de leucócitos, poderá receber o probiótico, pois os benefícios incluem a manutenção do hábito intestinal regular e a reconstituição da microbiota intestinal”, argumenta.

Os probióticos também são comprovadamente eficazes para o controle da diarreia, muito comum entre pacientes oncológicos, que pode ser provocada tanto pelo uso de antibióticos quanto como efeito colateral da radioterapia e quimioterapia. As drogas Irinotecano e Fluoracil, por exemplo, têm como efeito colateral a diarreia em 90% dos pacientes. Uma das condutas da área de Nutrição do A.C.Camargo Cancer Center é utilizar o probiótico assim que o paciente começa a antibioticoterapia, com objetivo de reduzir a diarreia. Muitos trabalhos também indicam que probiótico e prebiótico juntos, ingeridos antes e depois do procedimento cirúrgico, trazem vários benefícios, entre os quais redução no tempo de internação e no risco de complicações no pós-operatório, recuperação da microbiota intestinal e retorno mais rápido aos hábitos alimentares. “É fundamental monitorar a imunidade do paciente. Mas, se for possível usar os simbióticos, sem dúvida haverá benefícios importantes”, argumenta a nutricionista Thais Manfrinato, ao ressaltar que é necessário ter mais estudos clínicos demonstrando o benefício dos probióticos e prebióticos para esses pacientes, para que mais profissionais da saúde possam aplicar a terapia simbiótica na prática clínica.

Cepa-dependente

A dúvida dos pesquisadores ainda reside em quais cepas utilizar para obter os benefícios. A professora Katia Sivieri, da UNESP, que trabalha com diferentes espécies de Lactobacillus e Bifidobacterium, lembra que cada cepa produz um determinado efeito que, embora seja sempre benéfico, pode dar diferentes respostas. “Estudamos as três regiões do cólon: ascendente, transverso e descendente e, dependendo da cepa, temos uma maior resposta em cada uma delas, que pode ser maior produção de ácidos graxos de cadeia curta, diminuição de amônia e até modulação da própria microbiota intestinal”, acentua, ao reforçar a característica cepa-dependente dos probióticos de acordo com a doença de base.

A nutricionista Thais Manfrinato acrescenta que, ao fazer um levantamento dos estudos já publicados sobre probióticos e câncer colorretal, é possível perceber o uso de vários tipos de cepas, o que é um indicativo de que apenas uma pode não ser suficiente para trazer o efeito benéfico desejado em alguns casos. Entre os estudos desenvolvidos sobre o tema, em várias partes do mundo, os cientistas utilizaram Lactobacillus casei (incluindo a subespécie Shirota, exclusiva da Yakult), Lactobacillus rhamnosus GG, L. acidophilus, Bifidobacterium breve e

Bifidobacterium lactis. “Já temos no mercado probióticos com até cinco cepas e a maioria dos estudos mostra que o melhor benefício realmente advém da união de diferentes cepas. Por isso, ainda precisamos de mais estudos para entender qual é a melhor cepa para aquela situação e para aquele paciente”, acredita.

Bactérias intestinais podem influenciar eficácia do tratamento

Apesar de diversos mecanismos envolvidos na predisposição ou no desenvolvimento de neoplasia colorretal já serem conhecidos, ainda resta muito a ser desvendado. Pesquisas recentes demonstram que todos os fatores de risco para o desenvolvimento desses tumores – idade, consumo de álcool e tabaco, falta de atividade física, aumento do peso corporal e alimentação rica em gordura saturada e pobre em fibras, além da ingestão constante de alimentos ultraprocessados – interferem na composição da microbiota intestinal. E alguns estudos sugerem que a alteração da microbiota, com maior população de bactérias de potencial patogênico, pode ser determinante para o desenvolvimento do tumor. Para avaliar essa hipótese, pesquisadores do A.C.Camargo Cancer Center e da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram uma análise com 36 amostras de tecido retal humano, colhidas por meio de exames de colonoscopia de 18 pacientes com diagnóstico de câncer de reto, ainda sem tratamento, e outros 18 indivíduos saudáveis. Os cientistas avaliaram as comunidades bacterianas encontradas nos tecidos, observaram aumentos significativos na riqueza e diversidade de espécies em amostras de indivíduos com câncer retal e identificaram diversas bactérias importantes, algumas ainda desconhecidas da ciência.

“Vimos um fenômeno interessante, pois, nas amostras de tumor, havia muito mais bactérias do que nas amostras saudáveis, o que sugere que a diversidade bacteriana aumenta nos pacientes com câncer, o que parece ser uma característica do próprio tecido tumoral. Nosso estudo reforça o conceito de que a microbiota associada ao tumor é muito importante para determinar se o paciente vai desenvolver um tumor, e pode ser importante para indicar se vai responder ou não à quimioterapia”, explica o pesquisador Emmanuel Dias-Neto, do Laboratório de Genômica Médica do A.C.Camargo Cancer Center. A atuação da microbiota na resposta ao tratamento pode ocorrer de diversas maneiras, incluindo o contato direto de algumas bactérias com as células humanas, podendo desencadear uma resposta imunológica mais efetiva no combate das células tumorais, na destruição ou ativação de determinados quimioterápicos ou, ainda, na geração de compostos que regulam a inflamação sistêmica, contribuindo, assim, para a redução do desenvolvimento de tumores.

A hipótese de interferência foi confirmada em um trabalho de pesquisadores do Instituto Weizmann, de Israel, publicado no final de 2017. O estudo demonstrou que um determinado grupo bacteriano, presente em 70% dos pacientes com câncer de pâncreas, não deixa o tratamento funcionar porque consegue destruir, em duas horas, o quimioterápico Gencitabina. No entanto, essas descobertas não significam que a presença de uma determinada bactéria vai indicar se o indivíduo terá câncer, uma vez que o principal fator para o desencadeamento da doença é a disbiose intestinal, que ocorre quando há desequilíbrio de determinadas espécies necessárias para a manutenção da harmonia nesse microambiente. “O grande desafio é descobrir qual é a composição mais adequada para evitar o câncer. Agora, o grupo do A.C.Camargo está coletando outras amostras para avaliar as bactérias e o status imunológico da lesão, com objetivo de verificar se há marcadores sanguíneos de inflamação ou de ativação de uma resposta celular específica e presença de mutações no DNA do paciente”, acentua. Em um projeto seguinte, os pesquisadores avaliarão o uso de probióticos em alguns grupos para verificar se é possível modular, de algum modo, a composição microbiana e, talvez, acertar o prognóstico de alguns pacientes ou entender os mecanismos de resposta. Esta etapa está na fase de coleta de amostras para gerar alguns dados em breve.