A Música e seu potencial nos processos de cura

Pessoas com deficiência motora e intelectual ultrapassam barreiras e aprendem a tocar um instrumento musical

A música vem sendo utilizada como processo de cura desde os primórdios da humanidade, mas se estabeleceu como Ciência somente após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando passou a auxiliar na recuperação de soldados feridos. Com inúmeras aplicações e resultados satisfatórios baseados em uma série de pesquisas científicas ao longo de décadas, a musicoterapia já provou que tem efeito motivador, apoiando tratamentos para diversas doenças, condições físicas ou psicológicas. A música também é um caminho eficiente para afastar o preconceito e melhorar a autoestima de crianças e jovens com deficiência. Para pessoas com paralisia cerebral, além dos benefícios de prazer, alegria, descobertas e superação, acrescentam-se a comunicação, integração, identificação e o enfrentamento dos limites físicos e mentais, podendo ser utilizada como instrumento terapêutico para estimulação cognitiva, psicomotora, afetiva e educacional. Ao despertar o crescimento interior e o resgate de si mesmo por meio da mistura de ritmos, melodias, harmonia, instrumentos musicais e audição, o cérebro é estimulado positivamente e produz benefícios sistêmicos, diminuindo a ansiedade e a dor, e melhorando a interação com outras pessoas e seu desempenho em terapias associadas.

Pelo esforço para aprender, indivíduos com deficiência motora e intelectual também ultrapassam barreiras e fazem o que, até então, seria pouco provável: tocar um instrumento musical. Com esse propósito, o músico e luthier (profissional especializado na construção e no reparo de instrumentos de cordas) Reinaldo Amorim Casteluzzo desenvolveu um violão adaptado. O objetivo era oferecer um instrumento que pudesse ser tocado por jovens com mobilidade reduzida nos membros superiores para incluir esses indivíduos em atividades musicais não apenas como ouvintes, mas como participantes ativos da prática musical. Batizado de ‘Violão Terapêutico’, o instrumento foi desenvolvido com afinação que dispensa o uso de uma das mãos e tem 12 cordas, divididas em três grupos, cada um formando uma tonalidade e com afinação das cordas soltas. “O violão terapêutico tem as mesmas características do convencional, mas com recursos especiais como, por exemplo, a combinação das tríades que formam os acordes para construir as notas fundamentais tônica, dominante e subdominante. Com isso, possibilita ao executante tocar com uma única mão dispensando, ainda, longos períodos de estudos”, descreve o músico. No violão convencional é preciso o uso das duas mãos, uma para pressionar as cordas para fazer o acorde e a outra para vibrá-las e produzir os sons, diferentemente do instrumento adaptado que só precisa da mão que vibra as cordas, já afinadas em acordes fundamentais.

Para avaliar a funcionalidade, o instrumento desenvolvido por Reinaldo Amorim Casteluzzo foi tema de pesquisa durante o mestrado na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCMUnicamp), com orientação do professor doutor Roberto Teixeira Mendes, docente do Departamento de Pediatria da Instituição. O violão terapêutico foi testado por um grupo de 22 crianças e adolescentes com paralisia cerebral e comprometimento nos membros superiores, com idades entre 7 e 21 anos, da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) do município de Arthur Nogueira, interior de São Paulo, atendidos pelo Hospital de Clínicas da Unicamp. “Para a intervenção, tivemos a participação de uma equipe multiprofissional formada por psicóloga, assistente social e professora de música que, antes do início da pesquisa, aplicaram um questionário aos pacientes para avaliar a Escala de Autoestima de Rosenberg, um dos instrumentos mais utilizados para analisar o autoconceito”, informa o músico.

Depois de 90 dias da primeira intervenção, o questionário foi reaplicado e os resultados foram considerados surpreendentes, porque todos os alunos com paralisia cerebral – alguns com comprometimento nos dois braços – conseguiram tocar o instrumento. Segundo Reinaldo Amorim Casteluzzo, o resultado caracteriza o violão terapêutico como um novo método de aprendizado e de avaliação na melhora da autoestima de jovens com paralisia cerebral em reabilitação, mas também mostra-se promissor para indivíduos com várias outras deficiências. O instrumento pode ser usado por terapeutas nas atividades profissionais e por qualquer pessoa com dificuldades de aprendizado e de mobilidade, contribuindo para todos que desejam superar suas próprias limitações. “Como clínico, avaliei os impactos positivos que a prática do violão ofereceu a esse grupo de crianças e adolescentes e, certamente, houve uma melhora significativa da autoestima, da linguagem, da capacidade de aprendizado e de aspectos motores e socioafetivos, assim como na confiança e no bem-estar, provando a eficiência dessa metodologia como terapia de integração inclusiva”, avalia o pediatra Roberto Teixeira Mendes.

Efeito surpreendente na recuperação

Utilizar a música como metodologia para propiciar saúde e bem-estar sempre será benéfico para pacientes de todas as idades e com qualquer enfermidade, pois a melodia cria vínculos, promove autoconhecimento, melhora a comunicação, ameniza a dor e induz o movimento. “Utilizando sons, melodias, letras e ritmos, a música também pode ser utilizada para objetivos terapêuticos ao propiciar aos pacientes a possibilidade de expressar emoções e aumentar a percepção rítmica/sonora com o objetivo de aprendizados cognitivos e motores a serem transpostos às atividades da vida diária”, afirma a musicoterapeuta Ana Cristina Sanchez, da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). Com efeito surpreendente, a música trabalha questões emocionais, como autoestima, aceitação às regras, respeito às escolhas dos outros, socialização, superação dos limites, comunicação verbal e não verbal, entre outras, todas incorporadas ao processo terapêutico.

O aprendizado deve ser dirigido de acordo com idade, limitações e histórico do paciente, acompanhando o desenvolvimento mental, a forma com que se relaciona com outras pessoas ou a dificuldade de aceitação às terapias paralelas. Os atendimentos podem ser individuais, indicados para pacientes com maior comprometimento motor e necessidade de intervenção terapêutica personalizada, ou em grupo de pessoas com características similares, possibilitando também focar em objetivos comportamentais e visando mudanças no afeto e na socialização. As técnicas de musicoterapia são aplicadas de acordo com a necessidade de cada paciente. O ritmo é trabalhado para auxiliar na melhora da estabilidade de movimentos motores de membros superiores e inferiores; a capacidade de percepção sonora propicia a identificação de diferenciação sonora, tendo similaridade com o processo de alfabetização; a capacidade de memorização sequencial de sons correlaciona-se com a capacidade de organizar fonemas para a leitura e escrita; atividades com canto auxiliam na articulação oral, fala e respiração; e a execução instrumental ajuda na melhora da coordenação motora global, fina e visomotora. “Ao impulsionar as habilidades residuais, a musicoterapia  proporciona uma melhora no funcionamento global, atingindo bem-estar e equilíbrio emocional, mental e corporal, assim como a descoberta de habilidades e o restabelecimento de funções para melhor expressão, raciocínio lógico, desempenho motor, qualidade de vida e inclusão social”, enumera a musicoterapeuta da AACD.