A nutrição no autismo

Estudos mostram a importância dos nutrientes e reforçam o papel do acompanhamento individual na alimentação da criança

 

Nos últimos anos, os estudos científicos relacionados ao transtorno do espectro autista e a nutrição têm crescido mundialmente para retificar a ideia de que o TEA não se caracteriza apenas por uma desordem neurológica, mas que existem múltiplos aspectos envolvidos na etiologia desse transtorno e um deles é a nutrição. Algumas evidências mostram que os desequilíbrios do metabolismo do ácido fólico e outras deficiências nutricionais – como vitamina D, vitaminas do complexo B e ferro – durante a gestação podem ser considerados fatores de risco para o TEA. A formação do sistema nervoso central começa a partir da terceira semana de gestação, por isso, o acompanhamento profissional deve ocorrer antes de a mulher engravidar, uma vez que a descoberta da gravidez, às vezes, acontece após esse período de desenvolvimento. As crianças com autismo costumam apresentar, em cerca de 80% dos casos, características comportamentais frequentes envolvendo a alimentação, como aversão, seletividade e recusa ao provar novos alimentos, além de preferência por cores, texturas, formatos ou até algumas estereotipias. Normalmente, a seletividade já é consequência de desequilíbrios nutricionais anteriores. Isso pode ocasionar limitações de nutrientes e, em longo prazo, dependendo do nível dessas características, acarretar problemas crônicos de déficit de crescimento e de desenvolvimento físico e cognitivo.

Com isso, cada vez mais o profissional de nutrição tem ganhado espaço de extrema importância dentro das equipes multiprofissionais na fase gestacional e na infância, assim como no apoio junto às famílias de crianças com TEA, para mostrar a relevância da avaliação nutricional dentro da rotina clínica de cada indivíduo. “Muitas crianças fazem uso de medicamentos que comprovadamente influenciam nos hormônios relacionados com o centro de saciedade e da fome, interferindo no consumo alimentar. Sendo assim, o ideal é que tanto a tomada de decisão quanto o acompanhamento sejam feitos em conjunto pelos profissionais”, ressalta a nutricionista especialista em Nutrição Pediátrica Kamila Castro Grokoski, pesquisadora assistente no Instituto Neurocentre Magendie da França e integrante do grupo Physiopathologie de la plasticité neuronale. Nos últimos nove anos, a especialista tem se dedicado às pesquisas clínicas e experimentais com foco em TEA e aos aspectos nutricionais, como comportamento alimentar e composição corporal.

No estudo caso-controle publicado no International Journal of Developmental Neuroscience, em 2016, a pesquisadora avaliou o comportamento e o consumo alimentar de 49 crianças e adolescentes do sexo masculino, de 4 a 16 anos, diagnosticados com TEA e atendidos no Serviço de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Observou-se que o grupo de pacientes com TEA consumia, em média, mais calorias do que o grupo controle, além de ter um repertório alimentar limitado e uma alta prevalência de ingestão inadequada de algumas vitaminas e mine­rais. As crianças com TEA e sobrepeso ou obesidade também apresentavam mais problemas alimentares em relação àquelas com peso adequado. Esses fatores podem estar relacionados a uma monotonia da variedade de alimentos, preferências por alimentos ricos em amido, salgadinhos e uma baixa frequência de consumo de frutas e vegetais. “Esse trabalho endossou a ausência e a importância do uso de uma ferramenta específica de avaliação dos problemas alimentares de pacientes com autismo no Brasil”, revela a nutricionista. Frente a esse cenário, a pesquisadora recebeu a autorização para a tradução e validação do questionário americano Autism Mealtime Behavior Inventory (BAMBI), publicado em abril no Journal of Autism and Developmental­ Disorders. O Breve Registro de Comportamento Alimentar de Pacientes com TEA (BRCA-TEA) auxilia a equipe médica nas tomadas de decisões, ajuda nas intervenções com os pais sobre os problemas alimentares e possíveis consequências, bem como avalia a evolução do próprio paciente.

Atualmente, existe um debate entre os profissionais sobre a retirada de determinados alimentos ou a adoção de dietas restritivas, entre as quais o corte de glúten, açúcar ou leites e derivados, assim como o uso de probióticos e suplementos no dia a dia das crianças com TEA. A nutricionista Kamila Castro Grokoski­ enfatiza que não existem dietas que tratem ou curem o TEA, nem evidências científicas que comprovem a eficácia da retirada de determinados alimentos, mas sim orientações nutricionais que são definidas e delineadas de acordo com a individualidade da criança. A especialista reforça, ainda, que o mais importante é estabelecer uma rotina de alimentação saudável e organizada, com a criança envolvida no ambiente do preparo da alimentação sempre que possível, pois, ao saber previamente o que será oferecido e fazer parte dessa escolha, poderá compreender que existem os momentos e os alimentos certos para cada refeição. “É um trabalho gradual de aprendizado e aceitação em que a criança vai aprender a ser mais flexível, dentro do grau de severidade do TEA e de acordo com suas possibilidades de experimentar novos alimentos no dia a dia”, orienta.

Pesquisa realizada pela nutricionista clínica Giuliana Marques Barbosa, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, apontou que grande parte das crianças com autismo é submetida a restrições alimentares, mesmo sem acompanhamento nutricional e, quando acompanhadas por profissional, em 40% dos casos é apenas pelo médico. O estudo foi feito com 25 crianças do projeto de musicoterapia ‘Uma Sinfonia Diferente’, do Distrito Federal, com aplicação de um questionário elaborado especificamente para os pais. Dentre os resultados, 17 crianças eram submetidas a algum tipo de restrição alimentar – sendo 48% com dieta sem glúten, 36% sem açúcar e 32% sem leite e derivados. “Os pais estão em uma busca constante por estratégias que resultem em algum tipo de melhora no desenvolvimento de seus filhos, porém, a maioria não recorre ao acompanhamento nutricional. Isso é bem preocupante porque, com acesso fácil às informações na internet e sem o auxílio de um profissional de Nutrição, a exclusão de alimentos pode acarretar falsas esperanças na melhora dos sintomas e provocar deficiências nutricionais e problemas crônicos que influenciam o desenvolvimento da criança de maneira geral”, alerta.

Alguns estudos também apontam que os pacientes com TEA têm mais problemas gastrointestinais e apresentam deficiências na produção de enzimas que participam da metabolização do glúten e da caseína, causando desequilíbrio na microbiota intestinal. A nutricionista Kamila Castro Grokoski lembra que existe uma alta prevalência de doença celíaca em pacientes com autismo, mas ainda não há uma confirmação científica sobre essa relação. “Além disso, o diagnóstico da doença celíaca não é fácil e, muitas vezes, é tardio para esses pacientes, por isso ocorre uma associação da retirada de alimentos com glúten e a melhora dos sintomas. No entanto, o que sabemos é que algo ocorre no eixo cérebro-intestino, existindo a possibilidade de haver uma falha metabólica. Inclusive, o tema tem sido muito estudado com várias publicações a respeito dessa relação”, explica.

Avaliação da composição corporal

A nutricionista Kamila Castro Grokoski também foi responsável pelo primeiro trabalho de avaliação da composição corporal de crianças com TEA por meio da bioimpedância elétrica. Publicado na revista Nutrición Hospitalaria em 2017, o estudo foi feito na Unidade de Neuropediatria e no Centro de Estudos em Alimentação e Nutrição (CESAN) do HCPA/UFRGS com 63 crianças e adolescentes de 4 a 16 anos de idade. O resultado mostrou um percentual de sobrepeso e obesidade superior ao percentual em crianças com desenvolvimento típico, o que pode estar relacionado, por exemplo, com uma menor frequência da prática de atividade física, além da hipótese de que indivíduos com TEA tenham preferência por alimentos palatáveis com alto teor de carboidratos. Em outro trabalho publicado no bioRxiv, em abril deste ano, a pesquisadora fez uma correlação entre os hormônios leptina e adiponectina com a composição corporal e o perfil lipídico de crianças com autismo. Entre os resultados, notou-se que os participantes com TEA apresentaram níveis mais elevados de leptina, sem alterações nos níveis de adiponectina em comparação com crianças do grupo controle. Isso sustenta o papel da leptina como biomarcador de adiposidade em crianças com autismo. “Essa alteração hormonal está vinculada ao centro da saciedade e da fome, podendo ter uma relação do aumento do consumo alimentar e a diminuição do gasto energético”, relata.

Livro aborda importância de fundamentos nutricionais

Do ponto de vista nutricional, o autismo é um transtorno sistê­mico com comprometimento também no sistema nervoso central. Esses sinto­mas têm como causa desequilíbrios nutricionais, processos inflamatórios, dis­túr­­bios gastrointestinais e alergias alimentares, entre outros fatores que podem provocar alterações funcionais em diversos órgãos e sistemas do organismo. No livro ‘Abordagem nutricional na prevenção e no tratamento do autismo’ (Editor-autor, 512 págs, 2018), a nutricionista Denise Madi Carreiro, docente do curso de Pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional do Centro Valéria Paschoal/Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) e autora de 13 livros sobre nutrição clínica e comportamento alimentar, mostra a importância de resgatar fundamentos de origem nutricional para prevenir e reverter alguns dos sintomas do transtorno, quando esses são de origem nutricional.

Por ser um tema polêmico que divide opiniões na área da saúde, a nutricionista se baseou em uma série de estudos científicos nacionais e internacionais para a elaboração do livro, no qual apresenta o transtorno como um problema multifatorial, cuja origem pode começar no processo gestacional e no processo contínuo de formação e desenvolvimento do bebê nos seus primeiros anos de vida. Quanto às restrições e inclusões alimentares, orientações e suplementações nutricionais, a profissional ressalta que é preciso avaliar de maneira individual o histórico da criança para que se consiga ampliar a diversidade do cardápio e, assim, equilibrar o organismo, recuperar a microbiota saudável e obter gradativamente melhora dos sintomas e da qualidade de vida.

“Há estudos consolidados sobre quais alimentos têm mais relação com o processo inflamatório do sistema nervoso central e o consenso maior está relacionado ao glúten, à soja e à proteína do leite de vaca. Há determinados alimentos que são mais difíceis de digerir em um organismo que tem dificuldade de digestão. Proteína mal digerida, por exemplo, é uma das causas da inflamação do organismo e pode servir de alimento para bactérias e fungos que produzem toxinas que agem diretamente no sistema nervoso central”, assinala a nutricionista Denise Madi Carreiro, que passou a estudar o tema após observar o aumento do número de pacientes com autismo no consultório ao longo dos mais de 25 anos de atendimentos.